Desde janeiro de 2024, o Equador deixou de ser um ator periférico no mapa da segurança regional, para tornar-se um alerta hemisférico. A declaração de conflito armado interno pelo presidente Daniel Noboa e a designação de 22 grupos criminosos como organizações terroristas marcaram um ponto de inflexão diante de uma violência que havia excedido a capacidade tradicional do Estado. O aumento sustentado dos homicídios, o controle territorial exercido por gangues armadas e um sistema penitenciário capturado por estruturas criminosas expuseram o colapso de um modelo que durante anos sustentou a percepção de estabilidade do país.
Até então, o Equador era considerado um oásis de paz em uma região assolada pelo narcotráfico e pela violência organizada. Apesar de atravessar profundas crises políticas e institucionais, o país não registrava os níveis de homicídios observados em seus vizinhos. No entanto, sua localização estratégica entre a Colômbia e o Peru, os dois maiores produtores de cocaína do mundo, de acordo com o Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), tornou-o progressivamente um elo cada vez mais atraente para as redes criminosas transnacionais, até consolidar-se como um nó logístico fundamental do narcotráfico global.
De corredor do narcotráfico ao colapso da segurança
“Embora pareça alarmante hoje, o desafio à segurança no Equador vem se fermentando durante anos”, afirma o especialista em segurança, Evan Ellis, em entrevista à Diálogo. Investigações e analistas concordam que essa evolução responde a uma combinação de fatores regionais e locais que reconfiguraram o mapa do crime organizado na América do Sul.
Entre os elementos determinantes está o fracassado processo de paz na Colômbia, em 2016, que fragmentou o ecossistema criminoso e multiplicou os atores ilegais, incentivando a expansão de suas operações além das fronteiras colombianas, com enorme impacto no país vizinho do sul. A isso se somou o aumento sustentado da produção de cocaína na região andina, especialmente na Colômbia, onde aumentou em 53 por cento em 2023, o número mais alto desde 2001, de acordo com o UNODC.
“A expansão da produção de cocaína fluiu para grupos criminosos que já viam o Equador como um centro de armazenamento e exportação. A isso se somaram falhas de segurança na Colômbia, durante o governo de Juan Manuel Santos, e a permissividade nas fronteiras sob o governo de Rafael Correa, o que marcou um ponto de inflexão”, destacou Ellis.
Paralelamente, consolidaram-se os vínculos entre gangues equatorianas e organizações criminosas estrangeiras. Os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG) intensificaram sua colaboração com grupos locais e organizações colombianas, para a entrada de cocaína no país, seu armazenamento e posterior exportação através de portos estratégicos, como Guayaquil, Manta e Esmeraldas. A essa dinâmica já alarmante somaram-se organizações europeias, como a máfia albanesa e a ‘Ndrangheta italiana, especializadas na exportação de drogas para a Europa.
Nesse contexto, e em estreita interação com os fluxos do narcotráfico, surgiu no Equador uma economia de mineração ilegal que se espalhou por todo o território nacional. “A cocaína e a economia da mineração ilegal, incluindo a extorsão de minas que operam legalmente, também se tornaram um foco de atenção para grupos terroristas e estruturas criminosas, com base na Colômbia, que operam no país”, acrescentou Ellis.
Erosão institucional e captura do Estado
Além dessas maquinações operacionais, analistas alertam que a crise atual é o culminar de um legado de vulnerabilidade institucional na América Latina. A fraqueza dos controles estatais e a cooptação de instituições-chave facilitaram a penetração do crime organizado. “O Equador funciona há anos como um elo do crime organizado protegido por estruturas estatais corruptas e amparadas pelo socialismo do século XXI, ou castro chavismo”, afirmou Carlos Sánchez Berzaín, diretor do Instituto Interamericano para a Democracia e ex-ministro da Defesa da Bolívia, em entrevista à Diálogo.
