O panorama criminal do Equador continua evoluindo rapidamente em resposta à campanha de pressão militar impulsionada pelo governo de Daniel Noboa. Essa evolução é marcada pela diversificação e fragmentação das grandes organizações criminosas bem como pelo surgimento de um número crescente de grupos armados e gangues locais. A resposta do Estado e a adaptação das estruturas criminosas estão aumentando a instabilidade e alimentando a escalada da violência em um número cada vez maior de localidades em todo o país.
“A fragmentação dos grupos criminosos no Equador responde basicamente a conflitos de poder entre indivíduos que ocupavam posições intermediárias dentro dos grupos criminosos, mas também à ausência ou aos vazios de liderança, provocados pelo assassinato de seus líderes”, explicou à Diálogo Renato Rivera Rhon, pesquisador sênior da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), uma rede de especialistas sediada na Suíça que promove o diálogo global sobre o crime organizado.
Segundo o Projeto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados (ACLED), entre 2025 e o início de 2026 o número de grupos criminosos ativos no Equador ultrapassou 48, mais que o dobro em comparação com 2024. Somente na província costeira de Guayas, onde está localizado o porto de Guayaquil, foi registrada a presença de pelo menos 21 organizações criminosas, entre elas Los Chechenos, Los Silenciosos, Los Aviones e Los Purros.
Da mesma forma, o mais recente dos mais de 15 estados de exceção decretados pelo governo equatoriano entre 3 e 18 de maio em nove províncias reflete a continuidade da estratégia governamental de empregar importantes recursos militares e policiais para enfrentar a insegurança no país. Dados preliminares publicados pelo Ministério do Interior indicam que os homicídios caíram 14 por cento em comparação com os primeiros meses de 2025, embora 2026 já esteja a caminho de se tornar o segundo ano mais violento da história do Equador.
Paralelamente, grupos armados colombianos ativos nas zonas de fronteira também estão reagindo ao aumento das operações estatais nessas áreas. Entre eles estão os Comandos de la Frontera, dissidência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), os Comuneros del Sur, dissidentes do Exército de Libertação Nacional (ELN), e a Frente Oliver Sinisterra, que operam principalmente nas províncias amazônicas de Sucumbíos e Orellana.
Para as forças de segurança, esse cenário representa uma complexidade operacional crescente. A proliferação de grupos menores e mais móveis — muitas vezes sem uma estrutura hierárquica estável — dificulta a identificação de lideranças, o mapeamento de redes logísticas e o monitoramento de alianças criminosas. Além disso, a fragmentação acelera as disputas pelo controle das rotas do narcotráfico, das extorsões e das economias ilegais locais, aumentando o número de atores armados que precisam ser monitorados simultaneamente.
As causas da fragmentação
Segundo Rivera, a fragmentação das organizações criminosas se acelerou após a morte ou captura dos principais líderes do narcotráfico equatoriano. “A primeira remonta a 2020, com o assassinato do líder dos Los Choneros, Jorge Luis Zambrano González, conhecido como Rasquiña”, afirmou o analista.
Uma segunda fase foi marcada por uma série de acontecimentos de grande impacto, entre eles o assassinato, em dezembro de 2024, de Benjamín Camacho, conhecido como Ben 10, líder dos Los Chone Killers. Também influenciou esse processo a trajetória de William Joffre Alcívar Bautista, conhecido como Negro Willy, chefe dos Los Tiguerones, que se mudou para a Espanha em 2023, foi preso em 2024 e posteriormente libertado em 2026 em meio a complicações no processo de extradição. Da mesma forma, a extradição para os Estados Unidos, em julho de 2025, do líder dos Los Choneros, José Adolfo Macías Villamar, conhecido como Fito, alterou significativamente o equilíbrio criminal do país.
Os grupos equatorianos Los Lobos e Los Choneros — alinhados respectivamente ao Cartel Jalisco Nueva Generación e ao Cartel de Sinaloa — foram designados Organizações Terroristas Estrangeiras pelos Estados Unidos em setembro de 2025.
Segundo Rivera, “a eliminação desses chefes criminosos gerou divisões internas nas gangues e intensificou o conflito pelo acesso e controle das economias ilícitas, particularmente do tráfico de cocaína”. Em vez de enfraquecer definitivamente as organizações, a decapitação das lideranças produziu grupos mais fragmentados, flexíveis e imprevisíveis. Cada vazio de poder gera novas disputas pelo controle dos portos, do microtráfico urbano e das rotas internacionais da droga.
