A ascensão dos drones na luta contra o crime organizado na América Latina

As forças armadas e de segurança da América Latina dependem cada vez mais dos drones como ferramentas inovadoras e poderosas para combater as organizações criminosas transnacionais (OCTs). À medida que esses grupos adotam a tecnologia avançada para cometer crimes, o domínio do espaço aéreo tornou-se um fator decisivo na luta contra o crime organizado.

Colômbia: Vanguarda em tecnologia contra crimes

Em outubro de 2025, o Exército Nacional da Colômbia estabeleceu um marco, ao ativar o primeiro Batalhão de Aeronaves não Tripuladas (UAVs) da América Latina, com base no departamento de Boyacá. Esse batalhão é composto por quatro companhias especializadas, cada uma com missões e capacidades específicas, integrando um sistema de vigilância autônomo e altamente eficiente.

De acordo com a cadeia alemã DW, os drones do Exército colombiano utilizam inteligência artificial e podem atacar do ar organizações dedicadas tanto ao narcotráfico, quanto à mineração ilegal.

“Grupos armados e organizações criminosas recorrem às UAVs para tarefas de vigilância, ataque e coordenação operacional”, explicou à Diálogo Ángel Rojo, analista argentino em sistemas aéreos militares estratégicos. Rojo adverte que essa tecnologia “modifica o equilíbrio tático, favorecendo cenários de conflito irregulares, descentralizados e com protagonismo crescente”.

A ameaça não é nova. Dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que não aderiram ao acordo de paz de 2016, têm usado drones caseiros para lançar explosivos contra as forças de segurança. Só em 2025, foram registrados mais de 350 ataques, com um saldo de 15 mortos e 170 feridos, relata a DW.

“O que antes era um símbolo de modernidade tecnológica, agora faz parte do repertório cotidiano de grupos armados em diferentes regiões do mundo, incluindo a América Latina, que os adaptam com surpreendente rapidez”, afirmou Rojo.

Na Colômbia, as primeiras experiências das FARC com drones comerciais datam do início da década de 2010, quando foram usados para vigiar plantações de coca e realizar missões de reconhecimento em acampamentos militares e rotas fluviais.

“Com o tempo, algumas unidades foram adaptadas para lançar granadas ou cargas explosivas artesanais. O objetivo era simples: gerar surpresa, desorganizar o inimigo e demonstrar controle territorial”, observa Rojo. “Após o processo de paz, essas táticas migraram para dissidências e gangues criminosas, consolidando os drones como parte da caixa de ferramentas do crime organizado.”

Adaptação estatal regional

O destacamento de drones estatais está se expandindo rapidamente em toda a região. No Peru, a Polícia Nacional desmantelou uma gangue criminosa em Lima, em novembro de 2025. Os drones de inteligência foram cruciais para identificar e rastrear os suspeitos durante sua fuga, o que facilitou a intervenção policial e levou às prisões.

Na Argentina, as Forças Federais de Segurança incorporaram 69 drones de última geração em setembro de 2025, para reforçar a vigilância aérea e fortalecer a luta contra o crime organizado. Esse equipamento, com câmeras térmicas, zoom de alta precisão e transmissão em tempo real, será utilizado para o controle de fronteiras, detecção de passagens ilegais e investigações criminais, ampliando assim o alcance operacional das forças e reduzindo o risco para o pessoal.

No mesmo mês, no Equador, a Força Aérea lançou o esquadrão de drones Rayo Justiciero, dedicado à vigilância aérea em áreas críticas dominadas pelo narcotráfico e pelas máfias. Essas aeronaves não tripuladas patrulham pistas clandestinas, controlam a mineração ilegal e identificam rotas utilizadas pelo crime organizado.

Drones: Armas do crime organizado

A sofisticação tecnológica também tem sido explorada agressivamente pelo crime organizado, liderado principalmente pelos cartéis mexicanos.

O Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), por exemplo, possui uma unidade dedicada a “operadores de drones” e foi responsável por ataques pioneiros, como o primeiro uso confirmado de drones kamikaze com visão em primeira pessoa (FPV) na região, no início de 2025. Entre 2022 e meados de 2023, a Secretaria de Defesa Nacional do México relatou mais de 493 ataques com drones por parte dos cartéis, principalmente contra grupos rivais.

Enquanto isto, no Brasil, no final de outubro de 2025, o grupo criminoso Comando Vermelho utilizou drones para lançar explosivos contra a polícia, durante uma grande operação no Rio de Janeiro.

“Não se trata de grandes UAVs, mas de pequenos aparelhos que voam até seu objetivo e explodem, enviando uma mensagem clara: podemos alcançar o que antes era inacessível”, explica Rojo. Para o analista, o drone se tornou símbolo de uma “nova guerra: fragmentada, irregular e cada vez mais aérea”.

Os drones cumprem uma dupla função: tática (monitorar a polícia, coordenar emboscadas, transportar cargas ilícitas); e simbólica (divulgar material audiovisual que demonstra o controle territorial). Sua proliferação responde à sua eficiência e baixo custo; por uma fração do preço de uma arma convencional, as gangues podem executar ataques de precisão e coletar inteligência, tudo sem expor seus membros ao combate direto.

A organização terrorista venezuelana Tren de Aragua (TdA) também utiliza tecnologia de drones, principalmente para vigilância e contrabando através das múltiplas fronteiras onde opera sua rede. Autoridades de países como Colômbia e Peru documentaram o uso de drones pela gangue para vigiar grupos rivais e movimentos policiais em zonas fronteiriças e centros urbanos específicos, onde dirigem redes de extorsão e operações de tráfico de pessoas.

O futuro do conflito

Para Rojo, a resposta do Estado deve ir além dos sistemas anti-drones reativos e da interferência eletrônica. “O controle territorial requer inteligência contínua, treinamento policial especializado e marcos legais claros.”

Segundo o analista, “a América Latina enfrenta uma nova fase de conflitos internos: a do controle territorial assistido por tecnologia acessível”. Nesta etapa, o Estado precisa mais de inteligência do que de força bruta, para antecipar a adaptação criminosa, construir uma presença sustentada e recuperar o espaço aéreo como parte do controle urbano.

“Na América Latina, o céu não é mais neutro; também é um campo de batalha”, conclui Rojo.

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