Seguindo o rastro do dinheiro: a Guatemala impulsiona uma nova ofensiva hemisférica contra as finanças do crime organizado

A luta contra o crime organizado transnacional na América Latina e no Caribe está entrando em uma nova etapa. Além de prender líderes ou apreender drogas, os governos concentram cada vez mais seus esforços em identificar, rastrear e desmantelar as estruturas financeiras que sustentam as organizações criminosas.

Essa mudança se refletiu na Guatemala com a entrada em vigor, em setembro, da Lei Integral para a Prevenção e Repressão à Lavagem de Dinheiro ou Outros Ativos e ao Financiamento do Terrorismo. A lei fortalece a capacidade do Estado de detectar operações suspeitas, rastrear ativos ilícitos e melhorar a coordenação entre as instituições responsáveis pelas investigações financeiras, informou o Congresso guatemalteco.

Para José Andrés Romero, ex-diretor da Direção Nacional de Impostos e Alfândegas (DIAN) da Colômbia e ex-diretor executivo suplente do Fundo Monetário Internacional (FMI), a reforma responde a uma realidade enfrentada pelos órgãos de segurança em todo o hemisfério.

“Perseguir o dinheiro ilícito é a forma mais eficaz de enfraquecer as organizações criminosas. Quando se limita sua capacidade de movimentar e ocultar recursos, também se reduz sua capacidade de corromper instituições, financiar novas operações e expandir sua influência”, afirmou.

Do tráfico de drogas a complexos conglomerados criminosos

As organizações criminosas já não dependem exclusivamente do tráfico de drogas. De acordo com o Índice Global do Crime Organizado 2025, elaborado pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), essas redes participam de diversos mercados ilícitos. O índice analisa 15 mercados ilícitos, entre eles a mineração ilegal, o tráfico de pessoas, o tráfico de armas, os crimes ambientais e o contrabando.

A diversificação de suas economias ilícitas também sofisticou seus mecanismos financeiros. Hoje, os recursos provenientes de diversas atividades criminosas são canalizados por meio de empresas de fachada, investimentos imobiliários, comércio internacional, lavagem de dinheiro baseada no comércio, criptomoedas e redes financeiras informais.

“As organizações criminosas funcionam cada vez mais como conglomerados empresariais”, explicou Romero. “Hoje, diferentes economias ilícitas compartilham as mesmas estruturas financeiras para ocultar recursos, lavar ativos e financiar sua expansão.”

Afetar o fluxo de recursos ilícitos e desmantelar as redes de lavagem de ativos se configura como uma das estratégias mais eficazes para enfraquecer de forma sustentável o crime organizado transnacional.

Guatemala fortalece sua inteligência financeira

A reforma guatemalteca atualiza um marco legal que permaneceu praticamente inalterado por mais de 25 anos.

A mudança busca dar ao Estado novas ferramentas para atingir as estruturas financeiras que sustentam o crime organizado. Após sancionar a lei, o presidente Bernardo Arévalo resumiu o objetivo da reforma em termos diretos. “Durante anos, narcotraficantes, gangues criminosas e corruptos encheram os bolsos com total impunidade. Sem controles, sem fiscalização, sem punição. Isso está prestes a acabar!”, escreveu no X. “A Lei Antilavagem é uma ferramenta poderosa para avançarmos rumo a uma economia mais limpa, justa e transparente”, destacou.

De acordo com a Superintendência de Bancos (SIB), a norma integra, pela primeira vez em um único instrumento, as disposições para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, fortalecendo o sistema nacional de prevenção.

A reforma também melhora a coordenação entre as instituições responsáveis por prevenir, investigar e levar a julgamento esses crimes, ao mesmo tempo em que reforça o papel da Intendência de Verificação Especial (IVE), a unidade de inteligência financeira do país.

A mudança também tem uma dimensão internacional. A reforma aproxima o país dos padrões do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) e do Grupo de Ação Financeira da América Latina (GAFILAT), cujos processos de avaliação influenciam diretamente a confiança dos mercados e o acesso ao sistema financeiro internacional.

Uma estratégia que se estende pela região

Rastrear o dinheiro está se tornando uma ferramenta cada vez mais importante para desmantelar o crime organizado na América Latina e no Caribe. No Equador, promotores e analistas financeiros, com o apoio do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), rastreiam ativos ligados à mineração ilegal e investigam seus beneficiários finais. A Colômbia reforçou essa estratégia por meio da Unidade de Informação e Análise Financeira (UIAF), que integra inteligência financeira em investigações sobre tráfico de drogas, corrupção, mineração ilegal e crimes ambientais.

O Brasil levou a ofensiva a estruturas financeiras de maior escala. Em uma de suas operações recentes contra a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal no setor de combustíveis, a Polícia Federal identificou uma rede ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) que teria movimentado mais de R$ 24,912 bilhões, evidenciando a dimensão empresarial que as finanças criminosas podem atingir.

