As recentes operações do Exército Nacional da Colômbia no norte do país destacam a importância estratégica do Caribe para as organizações criminosas que atuam no país. O controle dos corredores costeiros, vias de comunicação e pontos de saída marítima continua sendo um dos principais objetivos dessas estruturas, enquanto o Estado combina inteligência, presença territorial sustentada e cooperação internacional para restringir sua capacidade de movimento.
Em 15 de junho, o Exército Nacional lançou uma operação contra as Autodefensas Conquistadoras da Sierra Nevada (ACSN), em áreas rurais da Sierra Nevada de Santa Marta. Em resposta, membros do grupo bloquearam vários trechos da Troncal do Caribe, prejudicando a mobilidade entre Magdalena e La Guajira. Horas depois, as Forças de Segurança retomaram o controle do corredor por meio de uma ação coordenada com autoridades nacionais e locais, organizações humanitárias e líderes comunitários.
Além do confronto pontual, a operação evidenciou o valor estratégico desse corredor para as organizações criminosas. De acordo com a Fundação Ideias para a Paz (FIP), as principais fontes de financiamento da ACSN são o tráfico de drogas e a extorsão. A organização controla corredores que conectam rotas internas a pontos de saída para o Caribe, administra centros de armazenamento e cobra de outras redes criminosas pelo uso de zonas costeiras empregadas para a exportação de cocaína.
O grupo, consolidado sob seu nome atual em 2020 após a reconfiguração das estruturas armadas que operavam na região, mantém presença principalmente em Magdalena, César e La Guajira, com indícios de expansão para Santander e Norte de Santander.
Yadira Gálvez, especialista em segurança e acadêmica da Universidade Nacional Autônoma do México, explicou à Diálogo que essas estruturas vão além do tráfico de drogas e da extorsão. Além de controlar economias ilícitas, elas estabelecem mecanismos de governança criminosa que lhes permitem impor normas de comportamento, exercer controle direto sobre as comunidades e garantir o funcionamento dos corredores que sustentam suas atividades.
A geografia como vantagem estratégica
O Caribe colombiano abriga terminais portuários estratégicos em Santa Marta, Barranquilla e Cartagena, além de uma extensa rede de rodovias, zonas costeiras e áreas montanhosas que facilitam a mobilidade entre o interior do país e as rotas marítimas internacionais.
Para Gálvez, controlar esses corredores garante às organizações criminosas muito mais do que o transporte de cargas ilícitas. Também lhes permite proteger centros de armazenamento, garantir pontos de embarque, manter redes logísticas e gerar renda por meio da extorsão de atividades econômicas legais, incluindo o turismo.
O relatório Crime Organizado na Colômbia, do Ministério da Justiça da Colômbia, aponta que as condições geográficas do país e a presença limitada do Estado em algumas regiões têm favorecido a expansão de diversas economias ilícitas e das organizações que as administram. O estudo identifica a presença contínua de 98 grupos criminosos em 618 municípios entre 2018 e junho de 2024, além de alertar que essas estruturas diversificaram suas fontes de renda para atividades como a mineração ilegal, a extorsão e outras economias criminosas, ao mesmo tempo em que fortalecem corredores de exportação para a América Central, Europa e África.
A Colômbia continua sendo o principal produtor mundial de cocaína, uma condição que, segundo Gálvez, mantém uma pressão constante sobre os corredores utilizados para transportar a droga para os mercados internacionais. Entre 2016 e 2024, os departamentos de La Guajira, Magdalena e Bolívar concentraram cerca de 20 por cento das apreensões nacionais de cocaína, de acordo com o Ministério da Justiça, refletindo a importância do Caribe tanto como corredor de saída quanto como área prioritária para as operações de interdição.
Modelo criminoso cada vez mais flexível
As organizações criminosas também transformaram a forma como controlam esses corredores. Em vez de manter presença direta em todas as áreas de interesse, as estruturas de maior alcance recorrem cada vez mais a alianças e acordos com grupos criminosos locais para garantir rotas, centros de armazenamento e pontos de embarque.
Esse modelo lhes permite ampliar sua influência com menores custos operacionais e aproveitar o conhecimento territorial de atores já estabelecidos. No entanto, isso também gera novas disputas, já que os grupos locais podem se fortalecer, ampliar sua autonomia e, posteriormente, tornar-se concorrentes pelo controle dessas mesmas economias ilícitas.
Gálvez explicou que essa capacidade de adaptação responde à busca constante por novas formas de operar. As organizações incorporam tecnologias, modificam seus meios de transporte e transferem suas atividades para zonas com menor pressão estatal. Esse fenômeno, conhecido como “efeito balão”, faz com que, quando aumenta a vigilância sobre um corredor, as redes criminosas transfiram parte de suas operações para outros espaços menos controlados.
Uma resposta sustentada
O Ministério da Justiça destaca que a Colômbia tem fortalecido progressivamente seu marco institucional e jurídico para combater o crime organizado, complementando as operações militares com instrumentos destinados a afetar as estruturas financeiras e patrimoniais que sustentam essas organizações.
De acordo com a InSight Crime, os esforços recentes também têm buscado concentrar-se nos componentes mais especializados do crime organizado transnacional, particularmente nas redes dedicadas à lavagem de dinheiro e à coordenação logística das cadeias do tráfico de drogas.
Gálvez afirmou que as operações recentes demonstram a importância de integrar inteligência, planejamento e interoperabilidade entre o Exército, a Polícia Nacional e a Procuradoria-Geral para afetar as capacidades logísticas e de mobilidade dessas organizações. Ela acrescentou que o desafio operacional consiste em manter a pressão sobre os corredores sem afetar a população civil, especialmente em territórios onde vivem comunidades indígenas, ao mesmo tempo em que se fortalecem as investigações financeiras e as ações contra as redes que ligam as economias legais e ilegais.
A cooperação internacional complementa esses esforços por meio do intercâmbio de informações, do fortalecimento de capacidades e de diversos mecanismos bilaterais voltados para o combate ao crime organizado transnacional e outras ameaças compartilhadas.
A operação contra as ACSN demonstra que proteger um corredor estratégico implica muito mais do que recuperar uma rodovia ou desmantelar um acampamento. Exige uma presença sustentada que combine inteligência, controle territorial, coordenação entre instituições e cooperação com parceiros internacionais para impedir que as organizações criminosas reconstruam as redes logísticas que lhes permitem sustentar o tráfico de drogas e outras economias ilícitas em um dos corredores mais importantes do Caribe colombiano.