À medida que o espaço se torna cada vez mais relevante para a segurança, a defesa, a resposta a desastres e o desenvolvimento tecnológico, líderes militares e representantes de nações parceiras de todo o hemisfério reuniram-se na sede do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) em Doral, Flórida, entre 28 e 30 de abril, para a Conferência Espacial das Américas 2026, organizada pelo SOUTHCOM em colaboração com o Comando Espacial dos EUA (SPACECOM).
A conferência reuniu altos líderes militares da área espacial e representantes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru e Uruguai. Representantes de alto escalão do Canadá, França e Alemanha também participaram, enquanto Costa Rica, Panamá, República Dominicana, Suriname e Guiana estiveram presentes como países observadores convidados. Pela primeira vez, a conferência também recebeu observadores de Angola, Quênia, Marrocos e Nigéria.
Ao longo dos três dias do evento, líderes militares, autoridades governamentais e especialistas do setor trocaram perspectivas sobre a crescente importância estratégica do domínio espacial e a necessidade de ampliar a cooperação regional para enfrentar desafios emergentes de segurança.

“A estratégia militar há muito reconhece a importância de controlar o terreno elevado”, disse o Almirante de Esquadra Francis L. Donovan, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, comandante do SOUTHCOM, durante seu discurso de abertura. “No século XXI, esse terreno elevado é o espaço. Devemos tomar a iniciativa para garantir a supremacia sobre nossos adversários neste domínio-chave.”
O Alte Esq Donovan também destacou preocupações relacionadas à influência da China e ao desenvolvimento de infraestrutura espacial em todo o Hemisfério Ocidental.
“A China continua suas atividades malignas por meio da Iniciativa Cinturão e Rota para projetar poder e ameaçar áreas estratégicas. O Hemisfério Ocidental abriga agora o maior conjunto de infraestrutura espacial construída pela China fora do território continental”, disse o Alte Esq Donovan.
O Marchal do Ar Stephen N. Whiting, da Força Espacial dos EUA, comandante do SPACECOM, enfatizou a importância da cooperação espacial para enfrentar ameaças regionais compartilhadas.
“Temos a responsabilidade moral de fornecer soluções baseadas no espaço para enfrentar ameaças terrestres que comprometem nosso modo de vida”, afirmou o Mar Ar Whiting durante a conferência.
Os palestrantes também discutiram como sistemas baseados em satélites, análises assistidas por IA e dados derivados do espaço estão apoiando cada vez mais os esforços das nações parceiras para detectar atividades de tráfico ilícito e identificar infraestruturas utilizadas por organizações criminosas transnacionais.
A integração multinacional e a interoperabilidade foram temas recorrentes ao longo da conferência, especialmente nas discussões voltadas para exercícios militares e cooperação regional.
“Uma das formas mais eficazes de fortalecer nossa força coletiva é por meio da integração multinacional em jogos de guerra e exercícios”, disse o Mar Ar Whiting. “Nosso exercício de parceria espacial, o Apollo Sentinel, envolve 28 nações, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Peru, além do Centro de Excelência Espacial da OTAN e diversos observadores.”
A conferência também serviu como plataforma para que as nações parceiras apresentassem seus próprios avanços e prioridades no domínio espacial.
“Isso permite que cada uma de nossas instituições e países continue promovendo e ampliando o desenvolvimento de uma força conjunta em todo o hemisfério”, disse o Coronel da Força Aérea Chilena Ignacio Baeza, oficial de ligação estrangeiro designado para a Forças Aéreas Sul dos EUA, durante seu discurso de abertura.
Liderança regional no domínio espacial
Nações parceiras de todo o Hemisfério Ocidental destacaram esforços para fortalecer capacidades nacionais e ampliar a cooperação no setor espacial.