O Paraguai, por sua vez, busca fortalecer a coordenação entre autoridades financeiras, fiscais, policiais e aduaneiras para rastrear as estruturas econômicas do PCC e do Comando Vermelho na Tríplice Fronteira, por meio de um plano estratégico liderado pela Secretaria de Prevenção à Lavagem de Dinheiro ou Bens (SEPRELAD), com apoio da Corporação Andina de Fomento (CAF).

Da inteligência nacional à cooperação regional

O fortalecimento das capacidades nacionais tem sido acompanhado por uma maior cooperação entre os países.

Diante de organizações criminosas que não reconhecem fronteiras e operam em escala transnacional, os Estados compreenderam que uma resposta eficaz requer uma coordenação mais estreita entre suas instituições e uma cooperação regional sustentada.

Em junho de 2026, a Iniciativa para o Estado de Direito da American Bar Association reuniu as unidades de inteligência financeira da Argentina, do Brasil e do Paraguai para fortalecer o intercâmbio de informações sobre lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo na Tríplice Fronteira. O objetivo é desenvolver investigações conjuntas, compartilhar alertas antecipados e harmonizar metodologias para identificar redes financeiras transnacionais.

“É um marco importante e transmite uma mensagem forte ao mundo sobre o compromisso da Argentina, do Brasil e do Paraguai de cooperar em questões delicadas que afetam a segurança e a integridade”, afirmou Mariano Federici, ex-diretor da Unidade de Informação Financeira da Argentina (UIF).

A cooperação também avança na região andina. Entre maio e julho de 2026, Chile, Argentina, Peru, Equador, Bolívia, Paraguai e Uruguai assinaram o Compromisso de Santiago para ampliar a cooperação contra o crime organizado, com ênfase no intercâmbio de inteligência financeira e na recuperação de ativos.

Essa mesma abordagem se refletiu na primeira Operação Regional de Controle Transfronteiriço realizada pelo Equador, pela Colômbia e pelo Peru, que incluiu controles simultâneos em aeroportos e postos de fronteira para detectar movimentos ilícitos de dinheiro em espécie e trocar informações de inteligência financeira.

Com base nas normas do GAFI, em particular na aplicação da Recomendação 32 sobre a movimentação transfronteiriça de dinheiro, a operação buscou fechar brechas na movimentação transfronteiriça de dinheiro ilícito e fortalecer a resposta coordenada contra o crime organizado.

Os Estados Unidos ampliam a cooperação

Os Estados Unidos também reforçaram a cooperação com os países da região para fortalecer as investigações financeiras, a recuperação de ativos e o combate à lavagem de dinheiro.

Por meio do Departamento de Justiça (DOJ), do Serviço de Investigação Criminal do Serviço de Receita Internal (IRS-CI) e do Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e Aplicação da Lei (INL), Washington promoveu programas de capacitação para promotores, investigadores e analistas financeiros.

Para Romero, a cooperação bilateral traz um valor estratégico que vai além da assistência técnica. “O intercâmbio de conhecimentos, metodologias e informações com parceiros como os Estados Unidos fortalece as capacidades de investigação dos países e permite responder com maior eficácia às organizações criminosas que operam em várias jurisdições. Nenhum Estado pode, sozinho, reconstituir a origem, o movimento e o destino dos recursos ilícitos que financiam essas estruturas criminosas”, afirmou.

Essa abordagem já se traduz em operações concretas. No início de 2026, o DOJ e o IRS-CI ministraram treinamento na Colômbia a investigadores e cadetes da Polícia e a investigadores do Ministério Público sobre rastreamento de recursos ilícitos, lavagem de dinheiro, criptomoedas, blockchain e financiamento do terrorismo, com o objetivo de fortalecer a resposta contra redes criminosas transnacionais cada vez mais sofisticadas.

Atacar o centro de gravidade financeiro

O crime organizado transnacional evoluiu para estruturas empresariais altamente resilientes. Essas organizações podem substituir rapidamente seus líderes ou abrir novas rotas para suas atividades ilícitas, mas reconstruir redes financeiras desmanteladas, recuperar ativos apreendidos ou restabelecer mecanismos complexos de lavagem representa um desafio muito maior.

“Rastrear recursos ilícitos não é apenas uma ferramenta para investigar um crime depois que ele já foi cometido. Deve ser entendido como uma estratégia de segurança nacional voltada para impedir que as organizações criminosas continuem financiando, adaptando e expandindo suas operações”, afirmou Romero.

A reforma aprovada pela Guatemala transcende, assim, o âmbito nacional. Ela reflete uma tendência regional que busca atacar o principal recurso das organizações criminosas, que lhes permite sustentar seu poder.

A inteligência financeira, a cooperação internacional e a recuperação de ativos consolidam-se, assim, como ferramentas-chave das estratégias da região para privar essas redes dos recursos que financiam sua expansão e ameaçam a segurança hemisférica.

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