Em poucos anos, os grupos armados colombianos transformaram drones comerciais, originalmente projetados para fins civis s, em plataformas utilizadas como armas, passando da vigilância a ataques remotos com explosivos, ampliando seu alcance operacional e desafiando as defesas das forças de segurança. A rápida adoção de drones kamikazes, sistemas controlados por fibra óptica e ataques coordenados envolvendo múltiplas aeronaves reflete uma evolução que transformou a Colômbia em um laboratório regional para uma guerra com drones cada vez mais sofisticada, à medida que capacidades semelhantes se disseminam entre grupos armados e criminosos em outros países da América Latina.
Essa evolução representa um desafio que vai além da introdução de uma nova arma. Grupos criminosos e armados estão adaptando tecnologias comerciais de baixo custo, incorporando conhecimentos desenvolvidos em outros conflitos e modificando suas táticas em um ritmo que exige das forças de segurança uma reavaliação contínua de seus sistemas de detecção, proteção e interceptação.
“Agora, os criminosos são capazes de modificar os drones importados e criar novos sistemas, como enxames de drones e drones com fibra óptica”, disse ao Diálogo Pablo Uribe Ruan, especialista colombiano em segurança e geopolítica. Segundo o especialista, “esse salto tecnológico ocorreu em apenas alguns meses. A velocidade com que os criminosos adquirem conhecimento, assim como sua capacidade de criar novos sistemas de drones, é impressionante”.

O Exército de Libertação Nacional (ELN) e as dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) começaram a utilizar sistematicamente drones First-Person View (FPV) a em 2023. Ao permitir que os operadores vejam em tempo real o que o drone vê e ajustem sua trajetória durante o voo, a tecnologia FPV abriu rapidamente novas possibilidades ofensivas. Inicialmente utilizados em ataques rudimentares para lançar granadas, os drones FPV evoluíram para plataformas de ataque de precisão, cada vez mais precisas, empregadas em operações coordenadas.
A evolução também incorpora tecnologias e táticas desenvolvidas na Ucrânia: segundo o Financial Times, indivíduos ligados a grupos armados colombianos viajaram para o país, que está em guerra com a Rússia, para adquirir conhecimentos relacionados às operações com drones — uma transferência de expertise que demonstra a rapidez com que táticas desenvolvidas em um campo de batalha podem chegar a atores não estatais em outra região.
Dados compilados pelo Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) mostram a rapidez com que o fenômeno está avançando. Aproximadamente 72 por cento dos 670 incidentes envolvendo drones utilizados como armas registrados na América Latina desde 2018 ocorreram entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. A Colômbia responde por 97 dos 182 municípios da região nos quais a ACLED registrou esse tipo de incidente, tornando o país o que a organização descreve como epicentro regional dessa expansão. O número de grupos armados que utilizam drones como armas no país aumentou de cinco, em 2024, para 19, em 2026.
Concentrados principalmente em áreas rurais próximas a cultivos de coca e corredores do tráfico de drogas, os drones são utilizados não apenas contra as forças de segurança, mas também para vigilância, controle territorial, intimidação das comunidades. Sua crescente disponibilidade permite que grupos armados combinem tecnologia comercial relativamente acessível com explosivos e conhecimentos técnicos adquiridos ou compartilhados entre organizações.
Dos drones kamikaze à fibra óptica
Entre os fatores que, segundo especialistas, impulsionaram essa evolução estão a geografia das áreas onde os grupos armados operam e a rápida disseminação de novas táticas entre eles. Muitas das bases militares e delegacias de polícia atacadas estão em áreas rurais remotas, de difícil acesso por terra. Os drones permitem que os grupos armados superem algumas dessas barreiras geográficas e ataquem a distâncias maiores, enquanto as inovações introduzidas por uma organização podem ser rapidamente observadas e replicadas por outras.
Uma dessas inovações é o chamado drone kamikaze, desenvolvido a partir de plataformas comerciais. Diferentemente dos drones utilizados para lançar uma granada e retornar, esses sistemas transportam explosivos integrados à sua estrutura e são projetados para atingir diretamente o alvo.
