O Equador intensifica o rastreamento de transferências, empresas, propriedades e outros ativos vinculados a supostas estruturas criminosas. Os casos investigados em 2026 revelam uma estratégia que busca ir além das prisões: reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro, identificar as redes empresariais que o movimentam e agir sobre os bens que sustentam as operações ilícitas.
O Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) considera a recuperação de ativos uma prioridade operacional. As investigações financeiras permitem identificar ativos, operações e pessoas vinculadas a atividades criminosas, além de revelar novos suspeitos, crimes e provas. Congelar, apreender e, por fim, confiscar esses recursos pode impedir que os lucros ilícitos retornem ao circuito criminoso e financiem novas operações.
Rastro financeiro expõe estruturas criminosas
Uma investigação iniciada em 2025 ilustra o alcance dessa estratégia. O Ministério Público equatoriano abriu o caso após receber um relatório de operações atípicas envolvendo pessoas e empresas que supostamente utilizavam companhias de transporte, alimentação e segurança para introduzir dinheiro ilícito no sistema financeiro.
A investigação resultou na operação Emporio Presidiario, realizada em meados de março de 2026 em Guayas, Los Ríos e Pichincha. A Polícia Nacional realizou 13 buscas e prendeu 11 pessoas. Segundo as autoridades, um cidadão estrangeiro liderava a estrutura por meio de empresas familiares dedicadas ao transporte, alimentação e segurança privada, entre outras atividades.
Os investigadores também identificaram transferências relacionadas à Corganpecsa, empresa vinculada a Inda Peñarrieta, companheira de Adolfo Macías, conhecido como Fito, informou Primicias. O Departamento do Tesouro dos EUA identifica Macías como líder dos Los Choneros, organização terrorista equatoriana envolvida no narcotráfico e na lavagem de dinheiro.
O Ministério do Interior do Equador informou que as operações investigadas abrangeram um período de oito anos e que a estrutura havia movimentado aproximadamente R$ 8,704 bilhões dentro do sistema financeiro equatoriano. O ministro do Interior, John Reimberg, classificou a operação como “provavelmente o maior golpe contra a economia criminosa dos Los Choneros”.
Emporio Presidiario não é um caso isolado. Em abril de 2026, um juiz determinou que 19 pessoas e cinco empresas fossem levadas a julgamento no caso Comandos de la Frontera por suposta lavagem de cerca de R$ 2,04 bilhões
por meio de empresas de transporte de cargas pesadas, pecuária e outras atividades. A investigação também teve origem em um relatório de operações atípicas da Unidade de Análise Financeira e Econômica (UAFE).

De uma transação suspeita a uma rede de ativos
As informações financeiras permitem partir de uma operação e reconstruir relações mais amplas. Segundo a UAFE, 87 por cento dos depósitos registrados nas contas do prefeito de Machala, província de El Oro, foram feitos em dinheiro vivo. Muitos dos valores depositados foram sacados no mesmo dia ou no dia seguinte. O órgão também identificou relações financeiras entre empresas e prestadores de serviços do município.
“A inteligência financeira criminal é uma área específica da inteligência econômica voltada à persecução penal. Ela busca analisar, investigar e produzir provas para fundamentar um processo penal”, explicou ao Diálogo Edgardo Glavinich, diretor executivo da Fundação Sherman Kent, um centro de estudos latino-americano especializado em segurança, inteligência e governança estratégica.
Seguir o dinheiro também permite localizar bens adquiridos com recursos de suposta origem ilícita. Em maio de 2026, um juiz determinou que uma pessoa e a PezyMar Export S.A.S. fossem levadas a julgamento por suposta lavagem de ativos e manteve o congelamento e a imobilização de R$ 337,9 milhões em contas bancárias. Também manteve restrições sobre bens, além da suspensão e intervenção na empresa.
O Ministério Público apresentou relatórios da UAFE, documentos tributários, contratos de compra e venda de imóveis, registros de veículos e perícias financeiras, contábeis e societárias. O processo indica que aproximadamente R$ 66,56 milhões teriam ingressado no sistema financeiro entre 2021 e 2024 por meio da empresa, dedicada à exportação de produtos do mar.
“Os fluxos provenientes dos mercados criminosos podem ingressar na economia formal. São utilizados fundos fiduciários e outros instrumentos financeiros”, explicou Glavinich. Uma vez adquirida uma propriedade com esses recursos, acrescentou, o ativo passa a fazer parte da economia formal.
