A abertura da economia chinesa, o aumento da corrupção interna e a expansão global da Iniciativa Cinturão e Rota permitiram que os grupos do crime organizado chinês se expandissem internacionalmente, inclusive na América Latina.
Por exemplo, em dezembro de 2024, Liu Bitong, foragido desde 2017, foi preso no estado brasileiro de Roraima, na fronteira com a Venezuela. O homem, identificado como o líder do grupo Bitong, que se acredita ser um desdobramento das tríades chinesas, a máfia do país asiático, comandava um esquema de extorsão na região central de São Paulo, principalmente contra comerciantes chineses nas imediações da rua 25 de Março. O grupo é suspeito de ter matado três comerciantes que não atenderam às suas exigências.

“Os grupos chineses do crime organizado são sofisticados e têm um grande conhecimento de negócios, concentrando-se cada vez mais em linhas de negócios altamente lucrativas, como o tráfico de pessoas, jogos e apostas online e tráfico de precursores químicos ilegais ou restritos”, explica à Diálogo Martin Purbrick, especialista em corrupção e crime organizado na Ásia.
Produção de drogas sintéticas
Em dezembro de 2024, a operação policial brasileira Heisenberg descobriu uma rede criminosa que produzia e vendia metanfetamina em São Paulo. O grupo era formado principalmente por estrangeiros, a grande maioria cidadãos chineses, que, segundo a polícia, aprenderam a fabricar a droga dos seus membros mexicanos originários do estado de Jalisco, onde opera o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG).
“O tráfico de drogas se tornou uma importante linha de negócios para os grupos chineses do crime organizado, graças à ampla diáspora chinesa em todo o mundo, que pode ser usada para a movimentação de pessoas, mercadorias e fundos”, afirma Purbrick.
A abertura oficial, em novembro de 2024, do porto de Chancay, no Peru, operado pela empresa chinesa de logística COSCO, de acordo com especialistas, corre o risco de facilitar e aumentar o tráfico para a região de precursores químicos para a produção de drogas sintéticas, bem como de produtos acabados, como metanfetaminas e opiáceos sintéticos, do fentanil até o nitazeno.
De acordo com um relatório da Coalizão Internacional contra as Economias Ilícitas (ICAIE), mais de 80 por cento dos precursores químicos usados na região são originários de três províncias da China. “É muito provável que grande parte desses produtos possa entrar na região através de Chancay, sob a proteção do Estado chinês”, indicou a ICAIE.
Produção de maconha
Os grupos criminosos chineses na América Latina estão se expandindo com relação ao tráfico, mas também para a produção de maconha, geralmente cultivada em grandes espaços fechados, iluminados dia e noite. Uma série de operações policiais no Chile descobriu que nas plantações cobertas trabalham imigrantes chineses trazidos ilegalmente ao país por organizações criminosas chinesas.
“Nossas investigações mostraram a colaboração de cidadãos chilenos […] em casos de tráfico de migrantes. Quanto ao narcotráfico, a estrutura criminosa tendia a ser mais exclusiva e favorecia a participação de seus conterrâneos (chineses)”, Luis Toledo, ex-chefe da Unidade Nacional Antidrogas do Ministério Público do Chile, disse à InSight Crime, uma organização que estuda o crime organizado na América Latina.