As autoridades colombianas identificaram essa configuração após os ataques contra a base militar José Hilario López, no Cauca, em 25 de abril e 17 de julho, atribuídos à Frente Carlos Patiño do Estado-Maior Central (EMC), uma facção dissidente das FARC liderada por Néstor Vera, conhecido como Iván Mordisco. Nos dois incidentes, as forças de segurança interceptaram os drones antes que atingissem seus alvos. A análise das aeronaves mostrou que, em vez de lançar granadas, elas transportavam explosivos integrados às suas estruturas.
Outro salto tecnológico envolve drones controlados por fibra óptica. Em 12 de fevereiro, o ELN utilizou essa tecnologia em um ataque contra a base militar San Jorge, em Saravena, no departamento de Arauca, ferindo dois soldados.
Como explicou Uribe, “o que muda fundamentalmente neste sistema de drones FPV (…) é que ele elimina a dependência de links de rádio e os substitui por uma fibra que se desenrola durante o voo e transmite os comandos e o sinal de vídeo”.
A diferença tem consequências diretas para a defesa. Como a conexão entre o operador e a aeronave não depende de um enlace de radiofrequência, os sistemas convencionais de interferência eletrônica não conseguem interromper essa comunicação. As forças de segurança precisam, portanto, recorrer a outras camadas de proteção, incluindo radar, sensores eletro-ópticos e infravermelhos e sistemas capazes de interceptar fisicamente a aeronave.
Essa adaptação ilustra uma dinâmica recorrente nessa nova competição tecnológica: uma medida desenvolvida para combater uma geração de drones pode perder eficácia quando os grupos armados modificam o sistema de navegação, comunicação ou ataque.
Ataques múltiplos e saturação das defesas
A inovação não se limita às próprias aeronaves. Ela também se estende à forma como são empregadas. Os grupos armados colombianos passaram do uso de drones individuais para ataques coordenados envolvendo múltiplas aeronaves, descritos pelas autoridades e pela imprensa colombianas como ataques de “enxame”.
Em Ocaña, Norte de Santander, em 4 de setembro, um ataque atribuído ao ELN, envolvendo pelo menos 16 drones carregados com explosivos contra a base militar Trapiche, matou três militares. Meses antes, em 12 de abril, em Timba, no município de Jamundí, Valle del Cauca, vários drones carregados com explosivos, atribuídos a dissidentes das FARC, atacaram simultaneamente tropas colombianas, ferindo dois soldados.
A lógica por trás desses ataques é a saturação. A chegada de várias aeronaves em um curto período e a partir de diferentes direções exige que as forças de segurança detectem e respondam simultaneamente a várias ameaças. Essa dinâmica cria uma assimetria de custos: drones comerciais relativamente baratos podem exigir sistemas de detecção, guerra eletrônica e interceptação consideravelmente mais sofisticados.
Nenhuma tecnologia isolada oferece uma resposta completa. A interferência eletrônica pode ser eficaz contra determinados enlaces de rádio, mas perde essa vantagem diante de sistemas guiados por fibra óptica. Radares e sensores eletro-ópticos fornecem camadas adicionais de proteção, enquanto a interceptação física das aeronaves exige capacidades adicionais. Ataques envolvendo múltiplos drones pressionam todas essas defesas simultaneamente.
A ameaça, porém, não se limita às forças de segurança. “O problema não é apenas que se trata de um sistema usado contra as forças de segurança, mas também que o crime organizado utiliza enxames de drones contra a população civil em zonas de conflito armado, como se viu no Catatumbo”, afirmou Uribe.
O recrutamento de menores acrescenta outra dimensão. De acordo com um relatório da Human Rights Watch, alguns grupos armados estão treinando crianças para pilotar drones equipados com explosivos. A prática amplia as capacidades dessas organizações, ao mesmo tempo que incorpora menores recrutados a funções cada vez mais especializadas dentro dos grupos armados.
Uma resposta em múltiplas camadas
Diante da rápida evolução da ameaça, a Colômbia está desenvolvendo uma resposta que combina capacidades operacionais, treinamento especializado, sistemas antidrones, inteligência e controles mais rigorosos sobre a importação e circulação desses sistemas.
Parte dessa adaptação começou antes da escalada mais recente. Em outubro de 2025, o Exército colombiano ativou o Batalhão de Aeronaves Não Tripuladas (BANOT), uma unidade especializada criada para consolidar capacidades relacionadas a esses sistemas. A unidade inclui companhias dedicadas a operações com aeronaves multirrotores e de asa fixa, contramedidas eletrônicas e manutenção.
