Colômbia mira as redes que sustentam o controle criminoso

A Colômbia intensifica sua ofensiva contra as organizações criminosas com uma estratégia voltada não apenas contra seus membros armados e suas operações de tráfico de drogas, mas também contra as finanças e as economias ilícitas que lhes permitem manter o controle territorial.

“Vamos atacar suas estruturas, seus líderes, suas finanças e as economias ilícitas que alimentam sua máquina criminosa”, afirmou o presidente Abelardo De La Espriella em 5 de setembro, ao anunciar uma nova estratégia de segurança para a região do Catatumbo após um ataque do Exército de Libertação Nacional (ELN) contra tropas colombianas.

Entre 7 de agosto e 19 de setembro, as forças de segurança colombianas realizaram mais de 21.900 prisões, apreenderam mais de 92 toneladas métricas de narcóticos e mais de 2.300 armas de fogo, e realizaram operações contra pelo menos 24 líderes de importantes estruturas criminosas, segundo a Presidência. As operações também tiveram como alvo economias ilícitas, infraestrutura do narcotráfico, corredores de mobilidade e ativos criminosos.

Atuar contra esses diversos componentes é fundamental, pois os grupos armados na Colômbia desenvolveram múltiplas fontes de renda e redes de apoio que lhes permitem absorver perdas e se adaptar à pressão das autoridades. A extorsão, a mineração ilegal, o financiamento ilícito e a coerção das comunidades podem sustentar essas organizações mesmo após os golpes das forças militares ou policiais. Em algumas áreas, os grupos armados também restringem a mobilidade, pressionam comerciantes e produtores e impõem regras às comunidades, o que lhes permite manter sua influência mesmo quando as forças de segurança conseguem avanços no terreno.

“É importante falar de mercados em vez de países”, destacou ao Diálogo Guillermo Holzmann, analista internacional da Universidade de Valparaíso. “As organizações criminosas estruturam suas operações com base na produção, transporte, exportação e distribuição de drogas em diferentes mercados internacionais”.

Combater as fontes do poder criminoso

A Fundação Ideias para a Paz (FIP) descreve um modelo criminoso em rede, no qual organizações de diferentes tamanhos colaboram ou competem por mercados ilícitos, enquanto alguns grupos controlam atividades criminosas específicas ou prestam serviços a organizações maiores. Essa estrutura permite que os grupos criminosos distribuam funções entre suas redes e limitem o impacto da perda de um membro, uma rota ou uma fonte de renda.

“É um controle de perdas: eles estão dispostos a perder até 20 por cento para manter os 80 por cento”, explicou Holzmann.

“É preciso seguir o dinheiro e identificar quem movimenta e financia os recursos nos níveis superiores”, acrescentou. Ele alertou que “quando uma atividade deixa de funcionar, essas organizações recorrem a outros crimes para manter sua estrutura”.

Cauca oferece exemplos de como as autoridades colombianas buscam atingir diferentes componentes desse sistema.

Em maio de 2026, tropas do Exército Nacional, com recursos da Brigada contra a Exploração Ilegal de Jazidas Minerais e em coordenação com a Polícia Nacional, intervieram em duas explorações mineradoras ilegais em Caldono e Santander de Quilichao. Segundo informações de inteligência militar, essa economia gerava mais de R$ 2,72 milhões por mês e beneficiava membros da estrutura de Jaime Martínez.

Dois meses depois, o Exército capturou em Suárez, Cauca, o conhecido como Tulande, apontado pelas autoridades como um dos principais responsáveis pela mineração ilegal na região de Los Farallones e suposto integrante das redes de apoio da mesma estrutura. As investigações determinaram que os rendimentos da exploração mineira ilegal alimentavam as finanças criminosas por meio de extorsões e do controle violento do território.

Em junho, a Polícia Nacional também prendeu em El Tambo um suposto membro de uma rede de apoio da estrutura de Carlos Patiño, procurado por extorsão agravada após uma investigação sobre ameaças e exigências de dinheiro a um professor.

Consideradas em conjunto, essas operações revelam uma estratégia que não se limita a enfrentar os homens armados: ela busca afetar as atividades que geram renda, as pessoas que movimentam esses recursos e as redes que permitem que as estruturas exerçam pressão sobre a população.

