Redes do CJNG sob pressão coordenada em todo o hemisfério

Designado pelos Estados Unidos como Organização Terrorista Estrangeira (FTO) em fevereiro de 2025, o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG) continuou projetando sua influência para além das fronteiras do México, mesmo após a morte de seu histórico líder Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, em 22 de fevereiro de 2026, durante uma operação das Forças Especiais do Exército Mexicano (SEDENA) em Tapalpa, no estado de Jalisco.

A capacidade do cartel de manter suas redes operacionais após a morte de Oseguera reflete sua estrutura descentralizada, com a liderança e as atividades criminosas distribuídas entre diferentes grupos e territórios. Isso reduz sua dependência de um único líder e permite que a organização continue operando mesmo sob pressão.

Ações recentes das autoridades dos Estados Unidos mostram como essa rede funciona. Em 5 de agosto, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou novas acusações contra cinco líderes de alto escalão do CJNG, enquanto o Departamento de Estado ofereceu mais de USD 100 milhões em recompensas por informações que levem à prisão ou condenação de oito fugitivos ligados ao cartel. Os casos revelam uma rede criminosa transnacional envolvida em atividades que vão do narcotráfico e tráfico de armas à lavagem de dinheiro e fraude, com responsabilidades e riscos distribuídos entre diferentes atores.

Os casos anunciados também refletem um esforço interinstitucional. Várias agências federais dos EUA participaram das investigações, entre elas a Administração Federal Antidrogas (DEA), o FBI, a Polícia Federal americana aas Investigações de Segurança Interna (HSI) e a Divisão de Investigação Criminal da Receita Federal dos EUA (IRS-CI).

Um elemento adicional surge das acusações contra os irmãos Ramón e Rafael Álvarez Ayala, conhecidos como R1 e R2. Em 26 de agosto, o Departamento de Justiça acusou ambos, considerados comandantes regionais do CJNG no estado de Michoacán, de tráfico de cocaína e metanfetamina destinadas aos Estados Unidos e de crimes relacionados ao uso de armas. O caso mostra como o controle exercido sobre o território mexicano pode servir de base para conectar as atividades locais do cartel às rotas internacionais do narcotráfico.

“O CJNG deixou de ser um cartel mexicano; é uma organização criminosa transnacional que, como um polvo, muda de cor, textura e forma em um instante”, disse à Diálogo Abraham Serrano Ortega, especialista mexicano em geoestratégia e inteligência. Segundo Ortega, o CJNG opera segundo um modelo de franquia que lhe permite estender sua presença a cerca de 40 países sem precisar mobilizar um número significativo de seus próprios integrantes.

Nesse modelo, a América Latina desempenha um papel estratégico graças às suas rotas, portos e alianças com organizações criminosas locais, que facilitam o fluxo de drogas, armas e capitais. A natureza transnacional da rede torna cada vez mais necessária uma resposta regional coordenada, baseada no compartilhamento de inteligência, em operações conjuntas, no rastreamento de fluxos financeiros e em uma cooperação judicial mais estreita.

Uma organização estruturada por funções

Um agente da Polícia Nacional do Equador vigia pacotes de cocaína apreendidos durante a Operação Factoría, realizada em 26 de agosto de 2026 contra uma estrutura de Los Lobos ligada ao CJNG, com apoio da DEA e do SOUTHCOM. (Polícia Nacional do Equador)

As acusações recentes ajudam a entender como o CJNG combina uma liderança centralizada que define objetivos e coordena seus diferentes componentes com uma estrutura operacional descentralizada e organizada em torno de funções especializadas. “Estamos diante da transformação definitiva do crime em uma holding narcoterrorista”, afirmou Ortega.

Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, Juan Carlos Valencia González, conhecido como El Pelón ou El 03, enteado de El Mencho, teria assumido a liderança do cartel após sua morte, garantindo a continuidade no alto comando. Valencia é acusado de envolvimento na produção, no transporte e na distribuição de grandes quantidades de cocaína e metanfetamina destinadas aos Estados Unidos, além da organização de diversos atos de violência. Valencia já havia sido sancionado em 23 de julho pelo Departamento do Tesouro, juntamente com mais de 50 pessoas e empresas consideradas parte da rede financeira do CJNG, na maior ação já realizada pelo Tesouro contra o cartel. A investigação identificou um sistema de lavagem de dinheiro baseado em transferências internacionais, empresas de fachada e atividades imobiliárias.