Do dinheiro à capacidade operacional
Os lucros permitem que as organizações criminosas sustentem operações, ampliem suas redes e penetrem em atividades legais. Por isso, o GAFI considera a recuperação de ativos parte integrante das investigações financeiras e sustenta que privar essas estruturas de seus recursos pode interromper e dissuadir suas operações.
O desafio vai além do narcotráfico. “O que falta é uma análise suficiente das atividades: lavagem de ativos, tráfico de pessoas, tráfico de flora e fauna e mineração ilegal, entre outras”, afirmou Glavinich. “Perseguimos a lavagem de dinheiro e os ativos financeiros das organizações criminosas, mas não os prevenimos. Um sistema maduro e ampliado de inteligência econômica deveria gerar alertas quando ocorre uma injeção de recursos cuja origem não pode ser determinada.”
Em maio de 2025, o GAFI, a INTERPOL e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime enfatizaram que o fortalecimento da recuperação de ativos limitaria a capacidade de expansão de grupos criminosos e terroristas. As organizações também defenderam investigações financeiras mais direcionadas e maior cooperação internacional para rastrear recursos ilícitos.
Cooperação amplia o rastreamento para além das fronteiras
A velocidade com que o dinheiro circula exige que as investigações ultrapassem as fronteiras nacionais. Em maio, Equador, Colômbia e Peru realizaram controles simultâneos em aeroportos e postos de fronteira para detectar o transporte de dinheiro em espécie e trocar informações sobre padrões e movimentações de capitais, segundo a UAFE. A operação também permitiu compartilhar informações sobre tendências, técnicas de análise de perfis e tipologias associadas ao movimento transfronteiriço de capitais.
“As organizações criminosas não estão olhando para a fronteira; estão olhando para os marcos regulatórios e os níveis de punição. Se um Estado endurece seus controles, elas podem transferir suas operações para outro país”, alertou Glavinich. Sem cooperação, acrescentou, é difícil acompanhar estruturas cujos fluxos financeiros “se movem com um clique”.
O Equador reforçou essa cooperação em março com a abertura do primeiro escritório permanente do FBI, a Polícia Federal americana, no país, destinado a facilitar o intercâmbio de inteligência e coordenar investigações com a Polícia Nacional. O escritório apoia casos de narcotráfico, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e financiamento do terrorismo.
Em 20 de agosto, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA sancionou 15 alvos sediados no Equador e bloqueou 10 embarcações vinculadas a uma rede de tráfico de cocaína associada aos Los Choneros e Los Lobos. Segundo o Tesouro, a estrutura utilizava empresas pesqueiras de fachada e embarcações baseadas nas proximidades de Manta para apoiar o transporte de cocaína pelo Pacífico Oriental.
O caso mostra como o rastreamento financeiro pode revelar não apenas contas e empresas, mas também ativos físicos e infraestrutura logística vinculados às operações das organizações criminosas.
A UAFE também troca informações com a Rede de Combate a Crimes Financeiros (FinCEN) do Departamento do Tesouro dos EUA, o que facilita o acesso a dados sobre contas, empresas e transações relacionadas a investigações financeiras. Os Estados Unidos também fornecem assistência técnica e treinamento a funcionários equatorianos.
O intercâmbio de inteligência integra mecanismos mais amplos de cooperação contra as estruturas criminosas. O Equador faz parte da Coalizão contra os Cartéis das Américas, criada em março de 2026 para ampliar a cooperação bilateral e multilateral contra o narcotráfico e outras ameaças compartilhadas. No fim de agosto, essa cooperação se traduziu em uma operação coordenada entre Equador e Estados Unidos contra uma embarcação que, segundo o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), funcionava como uma estação flutuante de reabastecimento para operações de narcotráfico no Pacífico Oriental.
A combinação de inteligência financeira, identificação de ativos e ação operacional permite atingir diferentes componentes de uma mesma rede: desde empresas e contas bancárias até embarcações e nós logísticos.
O desafio para o Equador é transformar a inteligência financeira em ações contra os recursos que sustentam as estruturas criminosas. A cooperação com países da região e parceiros como os Estados Unidos amplia essa capacidade diante de organizações cujos ativos e fluxos financeiros atravessam fronteiras. A análise também deverá se estender para além do narcotráfico, abrangendo mercados como mineração ilegal, tráfico de pessoas e tráfico de recursos naturais.
“Para alcançar uma interrupção sustentada dos capitais das organizações criminosas, o primeiro passo é contar com leis de apreensão e confisco de bens que permitam agir sobre dinheiro em espécie, propriedades, veículos e ativos financeiros”, concluiu Glavinich.