De acordo com as autoridades, as famílias do clã Bang, procedentes da província de Fujian, no sul da China, estão na vanguarda da produção de maconha no país latino-americano. Em 2021, a polícia chilena apreendeu 26 de seus centros de produção e US$ 1 milhão em dinheiro vivo. De acordo com o jornal chileno La Tercera, enquanto o clã Bang vende sua maconha para traficantes chilenos, ele compra ketamina e ecstasy deles para vender em seus bares de karaokê no Chile.
“Nem todos os criminosos chineses pertencem a tríades. Alguns podem estar estruturados em clãs, formando um empreendimento criminoso colaborativo com pessoas da mesma área e do mesmo ambiente. Um bom exemplo é a província de Fujian, que há centenas de anos tem produzido dezenas de milhares de migrantes por toda a Ásia, e muitos deles para a América, em busca de uma vida melhor. O termo gangue de Fujian é frequentemente usado para se referir aos criminosos da província, mas não existe uma única gangue com esse nome, mas sim várias organizações criminosas da província que usam esse apelido”, afirmou Purbrick à Diálogo.
Os grupos do crime organizado e as tríades chinesas geralmente baseiam sua cooperação em laços comuns de origem geográfica, vínculos de clã e idioma. Muitos deles falam apenas o dialeto de Fujian, que é mais difícil de traduzir, por medo de espionagem. “Quando encontramos intérpretes, alguns saem porque se sentem ameaçados ou temem represálias da organização”, disse Toledo à InSight Crime.
Extorsão e jogos de azar
Os grupos mafiosos chineses marcam sua presença na região por meio de várias atividades ilícitas, incluindo o tráfico de pessoas e a extorsão. Na Argentina, em novembro de 2024, três chineses foram presos por exigirem grandes somas de dinheiro de outros chineses proprietários de supermercados.
Em São Paulo, Brasil, de acordo com dados coletados pelo site de notícias Metrópoles, houve 15 casos entre 2023 e 2024, em comparação com 21 registrados nos nove anos anteriores. Para as autoridades, no entanto, o número real de vítimas é ainda maior, porque muitas delas não procuram a polícia por medo de represálias. Os comerciantes são explorados por meio de extorsão, mas também são usados em esquemas de lavagem de dinheiro. No Brasil, um dos principais grupos criminosos, o Primeiro Comando da Capital (PCC), não apenas usa essas redes chinesas, mas também oferece a elas os serviços de suas fintechs para pagamentos de drogas.

“É um grande hub, um grande ecossistema, não necessariamente de grupos que são hierarquizados entre si, mas que se beneficiam das mesmas estruturas, tanto para circular recursos, quanto para ter um nível de proteção para não serem incomodados”, explica a Metrópoles o promotor Fábio Bechara, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
Os jogos de azar ilegais, tanto reais quanto online, também são cada vez mais usados como forma de lavagem de dinheiro. Em janeiro de 2025, no Chile, uma operação policial descobriu como um traficante chinês, que recebia metanfetamina da Espanha por correio, administrava um cassino ilegal em sua casa em Santiago. Em 2023, também em Santiago, um chinês foi assassinado em um cassino ilegal chinês. No Brasil, a expansão chinesa nesse setor também se tornou um problema.
“Estima-se que pelo menos 40 por cento dos jogos de azar online no país operem ilegalmente. De fato, a maioria dos sites é administrada desde a China. Eles encontraram aqui um terreno fértil para explorar e estão operando com muita força”, declarou Magnho José, presidente do Instituto Brasileiro do Jogo Legal, ao site especializado do setor iGaming Futuro.
Embora a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) tenha bloqueado até o momento 11.641 sites ilegais, as autoridades do setor jurídico informam que outros tantos estão surgindo, a maioria localizada na China, por meio do uso de VPNs, redes privadas virtuais usadas para transmitir dados por redes públicas de forma anônima e segura. As VPNs permitem que grupos criminosos chineses explorem comunicações criptografadas e ocultem a origem do servidor, dificultando ainda mais o bloqueio desses sites.
“Os jogos de azar ilegais e as apostas esportivas na Ásia têm sido uma atividade fundamental para os grupos do crime organizado chinês durante décadas, devido às margens de lucros e aos riscos operacionais relativamente baixos”, afirma Purbrick. De acordo com o especialista, “os benefícios das apostas esportivas e dos jogos ilegais online são tão elevados que financiaram e continuam a financiar a expansão dos grupos chineses de delinquência organizada em outras regiões, como a América Latina.
Os grupos criminosos chineses são, portanto, uma ameaça para a região, que exige uma resposta cada vez mais transnacional.



