Em apenas duas décadas, a China deixou de ser um parceiro econômico emergente, para tornar-se um ator determinante na América Latina. Seus investimentos em portos, redes elétricas e infraestrutura consolidaram sua influência na região. Mas, junto com esse avanço visível, outro se desenvolveu nas sombras: a expansão das redes criminosas chinesas.
“A influência da China não se limita aos âmbitos tradicionais do poder e transformou o crime organizado em mais uma frente de sua estratégia de poder global”, alertou em uma entrevista à Diálogo o premiado jornalista investigativo Sebastian Rotella, especialista em crime transnacional.
Por trás de contêineres, câmaras de comércio e centros culturais, opera uma rede que combina lavagem de dinheiro, contrabando, tráfico de pessoas, tráfico ilegal de drogas e de espécies da fauna e da flora silvestres. E isso é feito, de acordo com investigações e especialistas, conforme foi exposto na primeira parte desta reportagem, sob a tolerância – e até mesmo a funcionalidade – do aparato estatal chinês.

“Trata-se de uma aliança tácita entre o crime organizado chinês e o Partido Comunista Chinês (PCC) que transforma o crime transnacional em uma arma geopolítica silenciosa”, afirmou Rotella.
O negócio de precursores químicos para o fentanil é um exemplo contundente. Empresas chinesas, incluindo algumas estatais, exportam insumos sem usos legítimos e recebem até mesmo devoluções fiscais. De acordo com o especialista em segurança nacional, Leland Lazarus, a relutância de Pequim em fechar os sites que os vendem abertamente demonstra que, em última análise, esse comércio é funcional aos seus interesses. “A equação é clara. O crime gera dividendos e, ao mesmo tempo, alinha-se aos objetivos estratégicos de Pequim”, ressaltou Lazarus.
A essa permissividade estatal se soma outro fator-chave: a diáspora. Vários estudos documentaram como, desde meados do século XX, o PCC manteve laços com máfias e grupos nacionalistas, que acabaram consolidando-se em regiões com forte presença de migrantes chineses, incluindo a América Latina.
“A relação entre o Estado chinês e o crime organizado vem de longe, mas se aprofundou nas últimas décadas, especialmente sob Xi Jinping”, explicou Rotella. “Seu governo adotou uma abordagem multifacetada, que abrange desde a coleta de informações e a espionagem, até a influência política e o controle da diáspora. Nesse esquema, o crime organizado se tornou um ator fundamental.”
Nesse contexto, a diáspora desempenha um papel estratégico, tanto para as máfias, quanto para o próprio Estado. “Eles são a ponte perfeita que combina cobertura cultural, infraestrutura informal e circuitos fechados de comunicação, que se tornam redes de confiança, onde as fronteiras entre o legal e o ilegal se confundem”, observou Rotella.
O resultado é uma triangulação inédita na região, onde a influência econômica da China, o poder informal da diáspora e o avanço sigiloso das máfias convergem para alimentar um ecossistema ilícito em expansão. “Não estamos diante de um único grupo dominante, mas de estruturas descentralizadas, flexíveis e com uma capacidade notável e preocupante de permanecer fora do radar”, alertou Lazarus.
Fujian: berço da diáspora e do poder oculto
A organização Earth League International (ELI), conhecida por suas investigações sobre crimes ambientais e contra a vida selvagem, documentou a presença de pelo menos 35 redes criminosas chinesas operando na América Latina e no Caribe. A maioria compartilha a mesma origem: a província de Fujian, berço histórico de migrantes e também de máfias. A partir daí, comunidades inteiras se expandiram pela região, fundando associações culturais, câmaras de comércio e restaurantes.
Supermercados, karaokês e lojas de produtos importados têm funcionado como fachadas para ocultar atividades ilícitas, facilitar a exploração trabalhista e penetrar no negócio da lavagem de dinheiro. A fronteira se torna ainda mais difusa, quando aqueles que participam de atividades criminosas também ocupam cargos em setores “legítimos”.
