Durante décadas, o Equador foi visto como uma exceção em uma região assolada por narcotráfico, violência armada e captura criminosa do Estado. Enquanto os países vizinhos enfrentavam guerras abertas entre cartéis e forças estatais, o país parecia manter-se à margem dessas dinâmicas. Essa imagem começou a desgastar-se lentamente e acabou colapsando em janeiro de 2024, quando o presidente Daniel Noboa declarou um conflito armado interno e designou 22 organizações criminosas como grupos terroristas.
A medida revelou uma realidade que vinha incubando-se há anos, com um aumento vertiginoso de homicídios, gangues armadas disputando o controle territorial, prisões transformadas em centros operacionais criminosos e instituições sobrecarregadas. O Equador não era mais um ator periférico do narcotráfico regional, mas um nó estratégico em redes criminosas transnacionais.
Como exposto na primeira parte desta reportagem, a crise não surgiu de forma repentina, nem pode ser explicada por um único fator. É o resultado de uma convergência prolongada entre fragilidades institucionais internas e transformações profundas do mercado criminoso regional e global. Durante anos, quase sem ruído, o Equador se consolidou como uma plataforma fundamental para o armazenamento, processamento e exportação de cocaína, além de outras economias ilícitas.
“O Equador acabou desempenhando um papel funcional dentro de uma arquitetura criminosa regional vinculada a Estados alinhados com o chamado socialismo do século XXI, ou castro chavismo, onde o crime organizado atua como ator político e econômico”, disse Carlos Sánchez Berzaín, diretor do Instituto Interamericano para a Democracia (IID) e ex-ministro da Defesa da Bolívia, em entrevista à Diálogo.
O resultado é uma profunda reconfiguração do mapa criminoso equatoriano, com estruturas fragmentadas, mas interconectadas, operando tanto em nível local, quanto em redes ilícitas globais, e cujos efeitos transcendem as fronteiras, gerando riscos diretos para a segurança nacional e a governabilidade democrática regional.
“O Equador não é mais apenas um cenário local de violência, mas um elo fundamental dentro de um sistema criminoso transnacional em constante adaptação”, disse o especialista em segurança regional, Evan Ellis, investigador de Estudos Latino-Americanos no Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, em entrevista à Diálogo.
Um mapa criminoso em mutação
De acordo com Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), um banco de dados internacional que registra e analisa conflitos e violência no mundo, o Equador encerrou 2025 com pelo menos 37 grupos criminosos ativos. O aumento não reflete o surgimento de novas estruturas, mas uma fragmentação acelerada do ecossistema criminoso com cisões internas, alianças instáveis e reajustes forçados sob pressão estatal.
“A fragmentação do crime organizado no Equador é o resultado de uma pressão estatal que tornou inviável a concentração de poder. Sem um narcoestado ou um protetor político, cada grupo opera isoladamente, defendendo sua própria trincheira”, disse Berzaín.
Esse processo foi acompanhado por uma série de eventos que corroeram as estruturas tradicionais do crime organizado. Um dos mais decisivos ocorreu em dezembro de 2020, com o assassinato de Jorge Luis Zambrano, conhecido como Rasquiña, líder histórico de Los Choneros. Por mais de uma década, essa organização funcionou como um eixo relativamente estabilizador do mundo criminoso equatoriano, articulando alianças e amenizando disputas internas.
Sua morte abriu um vácuo de poder imediato. Dessa fratura surgiram grupos como Los Lobos, Los Tiguerones e Los Chone Killers, que não apenas herdaram estruturas operacionais, mas também desencadearam uma guerra aberta pelos mercados ilícitos mais lucrativos, especialmente o tráfico de cocaína e o controle de corredores estratégicos.
A essa fragmentação somaram-se golpes posteriores que reconfiguraram constantemente o tabuleiro criminoso. Em outubro de 2024, a prisão na Espanha de William Joffre Alcívar Bautista, conhecido como Negro Willy, líder de Los Tiguerones, marcou um novo ponto de inflexão. Investigações judiciais confirmaram que Alcívar continuou a dirigir operações criminosas a partir da Europa, incluindo o ataque armado contra um canal de televisão em Guayaquil, em janeiro de 2024, um episódio que simbolizou a capacidade dessas redes de operar a longa distância.
Sua captura desencadeou disputas internas violentas, enfraqueceu a coesão do grupo e alimentou novas cisões, de acordo com relatórios da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), uma organização internacional que analisa e monitora o crime organizado transnacional. A isso se somou o assassinato de Benjamín Camacho, conhecido como Ben 10, líder de Los Chone Killers, em dezembro de 2024, outro golpe que aprofundou a instabilidade do ecossistema criminoso.