Los Lobos, disse Rivera, estão expandindo sua influência em bairros urbanos por meio de alianças com redes locais ou através de mecanismos de extorsão ligados ao microtráfico. “Nos casos de microtráfico, o que eles fazem é começar a cobrar, começam basicamente a usar o nome”, explicou o analista, em referência a pequenos grupos obrigados a pagar para continuar operando.
Diferentemente das organizações criminosas tradicionais, mais centralizadas e com uma hierarquia clara, as novas redes funcionam com células independentes e alianças temporárias, capazes de se adaptar rapidamente à pressão do Estado. Como resultado, cada captura ou eliminação de um líder corre o risco de gerar novos grupos e alimentar ciclos adicionais de violência.
A expansão da violência
Segundo a Polícia Nacional do Equador, a fragmentação das organizações criminosas se tornou um dos principais motores da crise de segurança que o país atravessa. A desarticulação parcial das grandes gangues não reduziu a capacidade operacional das redes criminosas; ao contrário, multiplicou o número de atores armados em disputa.
A consequência direta foi um aumento da violência. As novas facções buscam controlar territórios, mercados de microtráfico, rotas de drogas e redes de extorsão por meio do uso sistemático da força. Embora parte significativa da violência continue concentrada na costa — com epicentro em Guayaquil — em 2025 o fenômeno já havia se expandido para um número crescente de cantões em todo o país. Segundo dados oficiais, os homicídios em Quito aumentaram 22 por cento em 2026.
Essa expansão aumentou a sensação de insegurança entre a população, com comunidades cada vez mais expostas a extorsões, tiroteios e recrutamento forçado de jovens por gangues criminosas.
Segundo o ACLED, o Equador está entre os países da América Latina com maiores níveis de “exposição ao conflito”. Em Durán, cidade com uma das maiores taxas de homicídio do país, com cerca de 140 assassinatos por cada 100 mil habitantes, a fragmentação de grupos como os Los Chone Killers contribuiu para o aumento da violência, especialmente entre jovens recrutados como pistoleiros ou correios de drogas.
“Não estamos vendo apenas um aumento dos homicídios, mas também um aumento dos massacres, ou seja, homicídios múltiplos registrados nas áreas de disputa”, afirmou Rivera. Segundo o ACLED, em 2025 foram registrados mais de 300 eventos de homicídios múltiplos no país.
Cooperação internacional e novas estratégias
Em um contexto marcado pela fragmentação e pela diversificação das atividades ilícitas para setores como mineração ilegal e tráfico de pessoas, a cooperação internacional tornou-se mais importante do que nunca, uma vez que as organizações criminosas equatorianas mantêm vínculos com cartéis mexicanos, mercados de cocaína nos Estados Unidos e na Europa, e redes logísticas em todas as Américas.
A fragmentação e a diversificação também dificultam o trabalho investigativo. Os líderes podem coordenar operações do exterior, utilizar intermediários locais e mover rapidamente recursos financeiros e armas através de diferentes jurisdições. Esse cenário exige maior coordenação, troca de inteligência e capacidade de rastrear redes, mais do que indivíduos.
Nesse contexto, a abertura de um escritório permanente do FBI, a Polícia Federal americana, no Equador ganha importância estratégica, ao facilitar um maior intercâmbio de inteligência, investigações conjuntas e esforços para combater a lavagem de dinheiro e outros crimes ligados às redes criminosas transnacionais.
Segundo Rivera, é necessário atingir as redes econômicas, financeiras e logísticas que permitem que os grupos criminosos se regenerem. “Se você não eliminar ou atingir as finanças das organizações criminosas e sua ligação com a lavagem de dinheiro, é muito provável que não consiga afetar a estrutura como um todo.”
O desafio não consiste apenas em capturar lideranças criminosas e conter a violência imediata, mas também em gerar oportunidades econômicas reais para os jovens recrutados pelas organizações criminosas e impedir que essas estruturas continuem se regenerando por meio de redes financeiras, alianças transnacionais e novas formas de controle territorial. À medida que a fragmentação continua redefinindo o panorama criminal, são necessárias respostas cada vez mais abrangentes — combinando estratégia, aplicação da lei, interrupção financeira e cooperação internacional — para enfrentar a evolução da ameaça.



