Na América Latina, cerca de R$ 2 trilhões são lavados anualmente por meio de atividades como corrupção, evasão fiscal, tráfico de drogas, tráfico de pessoas e uso de empresas de fachada.
Embora a luta contra a lavagem de dinheiro tenha melhorado ao longo dos anos, os avanços não são uniformes na região. Em conjunto, os países ainda estão abaixo da média global, de acordo com o Índice de Basileia 2025, que mede o risco de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo em 177 países. Esse progresso desigual continua gerando vulnerabilidades operacionais que as redes criminosas exploram através das fronteiras.
Em segundo lugar nesta classificação está o Haiti, enquanto Costa Rica, Suriname, Barbados e Nicarágua apresentaram piora em relação aos anos anteriores. O caso da Nicarágua é emblemático: desde 2017, são apreendidas regularmente no país grandes somas de dinheiro ligadas ao tráfico de drogas, cujo destino final, no entanto, permanece desconhecido. Somente em 2020, o valor atingiu R$ 52,3 milhões. Esses desafios persistentes evidenciam as dificuldades em rastrear os fluxos financeiros e garantir a prestação de contas entre jurisdições.
As finanças descentralizadas
Na América Latina, onde o acesso ao sistema bancário continua desigual, as chamadas finanças descentralizadas têm tido um duplo efeito. Por um lado, ampliaram a inclusão financeira, permitindo que até mesmo populações carentes realizem transações financeiras. Por outro, representam um forte atrativo para o crime organizado. Esse modelo opera sem bancos nem intermediários tradicionais, permitindo transações diretas entre usuários por meio de tecnologias baseadas em registros digitais descentralizados, as chamadas blockchains.
Esse ecossistema virtual, baseado em criptomoedas, permite que o crime organizado movimente as receitas de suas atividades ilícitas em nível global de maneira mais rápida e com menores possibilidades de rastreamento. “Organizações criminosas internacionais, com o apoio de especialistas do setor, são agora capazes de combinar o anonimato ou pseudoanonimato das criptomoedas com os serviços oferecidos pelas finanças descentralizadas para ocultar a origem dos fundos ilegais e a identidade dos verdadeiros executores”, explica à Diálogo o especialista italiano em prevenção de lavagem de dinheiro e crimes financeiros Paolo Aprile, fundador da revista especializada Dirty Money.
Essa dinâmica também favorece uma convergência de interesses entre diferentes grupos, incluindo os terroristas, que cada vez mais recorrem aos mesmos canais financeiros. No Brasil, por exemplo, em 2025, a operação Hydra revelou como uma fintech do principal grupo criminoso do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizou carteiras digitais associadas a 15 criptomoedas posteriormente sancionadas por Israel por receberem fundos destinados a financiar o Hezbolá. Um dos usuários era Mohamad Khir Abdulmajid, atualmente procurado pela Interpol pelo planejamento de uma série de atentados terroristas no país sul-americano. De acordo com as investigações, Abdulmajid teria enviado R$ 408,4 milhões em criptomoedas para o Líbano utilizando uma carteira digital vinculada ao mesmo ecossistema financeiro.
O anonimato
O cerne da opacidade continua sendo a chamada estratificação, ou seja, a fragmentação dos fundos por meio de transferências rápidas entre carteiras digitais e diferentes plataformas, muitas vezes localizadas em jurisdições distintas. “Como essas plataformas frequentemente operam em nível transnacional e nem sempre cumprem integralmente as normas contra a lavagem de dinheiro, um serviço proibido em um Estado pode continuar operando em outro”, afirma Aprile.
Entre as ferramentas mais preocupantes estão os chamados cripto mixers (misturadores de criptomoedas). Segundo o especialista, “são ferramentas projetadas para a lavagem de dinheiro, pois misturam criptomoedas provenientes de múltiplos usuários, rompendo o vínculo entre remetente e destinatário, para depois redistribuir somas equivalentes a novos endereços, tornando assim as transações praticamente impossíveis de rastrear”.
Em 2025, no Chile, a operação Tren del Mar desmantelou uma rede ligada ao Tren de Aragua que havia lavado R$ 64,7 milhões por meio de criptomoedas transferidas para o exterior, ocultando sua origem. Casos como esse ilustram como as ferramentas digitais se integram cada vez mais às operações do crime organizado transnacional.
Dark web e inteligência artificial
Na dark web, as criptomoedas são frequentemente utilizadas para a compra de bens ilícitos. Entre as mais difundidas, destaca-se em particular o Monero, uma chamada moeda de privacidade (privacy coin), uma vez que garante um alto nível de anonimato: o remetente fica oculto graças às assinaturas em anel (ring signatures), que misturam a transação com as de outros usuários. O destinatário também permanece anônimo por meio do uso de endereços ocultos (stealth addresses), ou seja, endereços únicos e temporários gerados para cada pagamento, e até mesmo o valor da transação é criptografado.