O ponto de inflexão mais recente ocorreu em julho de 2025, com a extradição para os Estados Unidos de José Adolfo Macías Villamar, conhecido como Fito, que havia assumido a liderança de Los Choneros, após o assassinato de Rasquiña. Sua saída, uma vitória política e judicial para o governo de Noboa, deixou um novo vácuo crítico de poder, intensificando as disputas internas pelo controle de uma das estruturas criminosas mais influentes do país.
Los Lobos e a corrida pela hegemonia
Nesse cenário de fragmentação, Los Lobos surgem como o ator mais agressivo e letal do novo mapa criminoso equatoriano. De acordo com ACLED, entre janeiro de 2023 e maio de 2025, a organização esteve envolvida em pelo menos 184 eventos violentos, incluindo assassinatos seletivos, confrontos armados, ataques com explosivos e disputas dentro do sistema penitenciário.
A expansão territorial das gangues criminosas já atinge mais de dois terços dos municípios do país, com uma concentração particularmente alta nas províncias costeiras de Guayas, Manabí, El Oro, Santa Elena e Esmeraldas. Não é uma coincidência. Essas áreas, que concentram cerca de 80 por cento da violência registrada, são também os principais corredores de saída da cocaína para os mercados internacionais.
A violência, no entanto, não responde apenas a rivalidades locais. Ela se articula por meio de alianças táticas e rupturas constantes, como a cooperação ocasional entre Los Lobos e Latin Kings, e confrontos diretos com organizações como Los Tiguerones.
“O Equador se tornou um dos espaços criminais mais voláteis da América Latina, onde nenhuma hegemonia consegue se consolidar e cada vácuo de poder desencadeia novas explosões de violência”, alertou Henry Zimmer, investigador associado do Programa das Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em entrevista à Diálogo.
Apesar dessa fragmentação, as investigações coincidem em que Los Choneros e Los Lobos continuam sendo os núcleos dominantes do crime organizado no país. Ambas as estruturas mantêm capacidade real para sustentar operações de tráfico internacional de cocaína, controlar corredores logísticos estratégicos, exercer influência no sistema penitenciário e articular redes de corrupção. Sua designação como organizações terroristas pelos Estados Unidos confirma que o fenômeno excede o âmbito doméstico e se insere plenamente em uma ameaça transnacional.
De gangues locais a engrenagens regionais
“O ecossistema criminoso equatoriano deixou de ser periférico”, explicou Zimmer. “Hoje está totalmente integrado em cadeias transnacionais de tráfico”. Nesse esquema, as gangues locais deixaram de operar nas margens e cumprem funções logísticas e operacionais dentro de arquiteturas criminosas de alcance hemisférico.
As investigações oficiais confirmam vínculos diretos com os grandes cartéis mexicanos. Los Lobos mantêm conexões documentadas com o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), enquanto Los Choneros conservam seus laços históricos com o Cartel de Sinaloa. Especialistas concordam que essa competição “importada” elevou exponencialmente os níveis de violência, ao introduzir maiores fluxos de armas, financiamento e pressão por resultados nos territórios.
No norte do país, as províncias fronteiriças com a Colômbia acrescentam uma dimensão crítica ao conflito. Dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), os Comandos da Fronteira e células do Exército de Libertação Nacional (ELN) operam em coordenação com gangues equatorianas, disputando corredores estratégicos para o tráfico de cocaína e armas.
“O principal motor do desafio de segurança que o Equador enfrenta hoje é a inundação de cocaína”, afirmou Ellis. Essas alianças facilitam tanto a entrada de drogas da Colômbia, quanto o contrabando inverso de precursores químicos, em particular combustíveis usados nos processos de refino.
Esse é um fenômeno que também se explica por um enfraquecimento estrutural do controle fronteiriço. Durante a década de Rafael Correa, a política migratória liberalizou os requisitos de entrada e flexibilizou os controles. “Isso criou oportunidades para que grupos criminosos ocupassem espaços estratégicos em território equatoriano”, destacou Berzaín.
A magnitude do problema ficou exposta em março de 2008, quando Raúl Reyes, líder das FARC, foi abatido em território equatoriano. O episódio revelou a incapacidade do Estado de exercer controle efetivo sobre zonas estratégicas e fronteiriças e evidenciou a presença institucional limitada em áreas onde atores armados transnacionais podiam operar com relativa liberdade. “O Equador funcionou como espaço de trânsito e como terreno onde atores armados consolidaram posições estratégicas que antes eram impensáveis”, acrescentou Berzaín.