“O Brasil, como um dos membros fundadores do Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior e signatário dos cinco principais tratados espaciais, entende o ambiente espacial como um recurso escasso”, disse o Brigadeiro Sandro Bernardon, da Força Aérea Brasileira, diretor do Centro de Operações Espaciais (COPE) do Comando de Operações Aeroespaciais, durante um painel sobre Centros de Excelência Espacial. “Tratamos o espaço quase como uma mercadoria. O uso e a preservação do domínio espacial podem ser conduzidos por meio da colaboração internacional e de parcerias entre países. Do nosso ponto de vista, o estabelecimento de centros de excelência espacial promoverá essa cooperação e ajudará a desenvolver capacidades específicas na região.”
A Coronel da Força Aeroespacial da Colômbia Eliana Mallarino, diretora de Capacidades Espaciais da Diretoria de Operações Espaciais, enfatizou a importância da educação e do desenvolvimento de longo prazo para as ambições espaciais do país.
“Acima de tudo, acreditamos que compreender o espaço é o caminho para cooperarmos de forma adequada […]. A Colômbia deseja estabelecer um centro espacial na Base Aérea Marco Fidel Suárez, onde está localizada a escola de formação de oficiais. Isso tem um duplo objetivo: desenvolver capacidades espaciais e, ao mesmo tempo, motivar as novas gerações […] porque temos uma responsabilidade ligada à segurança nacional”, afirmou a Cel Mallarino.
O Peru também destacou o desenvolvimento de seu recém-criado Comando Espacial e do Ciberespaço. “Esse novo domínio está alcançando todas as nações do mundo. Não estamos isolados dele, porque contamos com o PERUSAT-1, um dos satélites mais avançados da América Latina, em operação há 10 anos e voltado principalmente para pesquisa e desenvolvimento”, disse ao Diálogo o Brigadeiro Mariano Rodríguez, da Força Aérea do Peru, comandante do Comando Espacial e do Ciberespaço da Força Aérea do Peru. “No entanto, permanecíamos distantes das questões de segurança e defesa. Ao criar este comando espacial, combinado ao ciberespaço, estamos alcançando objetivos e desenvolvendo novas capacidades nessas áreas, especialmente para contribuir com a segurança regional e global.”
Os participantes da conferência também recomendaram a adoção de medidas concretas para estabelecer Centros Regionais de Excelência Espacial e expressaram apoio à adoção de um Quadro Operacional Espacial Comum padronizado por meio da ferramenta de Consciência de Domínio Aprimorada do SOUTHCOM, de acordo com a declaração conjunta da conferência.
Acordos de Artemis e expansão da cooperação
A conferência também destacou a crescente participação dos países latino-americanos nos Acordos de Artemis, iniciativa liderada pelos EUA que estabelece princípios para a exploração espacial pacífica, transparente e sustentável.
Desde a criação dos acordos, em 2020, países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai aderiram à iniciativa como parte de esforços mais amplos para expandir capacidades espaciais nacionais e fortalecer a cooperação internacional.
Uma semana após a conferência, o Paraguai aderiu oficialmente aos Acordos de Artemis durante uma cerimônia realizada em 7 de maio em Assunção, tornando-se o 67º país signatário do acordo. A agência espacial do Paraguai, criada em 2014, tem concentrado seus esforços no desenvolvimento de capacidades de observação da Terra por meio de projetos como o GuaraníSat-1 e o futuro satélite GuaraníSat-2, com lançamento previsto para outubro de 2026 a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia.
Kathleen Karika, assessora sênior do Escritório de Relações Internacionais e Interagências da NASA, destacou a crescente participação das nações latino-americanas nos Acordos de Artemis ao apresentar uma maquete da futura estação espacial lunar durante a conferência.
A crescente participação de países das Américas em iniciativas como os Acordos de Artemis refletiu um dos temas centrais da conferência: a expansão da cooperação regional e do desenvolvimento tecnológico no domínio espacial.
A conferência ressaltou como o espaço está se tornando um domínio cada vez mais estratégico para as Américas, no qual a cooperação, a interoperabilidade e o compartilhamento de capacidades tecnológicas e emergem como componentes-chave da segurança hemisférica.