O treinamento também foi ampliado. Em abril de 2026, o Exército formou 105 novos operadores de sistemas de aeronaves não tripuladas, fortalecendo a capacidade institucional de empregar essas tecnologias em operações e responder ao seu uso crescente por grupos armados.
Esses esforços são complementados pelo Escudo Nacional Antidrones, anunciado em janeiro de 2026, com um investimento previsto de mais de R$ 8,6 bilhões para fortalecer a detecção e a interceptação de aeronaves não tripuladas. O programa inclui diferentes categorias de sistemas antidrones, com capacidades fixas, semifixas, móveis, portáteis e instaladas em plataformas de superfície.
A Colômbia também reforçou os controles sobre a entrada de drones e seus componentes. Desde janeiro de 2026, novas regulamentações da Direção de Impostos e Alfândegas Nacionais (DIAN) exigem declarações antecipadas para sua importação e restringem sua entrada ao Aeroporto Internacional El Dorado, em Bogotá, e aos portos sob jurisdição aduaneira de Cartagena. As regulamentações também proíbem sua entrada por remessas postais e entregas expressas.
Em agosto, o Ministério da Defesa também apresentou um projeto de lei para estabelecer um marco mais amplo para a importação, fabricação, venda, aquisição, registro, uso, transporte, monitoramento e controle de aeronaves não tripuladas e sistemas antidrones. O projeto está em tramitação legislativa.
As medidas buscam dificultar que organizações armadas explorem uma cadeia de abastecimento comercial projetada principalmente para fins civis. A dimensão desse mercado ilustra a complexidade do desafio: segundo o United Nations Mine Action Service (UNMAS), o número de aeronaves não tripuladas registradas na Colômbia aumentou de 55, em 2022, para 7.291, em 2025, enquanto o número de pilotos registrados passou de 12 para 4.497 no mesmo período.

Uma ameaça que atravessa fronteiras
A velocidade da inovação também torna difícil tratar o fenômeno como um problema exclusivamente colombiano. As mesmas características que facilitaram a disseminação dos drones entre grupos armados dentro do país — custo relativamente baixo, componentes comerciais, compartilhamento de conhecimento e facilidade de adaptação — também facilitam sua expansão através das fronteiras.
“Temos que partir da premissa de que o crime organizado colombiano é transnacional em todos os sentidos da palavra: importa conhecimento e bens — drones — da Ucrânia, Rússia e Turquia; compartilha conhecimento com seus homólogos no México e na Europa Oriental; e está cada vez mais gerando expertise técnica que permite passar de simples importador de drones a modificador de drones que podem ser exportados […] para o Equador, Venezuela ou América Central”, disse Uribe.
A ACLED já identifica o Equador e o Brasil como novas fronteiras no uso de drones por organizações criminosas, enquanto o México continua sendo outro importante foco regional. A experiência colombiana demonstra, assim, como capacidades desenvolvidas em um contexto podem se disseminar rapidamente entre organizações e territórios.
A cooperação internacional também faz parte da resposta. A Colômbia mantém cooperação com os Estados Unidos em treinamento, desenvolvimento de capacidades operacionais, interoperabilidade e intercâmbio de informações e tecnologia. Em abril, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) criou o SOUTHCOM Autonomous Warfare Command, uma nova organização voltada à integração de sistemas autônomos, semiautônomos e não tripulados e ao trabalho com parceiros regionais para desenvolver essas capacidades.
Para a Colômbia e outros países da região, porém, a corrida tecnológica vai além da aquisição de novos equipamentos. A experiência colombiana demonstra que grupos armados podem identificar uma vulnerabilidade, adquirir tecnologia comercial, adaptar conhecimentos provenientes de outros conflitos e modificar suas táticas em questão de meses.
A resposta, portanto, exige uma combinação de inteligência, treinamento, regulamentação, compartilhamento de informações e defesas capazes de se adaptar a diferentes tipos de ameaças. Em um ambiente no qual uma inovação desenvolvida na Ucrânia pode aparecer pouco depois em um ataque na Colômbia e, em seguida, se espalhar para outras organizações na região, a capacidade de aprender e se adaptar rapidamente está se tornando uma vantagem operacional tão importante quanto a própria tecnologia.