Entre os acusados em 5 de agosto, Julio César Montero Pinzón e Carlos Andrés Rivera Varela lideravam o chamado Grupo Elite, um braço armado responsável por proteger os interesses do cartel, controlar áreas estratégicas e atacar agentes públicos e grupos rivais. O grupo também mantinha campos de treinamento e tinha mais de 1.000 pessoas sob seu comando.

Outros integrantes desempenhavam funções essenciais dentro da organização: Hugo Gonzalo Mendoza Gaytán supervisionava a aquisição de armas, o treinamento e o recrutamento; Ricardo Ruiz Velasco coordenava o narcotráfico, a corrupção, as armas e as atividades coercitivas; e Julio Alberto Castillo Rodríguez cuidava da logística, da aquisição de precursores químicos, da geração de receitas e do transporte de carregamentos de drogas destinados aos Estados Unidos.

A rede também conta com um componente financeiro que, segundo o Departamento de Justiça, era supervisionado por Montero Pinzón e Griselda Margarita Arredondo Pinzón, acusados de participar de um esquema internacional de fraude envolvendo propriedades de tempo compartilhado. Os recursos obtidos teriam sido canalizados de volta para as operações do cartel. “O mesmo dinheiro gerado por fraudes e outras atividades ilícitas ao redor do mundo financia a compra de armas, drogas como fentanil e outros narcóticos, além do uso da força em apoio ao terrorismo”, afirmou Ortega.

A estratégia das alianças locais

Esses recursos também permitem que o CJNG amplie suas operações para além do México por meio de parceiros locais, que facilitam o acesso a territórios, infraestrutura, rotas e mercados, sem a necessidade de deslocar diretamente grandes contingentes e recursos para cada país. “São joint ventures fluidas, não alianças hierárquicas entre fações”, explicou Ortega. Na América Latina, essas parcerias abrangem desde a logística e o acesso à infraestrutura portuária até o fornecimento e a distribuição de drogas. Em troca, as organizações locais obtêm recursos, armas, precursores químicos, capital e acesso a mercados internacionais.

O Equador representa um dos exemplos mais significativos. Em 26 de agosto, as autoridades equatorianas, com o apoio da DEA e do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), realizaram simultaneamente as operações Jericó e Factoría em várias províncias do país contra estruturas ligadas a Los Choneros e Los Lobos, esta última uma organização criminosa associada ao CJNG. As operações resultaram em prisões e na apreensão de drogas, armas, dinheiro, veículos e equipamentos de comunicação, além de afetar infraestrutura utilizada para o tráfico aéreo clandestino. Segundo a DEA, as estruturas investigadas transportavam cocaína do Equador através da América Central e do México para outros mercados internacionais. Entre os detidos estavam ainda dois cidadãos mexicanos que o ministro do Interior do Equador, John Reimberg, vinculou ao CJNG.

A operação ocorreu no contexto de uma cooperação regional mais ampla contra as redes dos cartéis. O Equador integra a Coalizão contra os Cartéis das Américas, iniciativa que reúne 19 países do hemisfério para fortalecer a coordenação no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em seu segundo encontro, realizado em agosto no Panamá, autoridades de defesa e segurança avançaram na identificação de áreas de ação conjunta, incluindo o compartilhamento de inteligência e o combate às estruturas financeiras e logísticas que permitem que essas organizações operem através das fronteiras.

“É uma aliança de terceirização territorial. O CJNG fornece armas, precursores e logística, e os grupos locais garantem acesso aos portos. É uma franquia criminosa”, afirmou Ortega.