Um mosaico global
O mapa criminal equatoriano se projeta além da região e se insere nos circuitos do crime organizado transnacional. Máfias europeias como a ‘Ndrangheta italiana, organizações sicilianas, albanesas e outras redes balcânicas utilizam os portos equatorianos como plataformas estratégicas para o envio de cocaína para a Europa.
A GI-TOC documentou que as máfias balcânicas lavam cerca de US$ 3,5 bilhões por ano, através do sistema financeiro equatoriano, que é uma tendência em ascensão. Essas operações são sustentadas por uma rede de mensageiros, emissários e empresários, que articula atores albaneses e equatorianos, para consolidar e expandir suas atividades.
Várias investigações indicam que essas organizações preferem contratar grupos equatorianos para garantir as drogas e as rotas e que, em muitos casos, o pagamento não é feito em dinheiro, mas em armas, um modelo que intensificou a violência interna.
“As redes europeias oferecem melhores condições do que os grupos mexicanos ou colombianos, o que gera disputas entre gangues locais, para demonstrar quem é mais forte e confiável, alimentando confrontos sangrentos”, explicou Zimmer.
A essa trama se soma um ator menos visível, mas estrategicamente decisivo: o crime organizado chinês e o papel da China como facilitador indireto de economias ilícitas. “Ao contrário dos cartéis latino-americanos, sua influência não se expressa na violência territorial, mas em funções de intermediação fundamentais”, disse Zimmer.
Redes vinculadas à China se destacam na lavagem de dinheiro e no fornecimento de insumos essenciais para atividades ilegais, desde maquinário para a mineração ilegal de ouro, até precursores químicos utilizados na produção de drogas sintéticas, incluindo o fentanil, que abastece os mercados mexicanos.
Ao mesmo tempo, a China se consolidou como destino central do tráfico de vida selvagem e recursos ambientais, incluindo partes de onças, aves, borboletas e madeira, que, embora nem sempre sejam originárias do Equador, transitam por portos estratégicos, como Guayaquil, rumo ao mercado chinês.
“O crescente intercâmbio comercial entre o Equador e a China ampliou essa margem de ação ilegal e criminosa, permitindo que essas redes operem sob o radar”, explicou Zimmer. Seu papel, segundo Zimmer, passou despercebido, porque não está diretamente envolvido na violência nem na venda de drogas, mas ele garante que está cada vez mais claro que cumpre uma função intermediária crítica na arquitetura do crime organizado, que hoje atravessa o Equador e a América Latina.
Tren de Aragua: A sombra venezuelana
Às redes transnacionais já estabelecidas no Equador soma-se o Tren de Aragua (TdA), organização criminosa venezuelana que encontrou um terreno propício para expandir suas economias ilícitas. Surgida nas prisões da Venezuela, a gangue evoluiu de grupo carcerário para rede transnacional, com presença ativa em vários países da região.
Sua expansão coincide com a chegada de 475.000 migrantes venezuelanos, um fluxo que, segundo especialistas, gera oportunidades para estruturas criminosas em ambos os lados da fronteira. “A combinação de migração forçada, fragilidade institucional e corrupção permite sua rápida inserção em mercados ilegais”, alertou Ellis.
Em janeiro de 2025, o governo equatoriano declarou o TdA como grupo terrorista de crime organizado. Desde então, o Estado intensificou seus esforços para limitar sua presença, realizando a captura de um membro em Playas, Guayas, em junho de 2025, e posteriormente destacando unidades para neutralizar supostos membros do TdA durante os violentos protestos de Otavalo, em setembro.
“Sua irrupção evidencia como novas estruturas, menos visíveis, mas altamente adaptáveis, se incorporam à rede ilícita, aproveitando a vulnerabilidade social e as fraquezas institucionais”, disse Ellis.
O grande impulso: Política interna e mudanças no mercado global
A reconfiguração do mapa criminoso equatoriano também responde a uma mudança estrutural no mercado global de drogas. Em 2021, a Europa se consolidou como o principal destino da cocaína em nível mundial, de acordo com investigações conjuntas de InSight Crime e GI-TOC. Os grupos criminosos colombianos começaram a redirecionar sistematicamente suas operações para o mercado europeu, ao mesmo tempo em que exploravam novas rotas e destinos na Ásia e na Austrália.
De uma lógica estritamente comercial, o tráfico de cocaína para a Europa oferecia maiores margens de lucro e menores riscos operacionais. O resultado foi uma pressão crescente sobre as rotas marítimas do Atlântico e do Pacífico, com destino ao continente europeu, e uma revalorização estratégica de certos pontos de saída na América Latina.
