A expansão do Trem de Aragua no Brasil: adaptação criminosa, alianças estratégicas e um novo desafio para a segurança

A expansão do Trem de Aragua (TdA), a organização criminosa venezuelana que se consolidou na prisão de Tocorón na década de 2010, classificada como organização terrorista transnacional por vários países da região e atualmente presente em grande parte do hemisfério, além da Europa, também chegou ao Brasil.

Em uma primeira etapa, o grupo se estabeleceu na fronteira, no estado de Roraima, aproveitando-se da vulnerabilidade de parte da população migrante por meio do tráfico de pessoas, da extorsão e da exploração da prostituição. Paralelamente, integrou-se às economias ilegais da fronteira, colaborando com redes criminosas já ativas na mineração ilegal, no contrabando e em outras atividades ilícitas.

No entanto, nos últimos anos, em vez de replicar o modelo venezuelano baseado no controle territorial, o TdA se adaptou ao ecossistema criminoso brasileiro, priorizando a cooperação com as grandes facções locais em detrimento da competição e do confronto. Investigações recentes indicam que o grupo dispõe hoje de uma rede logística, financeira e operacional distribuída por vários estados e atua como parceiro estratégico do Comando Vermelho (CV).

“No Brasil, o Tren de Aragua está hoje voltado para os negócios. A aliança com as facções brasileiras abriu novas oportunidades não apenas para a venda de armas e o tráfico de drogas, mas também para a lavagem de dinheiro, inclusive por meio de criptomoedas, sem arcar com os custos de uma guerra pelo controle do território”, explicou à Diálogo Carlos Eduardo da Silva, ex-investigador sênior da Polícia Civil de São Paulo e especialista em criminalidade organizada transnacional.

Mais do que exportar seu próprio modelo criminoso, o TdA compartilha uma plataforma de serviços criminosos com os grupos brasileiros, contribuindo para a crescente integração entre redes criminosas transnacionais e organizações locais.

Da fronteira à lavagem de dinheiro

Segundo as autoridades brasileiras, o TdA conta atualmente com entre 150 e 250 membros distribuídos entre os estados amazônicos de Roraima e Amazonas, bem como em estados do sul, com redes de apoio em São Paulo e no Rio de Janeiro. Antonio José Cabrera Soterano, conhecido como Tio Antonio e condenado no Brasil por homicídio, figura entre os principais integrantes do TdA identificados pelas autoridades brasileiras. As investigações o associam ao tráfico de armas que o grupo introduz por Roraima para abastecer principalmente o CV.

Essa expansão territorial foi acompanhada por uma transformação ainda mais profunda: a financeira. De acordo com as investigações, a estrutura criminosa ligada ao TdA movimentou mais de 6 R$ bilhões nos últimos dois anos. As autoridades identificaram o uso de empresas de fachada, criptomoedas e técnicas de smurfing — que consistem em fracionar grandes somas em inúmeras operações de pequeno valor para burlar os controles —, a fim de ocultar e movimentar esses recursos.

“O Brasil se tornou uma plataforma para a lavagem de dinheiro do Trem de Aragua porque a organização encontrou no país operadores financeiros e redes criminosas locais capazes de movimentar contas, empresas e criptoativos”, afirma Da Silva.

Um caso emblemático é o do empresário brasileiro Gustavo Vieira Rufino, detido em junho sob a acusação de ter participado da lavagem de mais de R$ 300 milhões em criptomoedas para o TdA. Segundo os investigadores, Rufino também atuava para o CV, o que confirma a existência de uma rede local de facilitadores financeiros compartilhada por diversas organizações criminosas.

Essa infraestrutura, além disso, tende a se expandir ao longo de um dos principais nós do crime organizado regional. “O grupo demonstra um interesse particular pela tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, uma zona propícia para inúmeras transações ilícitas”, declarou ao jornal O Globo o delegado da Polícia Civil de Roraima, Wesley Costa de Oliveira. O interesse por essa região sugere que o TdA não busca apenas consolidar sua presença no Brasil, mas também utilizar o país como plataforma logística e financeira para todo o Cone Sul.

Uma aliança baseada na complementaridade

Outra característica distintiva do modelo brasileiro do TdA é a natureza de sua aliança com o CV. Investigações anteriores também identificaram vínculos e formas de cooperação com membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), embora a relação com o CV pareça mais clara. Mais do que uma simples colaboração, as investigações descrevem uma divisão do trabalho criminoso na qual cada organização contribui com competências específicas.

“A adaptação ocorreu de forma pragmática”, observa Da Silva. “O TdA evitou disputar diretamente o controle do território com as facções brasileiras, concentrou-se nos crimes contra os migrantes venezuelanos e tornou-se uma ponte para rotas, armas e contatos do lado venezuelano”.

Em junho, a Operação Rota do Norte desmantelou, em seis estados brasileiros, uma rede do TdA envolvida no tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. O modelo que emergiu da investigação foi o de uma cooperação com as organizações locais baseada na especialização. O TdA contribui com rotas transfronteiriças, acesso a armamento e conexões criminosas na Venezuela; as facções brasileiras oferecem capital, redes de distribuição e controle dos mercados locais.

Como resumiu o delegado da Polícia Civil Hugo Cardias, que participou da operação: “A lógica é a seguinte: você tem o dinheiro, eu tenho o produto e o canal de distribuição; unimos nossos recursos para realizar transações financeiras, tráfico de armas, drogas e qualquer outra atividade de interesse mútuo”.

Para Da Silva, essa complementaridade reduz os incentivos para um confronto direto. “Não se trata de uma relação entre iguais, mas também não é uma simples subordinação. É uma relação comercial destinada a perdurar enquanto a cooperação for mais conveniente do que entrar em guerra”.

Medidas necessárias

Com extensas fronteiras com a Colômbia, o Peru e a Bolívia — os três maiores produtores mundiais de cocaína — e com o Paraguai, um dos principais produtores regionais de maconha, o Brasil já representa um dos principais corredores logísticos do tráfico de drogas latino-americano. A aliança entre o TdA, o CV e outros grupos criminosos locais ameaça fortalecer ainda mais essa posição, transformando o país em uma plataforma continental do crime organizado. A isso se soma a incerteza gerada após a morte do líder do TdA, Héctor Niño Guerrero. Especialistas alertam que uma eventual fragmentação da organização poderia favorecer uma maior dispersão de seus integrantes e reforçar a autonomia de células já estabelecidas em países como o Brasil, aumentando a pressão sobre as autoridades.

Para os especialistas, a resposta deve se concentrar principalmente na infraestrutura econômica que sustenta essas redes. “O primeiro passo é continuar atacando as finanças da organização por meio de uma ação mais integrada entre as autoridades estaduais e federais para monitorar contas, empresas e criptoativos vinculados ao TdA. Também é necessário reforçar o controle das rotas fronteiriças, das pistas clandestinas e das áreas de mineração de Roraima”, destaca Da Silva.

No plano internacional, a prioridade é fortalecer a cooperação internacional. “O caso do Trem de Aragua demonstra que a luta contra o crime organizado exige hoje uma estratégia regional, permanente e baseada na integração da inteligência financeira, da cooperação internacional e do controle de fronteiras”, conclui Da Silva.

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