No Panamá, investigações jornalísticas vincularam o grupo criminoso Bagdad ao CJNG e ao apoio logístico ao trânsito de cocaína procedente do Equador e da Colômbia com destino ao México. Na Colômbia, o cartel opera por meio de emissários para a compra de cocaína, enquanto, no Chile, o Ministério Público vinculou o CJNG a um laboratório clandestino de metanfetamina descoberto em janeiro de 2025 na região de O’Higgins, operado por dois cidadãos mexicanos. Mais de 844 quilogramas de drogas e precursores químicos foram apreendidos. Investigações no Paraguai, na Argentina e no Brasil também revelaram a presença de integrantes, operadores ou redes ligadas à organização.

A rede, no entanto, não se limita ao narcotráfico, estendendo-se a setores criminosos capazes de gerar lucros, fornecer matérias-primas ou facilitar a movimentação de capitais. Segundo a organização não governamental Agência de Investigação Ambiental (EIA), o cartel está envolvido no tráfico ilegal de mercúrio do México para regiões de mineração de ouro na América do Sul, incluindo Bolívia, Peru e Colômbia.

Essa diversificação amplia as possibilidades de colaboração com outras organizações criminosas transnacionais. O grupo venezuelano Tren de Aragua, cuja presença foi documentada em 11 estados mexicanos, colabora ocasionalmente com o CJNG e outras organizações criminosas mexicanas. Segundo análises de segurança citadas pela imprensa regional, os cartéis utilizam o grupo como mão de obra criminosa e para o controle de rotas migratórias, enquanto o Tren de Aragua se beneficia de sua proteção e poder local.

Os vínculos do CJNG também se estendem para além do hemisfério. Sobre a relação com a ’Ndrangheta italiana, Ortega afirmou: “É uma aliança de mercado atacadista e lavagem de dinheiro. O CJNG entrega cocaína e metanfetamina puras na Europa via Espanha e Bélgica, e a ’Ndrangheta lava o dinheiro por meio de restaurantes e do setor da construção”. Com a máfia albanesa, por outro lado, a aliança se concentra na distribuição de drogas nos mercados de destino. “Os albaneses controlam a distribuição no Reino Unido e nos Bálcãs e têm a rota da heroína. O CJNG usa essa rede para distribuir fentanil sem expor sua própria estrutura”, disse Ortega.

Uma resposta coordenada contra a rede do CJNG

A polícia chilena exibe latas de tinta apreendidas em um laboratório clandestino onde foram encontrados 844 quilos de metanfetamina, em janeiro de 2025. Segundo o Ministério Público chileno, os dois mexicanos que operavam o laboratório tinham vínculos com o CJNG. (Javier Araos/AFP)

A natureza cada vez mais transnacional do CJNG exige uma resposta igualmente coordenada. Os países latino-americanos já contam com mecanismos de cooperação entre forças de segurança, compartilhamento de inteligência e operações conjuntas, mas, segundo especialistas, é necessário transformá-los em uma estratégia regional permanente, capaz de acompanhar continuamente a rede criminosa através das fronteiras. Quando apenas um nó da rede é atingido sem que suas conexões sejam afetadas, o cartel pode substituir um intermediário, deslocar pessoas e capitais ou alterar suas rotas, aproveitando as diferenças entre legislações, sistemas judiciais e capacidades investigativas.

Por isso, segundo Ortega, a cooperação deve ir além das operações policiais e incluir o acompanhamento sistemático dos fluxos financeiros e uma maior harmonização dos instrumentos jurídicos. “Tipificar em toda a região o apoio material ao CJNG e a outros atores não estatais como terrorismo” permitiria “viabilizar a extinção de domínio e a extradição célere da corporação, e não apenas do sicário”, afirmou.

O objetivo, portanto, não é apenas atingir integrantes individuais, mas impedir que o CJNG reconstitua rapidamente suas operações em outros locais. Para isso, as capacidades já existentes precisam estar conectadas em um sistema regional capaz de acompanhar simultaneamente as pessoas, os capitais, a infraestrutura e as rotas da rede criminosa. Somente uma resposta coordenada em vários níveis pode reduzir a capacidade do cartel de explorar as diferenças entre os países e escapar da pressão exercida em uma jurisdição simplesmente transferindo suas atividades para outra.

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