A Operação Dinastia Dragão Sul, realizada no Chile em 2023 – e destacada na primeira parte da reportagem –, expôs a magnitude do fenômeno: plantações massivas de maconha, redes de exploração laboral e conexões com autoridades locais. No centro estava Yu Caixin, presidente da Câmara de Comércio Chinesa em Temuco e líder da organização criminosa. “Não se trata de um acidente isolado, mas de mais uma engrenagem de uma estratégia que nubla as fronteiras entre o legal e o ilegal”, destacou Rotella.
Padrões semelhantes foram identificados em outros países da região. No Brasil, por exemplo, o grupo Bitong foi acusado de manter vínculos com o poderoso Primeiro Comando da Capital, além de administrar fintechs em São Paulo e usar comércios da diáspora para lavar dinheiro e encobrir suas operações ilícitas, como revelou uma investigação de Metrópoles.

O outro lado da diáspora
Além de servir como ponte para o crime organizado, a comunidade migrante também se tornou o elo mais frágil dessa engrenagem. “É um paradoxo inquietante, porque os próprios comerciantes e famílias que sustentam e apoiam a presença chinesa na região são, frequentemente, as primeiras vítimas de extorsão, violência e controle”, disse Rotella.
Casos recentes confirmam isso. Em dezembro de 2024, a Polícia Federal Argentina desmantelou uma rede que não apenas exigia pagamentos de supermercadistas chineses, mas chegou a sequestrar três deles para pressionar outros. Em São Paulo, Brasil, entre 2023 e 2024, foram registrados 15 episódios de extorsão contra comerciantes chineses, quase tantos quanto nos nove anos anteriores juntos, informou Metrópoles.
O fenômeno se repete em diferentes países há mais de uma década. Evan Ellis, especialista em segurança nacional e relações sino-latino-americanas, documentou como máfias chinesas extorquem proprietários de hotéis, restaurantes, discotecas e saunas administrados por migrantes. Em Lima, Peru, onde vive uma das maiores comunidades chinesas da região, os ataques atingiram níveis de terrorismo urbano, que vão desde coquetéis molotov lançados contra restaurantes em Callao, até ameaças coordenadas a partir de prisões peruanas pelo grupo Dragão Vermelho.
Ellis também registrou episódios no Panamá, Equador, Venezuela e na bacia do Caribe. Lá, os ataques incluíram homicídios de comerciantes chineses em países como Trinidad e Tobago e Suriname, o que evidencia o alcance continental dessas máfias.
O silêncio sempre foi a grande vantagem das máfias chinesas. O isolamento linguístico e a tradição de resolver disputas dentro da própria comunidade permitiram que operassem durante anos com uma impunidade quase absoluta. “Essa dinâmica explica por que suas atividades na América Latina permaneceram praticamente invisíveis até recentemente”, disse Lazarus.
Mas o fenômeno vai além do criminal. A diáspora, ao mesmo tempo em que sustenta a presença da China na região e facilita certas operações ilícitas, é vista pelo regime chinês como um risco latente. “Muitas revoluções surgiram de comunidades migrantes e Pequim teme que estudantes ou profissionais formados no exterior possam ‘contaminar-se’ com ideias ocidentais”, acrescentou Rotella.
Nesse contexto, o crime organizado oferece ao Estado um instrumento útil. Suas redes não apenas participam de negócios ilícitos, mas também se entrelaçam com operações de inteligência, que vão desde a espionagem tradicional, até mecanismos encobertos de repressão transnacional, como as polêmicas delegacias de polícia chinesas no exterior.
A rede oculta das delegacias de polícia
Apresentadas oficialmente como centros de assistência consular, as chamadas delegacias de polícia clandestinas chinesas foram denunciadas por ONGs e relatórios de investigação como instrumentos de controle, intimidação e repressão contra a diáspora, incluindo dissidentes e fugitivos políticos. Em 2022, a organização Safeguard Defenders documentou pelo menos 102 delegacias desse tipo em 53 países, registrando 12 na América Latina: três no Brasil e no Equador, duas na Argentina e uma no Chile, na Colômbia, em Cuba e no Peru.
Esses centros operam à margem dos marcos legais internacionais e, segundo especialistas, representam uma violação da soberania dos países anfitriões, ao exercer funções policiais sem jurisdição. “Se o país anfitrião não for informado de que essas ações são realizadas dentro do seu território, sem coordenação nem aprovação, trata-se de um assunto grave”, alertou Lazarus.