Essa deterioração institucional não foi um fenômeno abstrato ou espontâneo, mas o resultado de decisões políticas concretas, que enfraqueceram o Estado e facilitaram sua captura criminosa. “Durante o governo de Rafael Correa, o crime organizado cooptou o Estado, infiltrou-se na política, nas instituições públicas e no setor privado, penetrando em toda a sociedade”, explicou Andrés Rugeles, politólogo e vice-presidente do Conselho Colombiano de Relações Internacionais (CORI), em entrevista à Diálogo.
As consequências dessa convergência de fatores tornaram-se plenamente visíveis em 2023. Em apenas um ano, o Equador passou de ser considerado uma “ilha de paz” a liderar os índices de violência na região. O país se tornou o mais violento da América do Sul e o quarto da América Latina e do Caribe, atrás apenas do Haiti, Trinidad e Tobago e Jamaica. Essa foi uma reviravolta dramática que não apenas reconfigurou a narrativa internacional sobre o Equador, mas expôs o custo acumulado de anos de negligência, corrupção e abandono institucional.
“A violência que o Equador enfrenta hoje é o custo de desmantelar um narcoestado”, afirmou Berzaín. “Durante mais de uma década, o crime se instalou no país, causando enormes danos à integridade institucional, e eliminá-lo não só é complexo, como provoca uma reação violenta, porque essas estruturas não têm para onde recuar”, acrescentou Berzaín.
Contenção, controle e primeiros resultados
Diante da rápida deterioração da segurança, a resposta do Estado foi imediata e de alto impacto. O governo de Noboa destacou, de forma inédita, forças policiais e militares em áreas urbanas, fronteiras, portos estratégicos e centros penitenciários, combinando operações de controle territorial com ações focadas no combate ao narcotráfico, à mineração ilegal e a outras economias ilícitas. Essas são medidas que foram reforçadas por sucessivos estados de exceção, como ferramentas para restabelecer a ordem pública e recuperar a presença do Estado.
Os primeiros efeitos começaram a refletir-se nos indicadores de violência. De acordo com o Observatório Equatoriano do Crime Organizado (OECO), os homicídios diminuíram em 14,7 por cento e os massacres nas prisões, um dos símbolos mais visíveis do poder das gangues, registraram uma redução significativa. Para o Executivo, esses dados confirmavam que a ofensiva do Estado havia conseguido frear, pelo menos inicialmente, a escalada da violência.
A este balanço somaram-se resultados contundentes na luta contra o narcotráfico. De acordo com dados fornecidos pelo Ministério do Interior, 2024 encerrou com um recorde histórico de apreensões de drogas – um aumento de 29 por cento em relação a 2023 –, o que evidenciou o impacto do reforço do controle territorial e das operações em portos e fronteiras.
Paralelamente, o Estado avançou sobre um dos pilares centrais do crime organizado: sua capacidade financeira. Em setembro de 2025, a Operação Fronteira Norte 2 (Operación Frontera Norte 2) resultou na apreensão de 103 propriedades avaliadas em mais de US$ 313 milhões. Considerada a maior ofensiva contra as finanças criminosas na história do Equador, a operação desmantelou a rede econômica dos Comandos da Fronteira, dissidência das Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC), confiscando fazendas, negócios e postos de gasolina, ativos essenciais para a lavagem de dinheiro e a sustentabilidade operacional da organização ilícita.
Da violência episódica à ameaça estrutural e endêmica
A estratégia de segurança destacada pelo governo equatoriano, voltada para fortalecer a segurança interna, recuperar o controle territorial e conter a expansão do crime organizado, permitiu uma melhoria inicial do ambiente de segurança e estabeleceu as bases para uma resposta mais ampla e sustentada. Durante 2025, o governo ampliou e aprofundou essas operações em um contexto marcado pela rápida capacidade de adaptação das redes criminosas.
Apesar desses esforços, a evolução do cenário evidenciou a complexidade do desafio. Ao longo de 2025, o país registrou um novo aumento da violência, acompanhado pela expansão silenciosa do crime organizado para áreas anteriormente consideradas de baixo risco. Em julho de 2025, ocorreu um ponto de inflexão crítico com a extradição para os Estados Unidos de José Adolfo Macías Villamar, conhecido como Fito. Embora sua expulsão tenha sido uma vitória histórica para o governo de Noboa, provocou um vácuo de poder dentro de Los Choneros – uma das principais organizações criminosas do Equador –, o que deu origem a purgas internas e à expansão territorial agressiva de grupos rivais como Los Lobos, catalisando uma segunda onda de violência.
