Na primeira parte desta entrevista, Leland Lazarus, especialista renomado em relações entre China e América Latina e em crime transnacional, além de fundador e CEO da empresa Lazarus Consulting, discutiu sobre a expansão das redes do crime organizado chinês na América Latina e no Caribe. Nesta segunda parte, ele se aprofunda nessa ameaça crescente, explorando como Pequim pode estar buscando objetivos estratégicos mais amplos, por meio dessas operações ilícitas. À medida que a influência da China cresce na região, Lazarus levanta preocupações urgentes sobre soberania, segurança e linhas tênues entre crime e política.
Diálogo: Que objetivos estratégicos essas redes criminosas chinesas no exterior ajudam o Partido Comunista Chinês (PCC) a alcançar?
Leland Lazarus, fundador e CEO da Lazarus Consulting: Há evidências bem documentadas do objetivo da China de capturar a elite. Uma maneira é através do uso ou da influência de gangues chinesas ilegais ou empresários chineses inescrupulosos envolvidos em atividades ilícitas. Isso se torna mais uma ferramenta que o Estado chinês pode potencialmente usar para subornar um político local, influenciar um líder local ou expandir contatos e influência de formas que o próprio Estado não seria necessariamente capaz de alcançar diretamente.
O uso de gangues chinesas ilegais ou empresários chineses inescrupulosos envolvidos em atividades ilícitas é mais uma maneira pela qual o Estado chinês pode tentar subornar políticos locais, influenciar líderes locais ou expandir redes de contato e influência. Essas são coisas que o Estado chinês talvez não consiga alcançar por meio de canais diplomáticos oficiais ou formais.
Houve um caso no Chile envolvendo um proeminente empresário chinês que também estava envolvido em atividades ilícitas e foi implicado no suborno de um político local. Vemos situações similares em alguns países do Caribe, onde o chefe de uma associação comercial chinesa local também está supostamente envolvido em jogos ilegais ou suspeito de operações de contrabando de pessoas.
Diálogo: Qual é o papel das instituições financeiras estatais chinesas na facilitação da lavagem de dinheiro transnacional, bem como no uso significativo de plataformas de comunicação controladas pelo Estado, como WeChat, na coordenação de atividades ilícitas, considerando que essas plataformas são monitoradas pelo governo chinês?
Lazarus: O que temos visto consistentemente em nossa pesquisa é que o principal método pelo qual esses grupos ilegais chineses se comunicam, seja entre si ou com gangues locais, na América Latina e no Caribe, é através do WeChat. Eles recebem pagamentos através do WeChat e o utilizam para coordenar a logística.
Como mencionamos anteriormente, a China é o maior Estado tecno autoritário do mundo. Eles têm a capacidade de monitorar facilmente esse tipo de atividade. Sabemos que eles estão monitorando o WeChat e outras plataformas de mídia social. Portanto, em teoria, eles poderiam fazer muito mais para desmantelar essas redes criminosas e interromper os fluxos financeiros. Mas isso não aconteceu, e acho que isso é uma importante preocupação.
Uma coisa a mais que gostaria de mencionar é o papel das instituições financeiras. Existe um sistema chinês muito sofisticado, conhecido como Fei Qian, ou sistema do “Dinheiro Voador”. Outro termo para isso é sistema bancário paralelo. É um método inovador de lavagem de dinheiro sem que tenha que cruzar jamais as fronteiras. Isso torna extremamente difícil para que as autoridades de aplicação da lei possam rastrear esses fluxos ilícitos, porque o dinheiro nunca cruza realmente as fronteiras. E, acima de tudo, as autoridades chinesas não são tão cooperativas quanto deveriam ser, para ajudar a investigar ou desmantelar esses sistemas.
Diálogo: Como os grupos do crime organizado chinês estão envolvidos no apoio aos esforços do Estado chinês quanto à repressão transnacional, particularmente através de delegacias clandestinas no exterior?
Lazarus: O trabalho de uma ONG chamada Safeguard Defenders revelou, há alguns anos, que havia supostamente 110 delegacias chinesas no exterior, operando em países ao redor do mundo; 14 delas estavam na América Latina e no Caribe.
Agora, a partir da perspectiva da China, eles oferecem uma de duas explicações. Uma é que essas chamadas “delegacias” não são realmente delegacias, mas centros de serviços consulares.