Em fevereiro de 2026, a polícia brasileira desmantelou uma rede criminosa que comprava armas 3D na dark web utilizando criptomoedas. O líder era Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, um conhecido designer brasileiro de armas 3D, famoso em todo o mundo como Zé Carioca.
Além disso, na dark web estão surgindo cada vez mais ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, semelhantes ao ChatGPT. “Essas ferramentas permitem que os usuários façam solicitações sem muitas restrições, gerem documentos falsos, obtenham manuais para cometer crimes cibernéticos ou códigos para hackear servidores”, explica Aprile. Segundo o especialista, a IA na dark web também oferece guias operacionais para lavagem de dinheiro ilícito, sugerindo métodos para contornar controles e regulamentações vigentes em diferentes países.
Jogos online e sites de apostas
A fase final do processo de lavagem de dinheiro, ou seja, a conversão de criptomoedas em dinheiro, raramente é realizada de forma direta e geralmente passa por plataformas intermediárias. Os criminosos podem, por exemplo, adquirir os chamados bens não fungíveis (NFT), ou seja, objetos digitais únicos com um proprietário identificável, que depois podem ser revendidos até mesmo a pessoas de boa-fé, contribuindo para “limpar” a origem dos fundos.
Alternativamente, utilizam-se plataformas secundárias, como as de videogames online, um setor que passou por uma profunda transformação nos últimos anos: de sistemas baseados em desafios predefinidos para ecossistemas interativos entre usuários, onde é possível realizar compras personalizadas por meio de moedas virtuais para melhorar o desempenho no jogo.
“A evolução favoreceu a difusão de modelos ‘pagar para ganhar’ (pay-to-win) e a criação de mercados de comércio eletrônico não regulamentados para objetos virtuais, cujo valor é determinado pela interação entre oferta e demanda. Consequentemente, esses mercados podem ser utilizados para ocultar pagamentos relacionados ao tráfico de drogas ou à venda de armas, sob a aparência de trocas de bens virtuais”, alerta Aprile.
Os criminosos podem abrir várias contas utilizando identidades falsas, comprar sem levantar suspeitas e movimentar dinheiro por várias jurisdições, aproveitando a falta de controles regulatórios.
Além disso, muitos videogames modernos permitem comunicações por voz ou chat em tempo real. Segundo o especialista, elas podem ser usadas para organizar encontros criminosos difíceis de interpretar pelos investigadores, já que aparentemente são justificadas pelo contexto do jogo, especialmente se as próprias atividades do jogo também forem ilícitas.
Tanto as máfias italianas quanto as chinesas estão explorando as plataformas de jogos online e de apostas online para lavar dinheiro. No Brasil, por exemplo, de acordo com o Instituto Brasileiro de Jogo Legal, pelo menos 40% dos sites de apostas são ilegais. Muitas dessas operações estão ligadas a máfias chinesas gerenciadas na China.
As vulnerabilidades
Grande parte da América Latina carece de regulamentações bancárias suficientemente sólidas e de requisitos de conhecimento do cliente (Know Your Customer, KYC), essenciais para verificar a identidade dos usuários. Ao mesmo tempo, os esforços para regulamentar as criptomoedas ainda se encontram em seus estágios iniciais. Além disso, a supervisão dos provedores de serviços de ativos virtuais (VASP), ou seja, as entidades que convertem dinheiro em criptomoedas, continua limitada e desigual, gerando novos pontos de exposição.
Outro ponto fraco diz respeito às estruturas societárias das empresas latino-americanas. Um relatório recente do think tank Global Financial Integrity, com sede em Washington, aponta que mais de 72% dos países da América Latina e do Caribe possuem registros de beneficiários finais das empresas. No entanto, a eficácia desses registros costuma ser limitada por mecanismos de verificação fracos e deficiências em sua implementação.
Outro problema importante é a dificuldade em rastrear a origem dos fundos. “Indivíduos com grandes capitais utilizam múltiplos intermediários, o que dificulta a reconstrução dos fluxos, especialmente na ausência de troca de informações entre as instituições”, adverte Aprile.
Abordar essas vulnerabilidades, conclui o especialista, representa um passo fundamental para reforçar a eficácia dos sistemas de prevenção e combate à lavagem de dinheiro na América Latina. Para as autoridades, isso requer não apenas adaptação regulatória, mas também maior coordenação, troca de informações e capacidade técnica para rastrear fluxos financeiros através de ambientes digitais e jurisdições.


