As organizações criminosas transnacionais operam cada vez mais em vários países, conectando o tráfico de drogas a redes logísticas, portos, facilitadores financeiros e mecanismos de lavagem de dinheiro. Uma mesma estrutura pode gerenciar a produção de cocaína em um país, o trânsito em outro, a saída por meio de um porto sul-americano e a lavagem dos lucros em uma quarta jurisdição.
Para combater essas redes, as autoridades da região estão cada vez mais buscando fortalecer a cooperação e o intercâmbio de informações, como demonstra a Carta de Intenções assinada em agosto pelos Ministérios Públicos do Brasil, do Chile e da Colômbia.
“Hoje existe um consenso sobre a necessidade de os países assinarem acordos como esse para a troca de informações. Por trás dessa lógica está a ideia de que o crime é cada vez mais transnacional”, afirma ao Diálogo Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospectiva e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV NPII) no Brasil.
Segundo o especialista, “se, em meados do século XX, os grupos criminosos tendiam a permanecer basicamente dentro de seus próprios países e, no máximo, se deslocavam para as regiões fronteiriças, atualmente temos grupos criminosos armados, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) […], que não só estão presentes em nossa região, como já têm uma atuação transregional, com operações na América do Norte e na Europa”.
A Carta de Intenções, que deixa em aberto a possibilidade de adesão de novos participantes à medida que as iniciativas operacionais avançam, prevê o intercâmbio contínuo de informações, o desenvolvimento de ferramentas de análise criminal e tecnologia investigativa, a criação de um banco de dados compartilhado e o estudo da criação de um órgão de investigação conjunto. Para a procuradora-geral da Colômbia, Luz Adriana Camargo Garzón, “trata-se de um guia sobre como coordenar nossas ações para que seja possível realizar uma ação conjunta contra o crime organizado, trocar informações de maneira adequada e nos comunicarmos rapidamente”.
O objetivo é ir além do confisco de drogas e aproveitar uma investigação para identificar toda a estrutura criminosa. Um contêiner pode levar a uma rede logística; esta, a empresas de fachada, contas bancárias e investimentos imobiliários; e os fluxos financeiros, por fim, aos indivíduos que ocupam os níveis superiores da organização.

Da fronteira geográfica à rede criminosa
Essa abordagem está fortalecendo a cooperação entre investigações nacionais, combinando informações, conhecimentos especializados e capacidades operacionais de diferentes países. Para os investigadores, isso significa poder utilizar a experiência de seus parceiros para rastrear uma estrutura além de seu próprio território e intervir nos pontos onde ela é mais vulnerável.
Um exemplo é a prisão, ocorrida na Colômbia em fevereiro, de Gustavo Durán Bautista, procurado pelo Brasil e acusado de liderar uma rede transnacional de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. A operação foi realizada pelas autoridades colombianas em coordenação com as brasileiras. Segundo os investigadores, a rede teria enviado cocaína da Colômbia para o Uruguai, Brasil, Chile, Bolívia e Argentina, utilizando alguns desses países como plataformas para remessas posteriores para a Europa, especialmente Espanha e Países Baixos. As autoridades colombianas também vincularam Bautista a um carregamento de 496 quilogramas de cocaína apreendido no Uruguai.
O caso ilustra a importância de integrar informações provenientes de diferentes jurisdições. Identidades, comunicações, rotas, empresas, contas e apreensões que podem parecer fatos isolados permitem, uma vez conectados, reconstruir a estrutura de uma organização e determinar onde concentrar as operações.
A troca de conhecimentos especializados é particularmente importante em territórios complexos como a Amazônia. Em janeiro, o Brasil e a Colômbia assinaram um protocolo para a troca de informações de inteligência entre a Polícia Federal e a Marinha da Colômbia, com o apoio do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), para fortalecer a cooperação contra o crime organizado ao longo dos rios transfronteiriços. A experiência de investigadores que conhecem os rios amazônicos, as rotas, as comunidades locais e os padrões de movimento das organizações criminosas pode complementar as capacidades dos países parceiros, permitindo identificar mais rapidamente movimentos, embarcações e operadores.