A segunda é que eles precisam dessas delegacias no exterior para perseguir criminosos legítimos, fugitivos que escaparam da China. Isso faz parte do que eles chamam de Operação Fox Hunt, um esforço para perseguir e repatriar fugitivos chineses no exterior. Então, esse tipo de coisa está acontecendo, especialmente na América Latina e no Caribe.
E a grande preocupação aqui é: até que ponto isso representa uma violação da soberania? Se o país anfitrião não é informado de que essas ações policiais estão ocorrendo dentro de sua jurisdição, sem qualquer coordenação ou aprovação, isso é um problema sério.
Diálogo: Os ataques cibernéticos têm sido amplamente associados a atores apoiados ou patrocinados por Pequim, particularmente seus serviços militares e de inteligência. Como o Estado chinês patrocina ou apoia esses ataques cibernéticos e como seus alvos, táticas e objetivos estratégicos evoluíram na última década?
Lazarus: Alguns pesquisadores, especialmente o Dr. Martin Thorley, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), introduziram o conceito de “geocriminalidade”. Eu gosto muito desse termo, porque acho que resume o que estamos vendo: até que ponto atores estatais, como China, Rússia e Irã, estão utilizando redes criminosas para promover seus interesses nacionais.
Uma maneira pela qual vimos o governo chinês fazer isso é habilitando hackers baseados na China. Esses hackers podem ou não ser diretamente empregados pelo Estado chinês, mas muitas vezes são empoderados por ele ou, no mínimo, o Estado fecha os olhos para suas atividades e depois se beneficia dos dados e informações que eles roubam.
Diálogo: Dada a influência crescente da China no setor energético da América Latina, qual é a probabilidade de ocorrerem ataques cibernéticos ou manipulação da infraestrutura energética, e o envolvimento da China, mesmo que indireto, poderia facilitar tais atividades?
Lazarus: Com certeza. E isso não é hipotético. Em 2021, a Microsoft divulgou um relatório identificando um grupo de hackers baseado na China, chamado Nickel, que havia realizado ataques cibernéticos em vários países ao redor do mundo, 16 deles na América Latina e no Caribe. Eles tinham como alvo dados confidenciais: informações comerciais, comunicações governamentais, detalhes sobre autoridades proeminentes e muito mais.
Houve outro relatório, da Google ou da Mandiant, que agora faz parte da Google, que identificou uma tendência de ataques cibernéticos focados em dados comerciais. Em particular, em dados que beneficiariam empresas estatais chinesas, que participam de licitações para grandes projetos de infraestrutura. Então, é muito interessante. Quando você olha para os alvos desses ataques cibernéticos, parece claro que o objetivo é dar às empresas estatais chinesas uma vantagem econômica.
Quanto ao seu argumento: sim, as empresas chinesas expandiram significativamente sua presença em setores como eletricidade e infraestrutura. Mas a questão mais profunda é: até que ponto o controle da China sobre infraestruturas críticas afeta a soberania de um país?
Diálogo: Como os avanços tecnológicos, incluindo moedas digitais, comunicações criptografadas e mercados online, facilitaram as operações desses grupos criminosos?
Lazarus: Uma das principais ferramentas que eles usam atualmente para movimentar fundos ilícitos é a criptomoeda, especialmente o Tether. O Tether é particularmente útil, porque é uma moeda estável, o que significa que um Tether equivale a um dólar dos EUA. Embora o Bitcoin ainda seja usado, a estabilidade do preço do Tether o torna mais atraente para a lavagem de dinheiro.
Essas redes também estão empregando técnicas cada vez mais sofisticadas para ocultar a origem de suas transações. Um desses métodos é conhecido como chain hopping, que consiste em receber pagamentos em Bitcoin e depois convertê-los em Tether, Ether ou outras criptomoedas. O objetivo é complicar a rastreabilidade e mascarar ainda mais a origem e o destino dos fundos.
Outro elemento importante disso é a fraude digital. Embora ainda não tenha atingido uma escala crítica na América Latina e no Caribe, a região pode muito bem ser alvo disso no futuro próximo.