Do controle militar ao controle institucional

O desafio não termina quando as forças de segurança entram em um território. De La Espriella ordenou à alta cúpula militar e policial que “recuperassem a segurança e a autoridade do Estado em cada recanto do território nacional”, colocando o controle territorial no centro da estratégia de segurança.

Uma análise da FIP publicada em setembro de 2026 destacou a importância de uma resposta de segurança coordenada que proteja as comunidades, contenha a expansão dos grupos armados, fortaleça o controle territorial e institucional e reforce a justiça e as Forças de Segurança.

Manter esse controle requer mais do que a presença das forças de segurança. Implica também reduzir a capacidade dos grupos criminosos de intimidar as comunidades, financiar suas operações, impor suas decisões pela força e manter o controle sobre os meios de subsistência e os mercados locais.

Conectar inteligência, finanças e justiça

Para combater essas redes, é necessário, além disso, que as informações obtidas pelas forças de segurança cheguem àqueles que podem transformá-las em investigações financeiras e processos judiciais.

Holzmann destacou a importância de fortalecer a coordenação entre as instituições encarregadas de combater as redes criminosas. “O desafio é recuperar a convergência entre as instituições policiais, militares e políticas, bem como a coordenação e a confiança (…)”, afirmou.

Manter canais permanentes de comunicação entre os órgãos de inteligência e o Ministério Público é especialmente importante para que as informações de inteligência possam contribuir para as investigações financeiras e as ações judiciais contra as redes criminosas, acrescentou Holzmann.

Essa coordenação pode ajudar as autoridades a identificar as redes financeiras, logísticas e de apoio que sustentam os grupos armados, inclusive pessoas que podem atuar longe dos territórios onde esses grupos mantêm presença. Rastrear essas conexões permite ampliar as investigações além daqueles que exercem a violência no terreno, para alcançar também aqueles que financiam, abastecem e facilitam as operações criminosas.

A dimensão transfronteiriça

As redes criminosas que operam no sudoeste da Colômbia também estão conectadas a economias ilícitas e rotas de tráfico de drogas que se estendem até o Equador e outros destinos. O dinheiro, os suprimentos e os serviços podem circular entre diferentes jurisdições à medida que as organizações criminosas se adaptam à pressão das autoridades.

A Colômbia e o Equador fortaleceram sua capacidade de combater essa atividade transfronteiriça por meio de operações coordenadas. Em março de 2026, ambos os países lançaram a Operação Binacional Espejo contra o tráfico de drogas, o contrabando, a mineração ilegal, a extorsão e outras atividades do crime transnacional. Ambos os países definiram zonas de ação coordenada, enquanto os Estados Unidos forneceram apoio de inteligência para fortalecer as capacidades de interdição.

Essa coordenação bilateral é complementada por esforços regionais mais amplos. A Colômbia aderiu, em agosto, à Coalizão das Américas contra os Cartéis. Durante uma reunião em 8 de setembro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, a Colômbia ratificou sua participação na iniciativa e abordou o fortalecimento das capacidades de segurança, incluindo radares, drones, inteligência, defesa cibernética e forças especiais.

Andrés Macías, especialista da Universidade Externado da Colômbia, disse ao veículo de comunicação equatoriano NotiMundo que a cooperação entre a Colômbia, o Equador e os Estados Unidos deve afetar o financiamento, a estrutura e as operações para evitar o chamado “efeito globo”, pelo qual a pressão exercida em um território desvia as atividades criminosas para outro.

O mesmo princípio se aplica dentro da Colômbia. Destruir um laboratório, tirar um líder de circulação ou recuperar um ponto estratégico pode reduzir as capacidades imediatas de um grupo sem eliminar as redes financeiras, logísticas e coercitivas que lhe permitiam operar naquele território.

Enfraquecer o controle criminoso requer, portanto, manter a pressão não apenas sobre os membros armados e a produção de drogas, mas também sobre as finanças, as economias ilícitas, as redes de apoio e as estruturas coercitivas que permitem que essas organizações permaneçam ativas.

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