O Equador e, em particular, o porto de Guayaquil, adquiriu um valor estratégico como plataforma de saída de carregamentos para a Europa, consolidando-se como um nó logístico fundamental do narcotráfico transnacional. “As mudanças no mercado regional de drogas podem reconfigurar rapidamente o panorama de segurança de um país”, alertou Ellis, ressaltando a rapidez com que essas redes se adaptam, deslocam-se e aproveitam as fraquezas institucionais, especialmente aquelas que o Equador enfrentava há uma década.
A ascensão do Equador dentro dessa arquitetura criminosa coincidiu com uma profunda transformação de sua política de segurança. Durante o governo de Correa, o país reduziu drasticamente sua cooperação com os Estados Unidos, fechou a base aérea de Manta e expulsou agências antidrogas, assessores militares e treinadores. “Isso enfraqueceu os mecanismos de intercâmbio de inteligência, que até então sustentavam a capacidade do Estado para detectar e conter o crime organizado”, explicou Zimmer.
A essa retirada externa somou-se uma estratégia interna do governo de Correa, que buscava pacificar as gangues urbanas, entre elas os Latin Kings, concedendo-lhes status legal como organizações sociais e culturais. Embora a intenção fosse facilitar a inclusão social, a medida lhes deu um marco formal para expandirem-se e infiltrarem-se em espaços sociais e políticos.
Especialistas e analistas concordam que a medida acabou legitimando estruturas criminosas pré-existentes, facilitando sua expansão, sua reorganização interna e sua progressiva infiltração em espaços sociais e políticos. “A narco política passou a ser integrada como uma variável normalizada da vida pública equatoriana”, disse Berzaín.
Longe de serem desarticuladas, essas políticas mantiveram as redes criminosas em uma condição de latência estratégica; conservaram sua afiliação, mantiveram atividades ilícitas de baixa visibilidade e preservaram sua capacidade de adaptação.
Assim, quando os grandes traficantes internacionais começaram a operar com maior intensidade no Equador, não encontraram um vácuo institucional, mas um ecossistema criminoso já existente, pronto para ser absorvido ou articulado dentro de cadeias ilícitas de maior escala. A essa vulnerabilidade somou-se a perda de capacidades de cooperação internacional que, em anos anteriores, havia permitido antecipar, prevenir e neutralizar essas dinâmicas.
“O Equador criou as condições ideais para a expansão e consolidação de redes criminosas transnacionais e a violência que vive hoje não é mais do que o custo acumulado de desmantelar um narcoestado”, acrescentou Berzaín.
Implicações regionais e desafios para a segurança hemisférica
A evolução do crime organizado no Equador e a escalada da violência que o país atravessa já não podem ser entendidas apenas como um problema de segurança interna. A expansão de redes criminosas flexíveis, com alcance hemisférico e projeção global, transformou o país em um ponto crítico das novas dinâmicas do narcotráfico no continente, com efeitos diretos sobre a segurança regional e hemisférica.
Para os países vizinhos, a segurança no Equador gera desafios fronteiriços recíprocos e efeitos complexos de deslocamento. “À medida que as organizações criminosas expandem seu raio de ação, aumentam os fluxos de drogas, armas e capital ilícito, juntamente com a violência associada à disputa por corredores estratégicos”, explicou à Diálogo Andrés Rugeles, vice-presidente do Conselho Colombiano de Relações Internacionais.
Como resultado, as zonas fronteiriças, historicamente vulneráveis, consolidam-se como espaços de convergência criminosa, onde confluem dissidências armadas, gangues locais e estruturas transnacionais com capacidade de operar em ambos os lados da linha divisória.
Em uma perspectiva mais ampla, o caso equatoriano confirma uma tendência estrutural observada em todo o hemisfério. O narcotráfico deixou de depender de grandes cartéis centralizados e hoje funciona por meio de uma rede de atores especializados, que cooperam de maneira flexível. “O narcotráfico não é mais coisa de um único grande cartel; agora são muitos atores pequenos que se coordenam entre si e mudam de estratégia mais rápido do que os governos”, alertou Rugeles.
A esse cenário se soma um desafio ainda mais profundo, relacionado à crescente penetração do crime organizado nas instituições do Estado, incluindo as forças de segurança, o sistema judiciário e a política local. Essa infiltração representa um risco crítico para a governabilidade democrática e redefine a natureza do problema.
