O ouro tornou-se o novo sangue que circula nas veias do regime de Nicolás Maduro. Com a indústria petrolífera em crise e as sanções internacionais limitando o acesso a divisas, o regime venezuelano encontrou na indústria extrativa uma fonte alternativa de renda e um mecanismo de controle político.
O Arco Mineiro do Orinoco, uma vasta área que abrange milhões de hectares de selva amazônica no sul da Venezuela, transformou-se em um cenário de disputa entre grupos armados, facções militares e redes criminosas, todos operando com a cumplicidade do regime.
“O regime de Maduro exige uma parte dos rendimentos obtidos nessa área e atua como árbitro nas disputas entre as organizações que operam lá”, explicou à Diálogo Ryan C. Berg, diretor do Programa das Américas e chefe da Iniciativa Futuro da Venezuela no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Sob o discurso do desenvolvimento nacional, na prática, o Arco Mineiro funciona como uma rede de extração e contrabando ilegal de ouro, que alimenta redes financeiras internacionais, contorna sanções e garante divisas constantes.
Tornado o novo pulmão financeiro do chavismo, o ouro venezuelano também funciona como um poderoso mecanismo de coesão política. Por meio desse metal, o regime garante a lealdade de setores das Forças Armadas Venezuelanas (FANB), enriquece elites próximas ao poder e sustenta estruturas locais vinculadas a organizações criminosas transnacionais, consolidando o controle territorial e reforçando a permanência de Maduro no poder.
Mineração ilegal com cumplicidade do Estado
Em 2016, o regime de Maduro estabeleceu a Zona de Desenvolvimento Estratégico Nacional Arco Mineiro do Orinoco, um megaprojeto que abrange cerca de 12 por cento do território venezuelano, quase o tamanho de Portugal. Nessa vasta região concentram-se recursos como bauxita, coltan, diamantes industriais e, acima de tudo, ouro.
A magnitude dessa economia ilícita ficou evidente em um relatório da organização Financial Accountability and Corporate Transparency (FACT) Coalition, que revelou que pelo menos 86 por cento do ouro venezuelano é produzido ilegalmente e que cerca de 70 por cento é contrabandeado, com um valor estimado de US$ 4,4 bilhões em 2021. Embora a Venezuela represente apenas 5,6 por cento do território amazônico, concentra mais de 30 por cento dos centros de mineração ilegal da bacia.
Esse esquema beneficia direta e indiretamente o regime de Maduro. O setor de mineração semioficial, integrado por empresas estatais como Minerven e a Companhia Anônima Militar para as Indústrias Mineiras, Petrolíferas e de Gás (CAMIMPEG), obtém minerais de minas ilegais e os exporta principalmente para a Turquia e os Emirados Árabes Unidos. Parte desses lucros vai diretamente para os cofres do regime, de acordo com o relatório Mineração ilegal na Venezuela: morte e devastação nas regiões do Amazonas e Orinoco, do CSIS.
No entanto, essas operações representam apenas uma fração do negócio. A maior parte do ouro sai do país como contrabando e depois é formalizada no mercado internacional, deixando para o regime e as forças de segurança uma parcela significativa dos lucros em cada etapa do processo.
Maquinaria de corrupção
A criação do Arco Mineiro permitiu ao regime destacar unidades militares sob o pretexto de proteger zonas estratégicas e atrair investimentos. No entanto, as investigações indicam que essa iniciativa funciona como uma fachada para consolidar o controle estatal sobre a extração de minerais e garantir a participação direta de atores militares no negócio.
Um relatório do Departamento de Estado dos EUA, apresentado ao Congresso em 2024, denunciou que o Arco Mineiro se tornou um sistema de corrupção institucionalizada. Militares e funcionários transformaram o acesso às minas em uma fonte de enriquecimento pessoal. Essa rede de altos comandos militares e funcionários do regime, liderada pelo próprio Maduro, que facilita a extração ilegal de ouro em grande escala e o narcotráfico, é amplamente conhecida como o Cartel dos Sóis.
“O Arco, onde habitam numerosos povos indígenas, tornou-se um centro de mineração e contrabando ilícito de ouro. A extração e venda desse mineral se tornaram um plano financeiro lucrativo para alguns venezuelanos bem relacionados e membros das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB)”, ressalta o documento do Departamento de Estado.
A organização International Crisis Group (ICG), em seu relatório A maldição do ouro: Mineração e violência no sul da Venezuela, alerta que o destacamento de tropas faz parte de uma reconfiguração do controle territorial. De acordo com o estudo, muitos oficiais deixaram de ser simples forças de segurança, para se tornarem atores econômicos diretos, permitindo que mineradores ilegais retornassem em troca de pagamentos, que podem chegar a 20 por cento da produção, ou de acordos para vender ouro abaixo do preço de mercado. Alguns generais destacados na área chegam a receber até US$ 800.000 por mês em subornos, de acordo com a ICG.
Essa dinâmica reflete o papel cada vez mais central das Forças Armadas na estrutura política e econômica do chavismo, um papel reforçado após seu apoio decisivo a Maduro nas eleições de 2024. “Em um cenário político profundamente polarizado, esses mecanismos permitem ao regime garantir a lealdade das Forças Armadas”, afirmou Berg.
Mineração como moeda política
Maduro também utilizou a mineração para consolidar a lealdade dos líderes políticos. Em novembro de 2019, ele anunciou que os 19 governadores chavistas receberiam o controle direto de uma mina de ouro cada um, com a possibilidade de usar os lucros para reforçar os orçamentos regionais, informou o CSIS.