O mais preocupante não é apenas a existência dessas delegacias, mas quem está por trás de sua operação. Uma investigação de Rotella para ProPublica revelou que várias dessas delegacias estão sob o controle de grupos criminosos chineses.
Um dos casos mais reveladores é a delegacia chinesa em Prato, Itália, onde, de acordo com a investigação de ProPublica, as mesmas pessoas que administravam a delegacia e estavam em contato direto com as autoridades da China, tinham processos abertos na Itália por liderarem máfias chinesas naquele país. “Esse é o tipo de justaposição estranha que ocorre nessa confluência de forças entre o crime organizado e o Estado, nessas associações da diáspora”, ressaltou Rotella.
Esse padrão, alerta Rotella, se repete em escala global, onde casos concretos foram identificados. E, como o próprio especialista destaca, “trata-se de um fenômeno global que também encontra eco na América Latina”.
Nesse tabuleiro, a lavagem de dinheiro surge como outra peça central. Trata-se de um fluxo financeiro, que não apenas sustenta os negócios ilícitos das máfias, mas que, segundo investigações, acaba conectando-as às plataformas de influência global do PCC, como, por exemplo, a Frente Unida. Pequim apresentou essa iniciativa como um mecanismo para a unidade nacional e um elo com a diáspora, mas, na realidade, segundo os especialistas, trata-se de um instrumento de influência política e interferência estrangeira do PCC.
“O dinheiro lavado fortalece as máfias da diáspora chinesa, que, ao mesmo tempo, são uma fonte de financiamento da Frente Unida”, explicou Rotella, ressaltando que os grupos criminosos chineses são os principais lavadores de dinheiro em toda a América Latina.

Do contrabando visível à lavagem invisível
A lavagem de ativos tornou-se a peça-chave das máfias chinesas na América Latina, deslocando o contrabando tradicional a esquemas muito mais sofisticados.
Um dos primeiros alertas veio da Colômbia. Em 2017, uma operação contra armazéns de contrabando revelou uma rede que unia a China, o México e a Colômbia, por meio de uma tripla combinação: narcotráfico, comércio ilícito e lavagem de dinheiro. Segundo revelou o jornal El Tiempo, o Cartel de Sinaloa importava produtos ilegais da China para a Colômbia e usava os lucros para pagar os grupos locais encarregados de fornecer cocaína. Para dar uma aparência de legalidade, eles recrutavam cidadãos chineses que figuravam como proprietários dos negócios envolvidos.
“Esse é um modelo de lavagem de dinheiro conhecido como trade-based money laundering: mascarar e legitimar recursos ilícitos por meio do comércio internacional”, explicou Rotella. O golpe permitiu desmantelar 34 redes e identificar pelo menos 40 cidadãos chineses. No entanto, esse esquema era apenas o começo.
O salto qualitativo foi dado pelo México. Após a captura de Joaquín “El Chapo” Guzmán, a Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA) descobriu que seus operadores mantinham dezenas de contatos na China. Eles não eram apenas os principais fornecedores de precursores químicos para o fentanil, mas também se consolidaram como os lavadores de dinheiro mais eficientes da região.
O segredo está em lavar dinheiro por meio de “underground banking”, através de sistemas de transferência conhecidos como Mirror Transfer ou Flying Money (dinheiro voador), uma versão moderna do ancestral hawala, baseado na confiança e lealdade dentro da diáspora chinesa, que permite movimentar milhões de dólares sem cruzar fronteiras, nem passar por bancos regulamentados.
“Trata-se de modelos altamente sofisticados, que são ativados rapidamente e geram grandes fluxos de valor em várias direções ao mesmo tempo”, explicou Rotella.
Funciona assim: o dinheiro em espécie gerado pela cocaína na América Latina é entregue a um intermediário da máfia chinesa em cidades como Bogotá ou Cidade do México. Esses dólares são “vendidos” a empresários chineses que precisam de divisas fora do seu país, e um parceiro da rede entrega a quantia equivalente em yuans dentro da China. O dinheiro nunca viaja. A dívida entre intermediários é liquidada posteriormente com carregamentos de contrabando, transferências ocultas ou mercadorias.