“Estamos diante de um fenômeno de caráter transnacional que se tornou um dos principais desafios para a democracia na região”, alertou Rugeles, ao destacar a capacidade dessas organizações criminosas de ultrapassar a soberania nacional e penetrar no tecido social e institucional dos países. “Diante de uma ameaça que transcende o âmbito nacional, nenhum país pode enfrentar o crime organizado de forma isolada. Sua contenção requer um esforço conjunto baseado na cooperação regional, hemisférica e global”, acrescentou.
A partir de alianças específicas até a busca por uma estratégia hemisférica unificada
Diante do avanço do crime organizado e da escalada da violência no Equador, a cooperação com os Estados Unidos se consolidou como um dos pilares centrais da estratégia de segurança do país. “Já existe uma resposta compartilhada e liderada pelos Estados Unidos”, ressaltou Berzaín.
Essa afirmação se baseia em uma série de acordos e mecanismos que, nos últimos anos, fortaleceram a capacidade operacional do Estado equatoriano diante da evolução das organizações criminosas.
Em agosto de 2024, o Equador e os Estados Unidos assinaram um acordo integral de segurança com foco em treinamento especializado, assistência técnica e intercâmbio de inteligência, para combater o crime organizado. Esse acordo se baseou em marcos anteriores, como o Roteiro para Assistência ao Setor de Segurança de 2023 e o Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) de 2024. Juntos, esses instrumentos priorizam a modernização das capacidades de defesa do Equador e facilitam os esforços conjuntos para desarticular a logística do crime transnacional.
Esses marcos se traduziram em ações operacionais com resultados concretos, especialmente no âmbito marítimo. As operações conjuntas de interdição no Pacífico oriental se tornaram um dos eixos mais visíveis da cooperação bilateral. Em outubro de 2025, uma operação combinada entre as forças equatorianas, a Guarda Costeira dos EUA e a Administração para o Controle de Drogas (DEA) dos EUA permitiu a apreensão de cerca de 10 toneladas de cocaína e a detenção de 18 pessoas vinculadas ao tráfico internacional, um dos golpes mais significativos ao narcotráfico na região nos últimos anos.
Aproveitando esse impulso, o Equador e os Estados Unidos lançaram uma nova fase de operações conjuntas de combate ao narcotráfico e segurança no início de março de 2026, com o objetivo de fortalecer a vigilância marítima, a cooperação em inteligência e as capacidades de interdição ao longo das principais rotas de tráfico no Pacífico Oriental.
“Hoje, a cooperação sustentada não é mais uma opção, mas um imperativo estratégico”, enfatizou Ellis. O caso equatoriano parece confirmar essa premissa, pois somente por meio de alianças operacionais, intercâmbio de inteligência e ações coordenadas foi possível conter, ainda que parcialmente, uma ameaça criminosa que evolui rapidamente e afeta diretamente a segurança regional e hemisférica.
No entanto, a ênfase bilateral também destaca o desafio constante para sincronizar as diversas agendas de segurança regionais. Especialistas concordam que é fundamental contar com um quadro multilateral mais integrado, para alcançar a estabilidade a longo prazo nas fronteiras compartilhadas.
“É necessária a vontade política para combater o crime organizado, mas, em alguns casos, essa vontade simplesmente não existe, especialmente em países vinculados ao socialismo do século XXI”, destacou Rugeles.
Essas assimetrias políticas continuam a moldar a dinâmica regional do tráfico de drogas. “O Equador não é um grande produtor de cocaína, enquanto o Peru e a Colômbia concentram a maior parte da produção mundial de folha de coca, o que torna indispensável a colaboração entre esses países”, alertou Zimmer.
Além das conjunturas políticas, os analistas concordam com a necessidade de ampliar mecanismos formais e permanentes de cooperação, como grupos de trabalho regulares sobre segurança nas fronteiras, lavagem de dinheiro e ameaças criminosas, bem como operações conjuntas sustentadas que incluam o intercâmbio eficaz de inteligência, o controle coordenado das fronteiras, o fortalecimento dos sistemas judiciais e o combate à lavagem de ativos nos principais centros financeiros.
“É preciso trabalhar juntos para fechar as brechas que hoje permitem que o crime transnacional desafie o Estado, capture instituições e enfraqueça a democracia”, disse Rugeles.
A realidade regional é evidente: na América Latina e no Caribe, a violência e o crime organizado não param nas fronteiras. Para enfrentar esse desafio de maneira eficaz, é necessário avançar em direção a uma estratégia hemisférica sincronizada, baseada na responsabilidade compartilhada e em estruturas de segurança integradas.
“Sem respostas coordenadas em nível hemisférico, o Equador corre o risco de consolidar-se como um centro permanente do crime transnacional, com consequências duradouras para a segurança do continente”, concluiu Ellis.