“Esse é o resultado de que o crime organizado está deixando de ser organizado e esse enfraquecimento impulsiona a fragmentação e a luta pelo controle de territórios e economias ilícitas”, ressaltou Berzaín.
De acordo com o OECO, 2025 encerrou como o ano mais violento da história recente do país, com taxas de homicídios que ultrapassaram 50 por cada 100.000 habitantes. Paralelamente, o tráfico de drogas, em particular de cocaína, continuou saindo em volumes significativos a partir dos portos equatorianos, para múltiplos mercados internacionais.
Para analistas e especialistas, esses indicadores refletem que o Equador enfrenta uma estrutura criminal que transcende episódios isolados de violência e opera de maneira estrutural, tanto em nível local, quanto transnacional, o que exige respostas integrais e sustentadas no tempo.
“A expansão da produção de coca e da mineração ilegal, somada à corrupção persistente em determinadas instituições, colocou o Estado diante de desafios que, em alguns casos, estão fora de seu controle”, afirmou Ellis. Essas dinâmicas consolidaram o Equador como um nó relevante dentro das cadeias logísticas do crime organizado transnacional, incrementando a pressão sobre o sistema de segurança e enfraquecendo o controle estatal sobre territórios e rotas estratégicas.
Os especialistas consultados por Diálogo alertam que essa transformação acelerada deu lugar a uma ameaça de caráter híbrido. O crime organizado transnacional, em articulação com atores políticos afins ao chamado socialismo do século XXI e redes de influência construídas nas últimas décadas, recorreu à violência, à infiltração institucional e à desestabilização política, para preservar espaços de poder, explicou Berzaín, que também alertou que “o Equador tornou-se uma peça-chave na cadeia do narcotráfico impulsionada por países do castro chavismo”.
A combinação do controle de economias ilícitas com estratégias de interferência indevida nas instituições e, ao mesmo tempo, o fato de exercer pressão política para prejudicar o funcionamento público, ampliou o impacto do fenômeno. “O que ocorre no Equador tem uma dimensão transnacional e requer cooperação regional, hemisférica e global, para ser enfrentado de maneira eficaz”, afirmou Rugeles.
De uma perspectiva estratégica, a crise de segurança equatoriana não pode mais ser interpretada apenas como um desafio doméstico. Sua evolução traz implicações diretas para a estabilidade regional e para os esforços de cooperação hemisférica orientados para conter o crime organizado transnacional. Nesse cenário, alertou Ellis, “a capacidade do Estado equatoriano para sustentar e adaptar suas políticas de segurança será um fator-chave não apenas para sua estabilidade interna, mas também para a segurança regional”.
Parte II
A segunda parte desta reportagem revela a configuração do novo mapa criminal do Equador, que agora se tornou um centro estratégico para o crime organizado regional, depois de passar de enfrentar algumas gangues, para reconhecer mais de 20 organizações classificadas como terroristas. A convergência de cartéis mexicanos, estruturas armadas colombianas e redes europeias gerou um ecossistema criminoso transnacional, e entender quem o integra e como operam é fundamental para dimensionar sua complexidade.
Especialistas ressaltam que esse processo teve um ponto de inflexão em março de 2008, com o bombardeio de Angostura e a morte de Raúl Reyes, membro de alto escalão e principal porta-voz das FARC, em território equatoriano, um episódio que evidenciou a presença de atores armados estrangeiros no país andino e as vulnerabilidades do controle fronteiriço estatal. Com dezenas de milhares de pessoas de várias nacionalidades, vinculadas a essas economias ilícitas, a reportagem analisa a resposta regional a uma ameaça em expansão, marcada pelo apoio dos EUA e um apelo urgente por maior cooperação regional. “É necessário um compromisso firme para combater o crime organizado, mas em alguns casos da região essa disposição simplesmente não existe”, adverte Rugeles.