Rastrear o dinheiro para atingir a estrutura
A dimensão financeira é outra área em que a cooperação pode ter um impacto significativo. A apreensão de bens reduz a capacidade de uma organização de reconstruir sua estrutura, mesmo após a prisão de seus membros.
Um exemplo é a Operação Commodity, realizada pela Polícia Federal brasileira em julho contra uma rede transnacional acusada de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro na ordem de centenas de milhões de reais. Segundo os investigadores, o grupo tinha ramificações na América do Sul, Europa e Ásia e teria enviado cerca de 6,5 toneladas de cocaína para a Europa desde 2021, ocultando-a em contêineres, inclusive em sacos de café, cimento e argamassa. Paralelamente, teria utilizado empresas de fachada, cripto-doleiros — ou seja, cambistas ilegais que utilizam criptomoedas para transferir, trocar e lavar dinheiro à margem do sistema financeiro tradicional —, bens de luxo e imóveis para ocultar o patrimônio. As autoridades brasileiras determinaram a apreensão e o bloqueio de bens no valor aproximado de R$ 1,007 bilhão.
O caso mostra como uma investigação financeira pode ampliar uma investigação criminal. Uma empresa aparentemente legítima em um país pode estar ligada a uma conta em outro e a um imóvel ou a uma carteira de criptomoedas em um terceiro. Sem uma troca rápida desses dados, o dinheiro pode continuar circulando enquanto as autoridades aguardam os procedimentos necessários para obter informações do exterior.
A tecnologia torna essa dimensão cada vez mais relevante. Em agosto, a Polícia de Investigações do Chile reuniu agentes do Brasil, dos Estados Unidos, da Austrália, da Espanha, da Estônia e da Coreia do Sul para discutir novas ferramentas de análise e softwares forenses destinados a rastrear e apreender criptoativos utilizados por organizações criminosas.
“O método dos criptoativos tem sido adotado por inúmeras organizações para movimentar recursos e dificultar seu rastreamento”, declarou à EFE Johnny Fica, chefe da Prefeitura de Combate ao Crime Organizado do Centro da Polícia de Investigações do Chile (PDI).
Além disso, a operação Capitales Ocultos 2026, coordenada em agosto pela PDI no âmbito da AMERIPOL, com a participação de órgãos de diferentes países e de instituições financeiras e aduaneiras, demonstrou a eficácia das investigações patrimoniais conjuntas, contribuindo para desmantelar 50 estruturas criminosas e apreender milhões de reais em dinheiro.
A formação de uma rede regional de cooperação
Esses mecanismos permitem que os investigadores analisem as organizações a partir de diferentes jurisdições sem precisar necessariamente aguardar a conclusão de uma investigação nacional para compartilhar informações relevantes com um país vizinho. Um banco de dados regional, por exemplo, pode relacionar um nome a um pseudônimo, um número de telefone a uma empresa ou uma transação a um imóvel, fornecendo elementos que dificilmente surgiriam ao analisar cada caso isoladamente.
Essa tendência ficou particularmente clara em maio, quando a Argentina, a Bolívia, o Chile, o Equador e o Peru assinaram o Compromisso Regional de Santiago contra a Criminalidade Organizada Transnacional, ao qual posteriormente se juntaram o Paraguai e o Uruguai. Os países decidiram criar um grupo de trabalho técnico-operacional encarregado de elaborar um plano de ação comum com medidas concretas e resultados mensuráveis e verificáveis. Entre as áreas identificadas estão segurança, inteligência financeira e tributária, rastreabilidade, controle migratório e de fronteiras. O Compromisso de Santiago também prevê a apresentação da iniciativa à Organização dos Estados Americanos (OEA) para envolver outros países do continente.
A iniciativa insere-se em um marco continental mais amplo. Vários países da região também fazem parte da Coalizão das Américas contra os Cartéis, um mecanismo regional para fortalecer a cooperação contra o tráfico de drogas e as organizações criminosas na América Latina.
“A parceria entre os países é imprescindível, dado o contexto atual, onde os grupos criminosos são transfronteiriços e transnacionais e operam nas regiões de fronteira. Não é possível combater eficazmente um grupo desse tipo sem uma coordenação densa e sofisticada com os países vizinhos”, concluiu Paz.