Já estamos vendo essa tendência no Sudeste Asiático, em países como Mianmar, partes do Vietnã e nas Filipinas, onde grupos criminosos chineses criaram fazendas de fraudes digitais. Essas operações organizadas fazem ligações fraudulentas convencendo as pessoas a investirem em esquemas falsos de criptomoedas. Depois que a vítima transfere o dinheiro, às vezes dezenas ou até centenas de milhares de dólares, os golpistas desaparecem com os fundos. É uma operação global, de escala verdadeiramente massiva.
Diálogo: Como a crescente influência política e econômica da China na América Latina está ligada ao aumento da atividade criminosa chinesa na região?
Lazarus: Acho que o passado é prólogo, quando se trata do envolvimento econômico chinês em uma região e das atividades ilícitas que tendem a se seguir. No início deste ano, tive o privilégio de viajar para Vietnã, Taiwan e Filipinas. O que realmente me impressionou foi o quanto essas redes ilegais chinesas se integraram ao envolvimento econômico legítimo que a China está conduzindo, particularmente por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Essas redes essencialmente se infiltraram nesses esforços, e isso está se tornando um grande problema. Autoridades locais em lugares como Filipinas, Vietnã e, certamente, Mianmar, que está em meio a uma guerra civil, estão lutando para controlar a situação.
É por isso que acredito que é fundamental que nossos parceiros da América Latina e do Caribe olhem para mais além de sua região, para examinar o que está acontecendo em outras partes do mundo, que tiveram um envolvimento mais longo e sustentado com a China. Quando você vê essas tendências se manifestando em outros lugares, isso pode servir como uma prévia do que pode acontecer em sua própria vizinhança. Pode não acontecer hoje ou amanhã, mas em cinco, 10 ou 20 anos, esses mesmos padrões podem surgir.
Diálogo: Quais são os principais desafios que as forças de segurança da América Latina e do Caribe enfrentam ao tentar desmantelar essas redes criminosas da China?
Lazarus: A preocupação que tenho ouvido constantemente é a falta de compreensão cultural e de habilidades linguísticas. Onde quer que você vá, as comunidades da diáspora chinesa tendem a ser isoladas. Isso pode ser devido a barreiras culturais, diferenças linguísticas, ou ambas. Mas, é um padrão consistente. Essas comunidades são frequentemente fechadas, e isso cria um desafio real. Pode haver atividade criminosa, mas as autoridades de aplicação da lei locais muitas vezes não têm acesso a ela. A segunda questão é uma das prioridades. E quero voltar a este ponto: o fato é que isso é uma ameaça. A questão é: quão grande é essa ameaça em comparação com outras organizações criminosas transnacionais locais ou regionais? Essa é a pergunta de um milhão de dólares.
Eu estava em Trinidad e Tobago em março [de 2025], discutindo sobre o aumento do crime organizado chinês. As autoridades locais notaram um aumento nas organizações chinesas de lavagem de dinheiro, mas presumiram que fosse algo exclusivo do seu país. Minha função era ajudá-los a entender que isso é um microcosmo de uma tendência global muito maior. E acho que é aí que reside uma solução potencial. Imagine se um agente de aplicação da lei em Trinidad e Tobago pudesse comunicar-se regularmente com seus homólogos no Vietnã, nas Filipinas, no Reino Unido ou no Canadá, lugares que também enfrentam desafios semelhantes. Eles poderiam comparar notas: “Estamos vendo isso, vocês também estão vendo?” Ou “Quais são suas melhores práticas? O que funcionou? O que não funcionou?” Construir uma rede transnacional para enfrentar essas redes transnacionais é o tipo de colaboração que precisamos para avançar.
Diálogo: Existem tendências emergentes na atividade criminosa chinesa que governos, pesquisadores e formuladores de políticas deveriam estar monitorando mais de perto?
Lazarus: Uma coisa que me surpreendeu é o quanto a conversa pública e as manchetes se concentram no fentanil, mas muito raramente falamos sobre a parte da lavagem de dinheiro. Não sou um agente da lei e não trabalho com serviços financeiros, mas conheço o velho ditado: siga o dinheiro, siga o dinheiro, siga o dinheiro. E se você seguir o dinheiro, muitas vezes poderá desmantelar essas redes muito mais rapidamente, porque estará cortando sua principal fonte de financiamento.