Ainda mais alarmantes são as denúncias sobre cumplicidade estatal e permissividade militar em relação às redes criminosas transnacionais. Segundo a ICG, as FANB delegam o controle das minas a grupos armados não estatais, consolidando um sistema híbrido que envolve militares, organizações criminosas e autoridades locais.
“O regime de Maduro usa todos os meios ao seu alcance para se manter no poder e o preço atual do ouro oferece incentivos para continuar com a mineração ilegal no infame Arco Mineiro”, alertou Berg.
Um mosaico entre guerrilhas e crime transnacional
Com a cumplicidade do Estado, o sul da Venezuela se tornou um mosaico de atores criminosos que compartilham o território e os lucros do ouro, em troca de lealdade política ao regime.
De acordo com a ICG, existe uma cooperação ativa entre as FANB e o Exército de Libertação Nacional (ELN), guerrilha colombiana historicamente vinculada ao chavismo. Ambas as forças operariam de forma coordenada em zonas do Parque Nacional Yapacana e Canaima, impondo tributos em ouro, recrutando jovens indígenas e exercendo controle social por meio da violência.
O ELN também controlaria a exploração de uma mina em San Martín de Turumbang, na fronteira com a Guiana, supostamente cedida pelo regime venezuelano, segundo InSight Crime. Paralelamente, a facção dissidente das FARC conhecida como Segunda Marquetalia disputa território com o ELN, consolidando a presença de grupos armados colombianos no sul da Venezuela.
“O regime tenta arbitrar entre os diferentes grupos onde quer que eles operem, permitindo a atuação daqueles dispostos a pagar rendas e colaborar com ele, enquanto persegue e castiga aqueles que se recusam a fazê-lo”, explicou Berg. Segundo Berg, o apoio do regime venezuelano a esses grupos guerrilheiros, designados como organizações terroristas, “proporciona a Maduro opções de segurança, no caso de que seu poder seja ameaçado, ao mesmo tempo em que gera rendimentos a partir de atividades ilícitas”.
A essa rede se soma a organização criminosa venezuelana Tren de Aragua (TdA), também designada como organização terrorista por vários países da região. No estado de Bolívar, o TdA atua como um sindicato mineiro, controlando operações em Las Claritas, com a proteção das autoridades locais e militares, informou InSight Crime. Durante as eleições de 2024, as ruas de Las Claritas estavam cobertas de propaganda oficialista e do personagem “Súper Bigote”. Esse super-herói de desenhos animados criado pelo regime e baseado em Maduro se tornou um símbolo da fusão entre propaganda estatal e crime organizado, em uma zona sob a influência de organizações terroristas.
Na fronteira com o Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) também ampliou sua influência, operando em territórios yanomami e utilizando rotas aéreas e fluviais para extrair ouro venezuelano. Segundo InSight Crime, trata-se de um circuito de contrabando transnacional que atravessa o Brasil, a Guiana e o Caribe, financiando estruturas armadas, comprando lealdades políticas e sustentando o regime diante do isolamento internacional.
Crime ambiental e custo humano
À expansão do crime organizado soma-se uma devastação ambiental que avança sem freios no sul da Venezuela. O Arco Mineiro se tornou um foco de destruição ecológica que afeta a selva amazônica venezuelana, uma das áreas mais biodiversas do país. O desmatamento ilegal abre caminho para minas, estradas e acampamentos, enquanto operações ilegais invadem rapidamente áreas protegidas.
De acordo com dados citados por Infobae, até 2023 essas operações haviam penetrado em 27 das 41 áreas protegidas da Amazônia venezuelana e o desmatamento havia disparado em 170 por cento ao ano. Entre 2017 e 2020, mais de 22.000 hectares foram desmatados em parques nacionais, como Caura, Canaima e Yapacana. Até mesmo o Cerro Delgado Chalbaud, nascente do rio Orinoco, foi devastado por mineradores brasileiros. A infraestrutura de vigilância ambiental praticamente desapareceu, devido a cortes orçamentários e corrupção, informou Infobae.
A isso se soma o uso massivo de mercúrio e outros produtos químicos tóxicos que contaminam rios e solos, prejudicando a saúde humana, a biodiversidade e os ecossistemas amazônicos. Dados revelados pelo CSIS garantem que foram encontrados altos níveis desse elemento nos rios próximos que fornecem água potável para a Colômbia e o Brasil e que fluem dentro do Parque Nacional Canaima. Também foram encontrados níveis elevados de mercúrio nos peixes de água doce da região, que são exportados para consumo no Brasil, Guiana e Trinidad e Tobago.
O controle criminoso também alimenta o tráfico de pessoas e a exploração sexual nos acampamentos de mineração, agravando a vulnerabilidade de uma região onde as comunidades indígenas representam quase metade da população do estado do Amazonas. A agricultura foi substituída pela mineração, criando uma dependência de redes ilícitas e provocando um forte abandono escolar. Apesar da aparente bonança do ouro, a pobreza persiste. Em Bolívar, 82 por cento da população vivia em extrema pobreza em 2021, de acordo com dados do Crisis Group.
Para Berg, “o regime de Maduro é um regime criminoso devastador em todos os sentidos, que se empoderou por meio de relações com organizações criminosas no coração da América do Sul e que representa um grande desafio para a ordem regional e mundial”, concluiu.