A atratividade do sistema é evidente. Enquanto os lavadores tradicionais cobram até 6 por cento de comissão e levam semanas, as redes criminosas chinesas operam com apenas 1 ou 2 por cento e fecham as operações em questão de dias. Em 2024, o Departamento de Justiça dos EUA confirmou a lavagem de mais de US$ 50 milhões associados ao Cartel de Sinaloa, por meio desse mecanismo. Para especialistas como Lazarus, essas operações já superam em escala, sofisticação e alcance os métodos tradicionais.
“Os criminosos chineses estão transformando o mercado de lavagem de dinheiro na América Latina”, alertou Lazarus.
A face do dinheiro voador
No centro da máquina criminosa que hoje domina a lavagem de dinheiro na América Latina está Xizhi Li. Nascido no seio da diáspora chinesa, Li tornou-se um dos arquitetos de um sistema financeiro clandestino que sustenta as operações de alguns dos cartéis mais poderosos do continente.
O que é preocupante não é apenas a sofisticação da engrenagem que projetou, mas seus vínculos com o Estado. De acordo com investigações de ProPublica, Li oferecia seus serviços a funcionários do governo chinês e a membros da elite do PCC. Inclusive, ele chegou a vender passaportes fraudulentos a um alto oficial militar.
Mais surpreendente ainda é que Li conseguiu movimentar dezenas de milhões de dólares através de bancos e empresas estatais chinesas com aparente total impunidade, apesar do rígido controle que o aparato de segurança exerce sobre a economia do país.
Um dos indícios mais evidentes dessa falta de controle ou de vontade política, dizem os especialistas, é o fato de que essas redes criminosas se comunicam abertamente no WeChat, a principal rede social e sistema de mensagens da China. Não usam códigos nem linguagens criptografadas e falam abertamente sobre operações de lavagem de dinheiro em uma plataforma totalmente supervisionada pelo Estado chinês.
Os tribunais também forneceram evidências. Em 2020, um tribunal espanhol condenou quatro executivos do Banco Industrial e Comercial da China (ICBS) por receberem dezenas de milhões de euros em dinheiro e transferi-los ilegalmente para seu país. Em 2016, o Banco Agrícola da China foi multado em US$ 215 milhões em Nova York, por violar as normas contra a lavagem de dinheiro. E relatórios adicionais indicam que o Banco da China também enfrentou sanções na Itália e na França por repatriar fundos ligados à evasão fiscal e fraude alfandegária.
Os números são reveladores. Entre 2006 e 2020, mais de US$ 3,8 bilhões saíram ilegalmente da China, o que torna o país o maior “exportador de dinheiro quente” do mundo, segundo declarou John Cassara, ex-investigador do Departamento do Tesouro dos EUA, perante uma comissão canadense.
“Não só foi tolerado. Esse sistema beneficiou diretamente o Estado chinês, porque o fluxo de dinheiro sujo proveniente dessas redes fortalece seus interesses econômicos e corrói seus concorrentes”, explicou Rotella.
A queda de Li em 2021, quando foi capturado no México e extraditado para os Estados Unidos, não marcou o fim do sistema. Seu modelo, sua rede de confiança e as brechas que ele explorava continuam operando na região, dentro de uma zona cinzenta que mantém a América Latina submetida a uma influência paralela, silenciosa e difícil de rastrear: a China criminosa.
Parte III
O domínio das máfias chinesas na América Latina ultrapassou o âmbito financeiro. Hoje, cidadãos e empresas chinesas não apenas lavam dinheiro para os cartéis mais poderosos, mas também participam ativamente do tráfico ilegal de fauna e espécies marinhas, um negócio multimilionário que responde à demanda insaciável na Ásia.
Na terceira parte desta reportagem, explora-se como a China expandiu sua influência a um mercado que parecia controlado: o tráfico clandestino de jaguar, que se tornou uma presa cobiçada na região. E vai além. Será revelado como infraestruturas construídas com investimento estatal chinês – em particular os portos – se transformaram em passagens estratégicas para o crime organizado. O paradoxo é evidente: os mesmos projetos que consolidam a influência de Pequim na América Latina estariam funcionando nas sombras, como engrenagens que potencializam a ilegalidade.


