Ações recentes das autoridades equatorianas contra cidadãos estrangeiros identificados como possíveis riscos à segurança refletem uma abordagem cada vez mais preventiva e proativa do país diante de ameaças transnacionais cada vez mais complexas. As autoridades intensificaram os esforços para enfrentar riscos relacionados ao crime organizado, ao financiamento ilícito e às redes internacionais que operam na região.
Em 25 de março de 2026, as autoridades equatorianas detiveram o cidadão sírio identificado como M.H., apontado pelo Ministério do Interior como suposto membro do Hezbollah. Segundo as autoridades, M.H. entrou ilegalmente no país e possuía antecedentes por tráfico de drogas desde 2005, o que motivou à investigação de possíveis vínculos com redes de financiamento ilícito.
No mesmo dia, o iraniano Sheij Mohammad, diretor do Centro Cultural Equatoriano-Iraniano, em Quito, foi deportado após um relatório de inteligência. A imprensa informou que as autoridades suspeitavam de ligações com atividades de captação de recursos e conexões com a Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã. As autoridades equatorianas apresentaram ambos os casos como medidas preventivas destinadas a mitigar possíveis riscos à segurança.
Esses casos ilustram o tipo de ameaças transnacionais que as autoridades buscam detectar o mais cedo possível. Diante de redes criminosas e ilícitas cada vez mais interconectadas, que operam além das fronteiras e por meio de canais tanto legais quanto ilegais, o Equador vem dando maior ênfase à prevenção, ao alerta precoce, ao intercâmbio de inteligência e às respostas coordenadas.
Nesse contexto, o governo equatoriano busca incorporar ativamente a população como componente estratégico da segurança nacional, por meio da linha telefônica 131. O canal confidencial permite denunciar atividades suspeitas e integra o programa de recompensas do Bloco de Segurança, iniciativa que prevê incentivos econômicos por informações verificáveis que contribuam para desmantelar redes criminosas e terroristas.
Para as autoridades, esse tipo de ameaça nem sempre se manifesta de forma visível em grande escala, mas costuma aparecer em sinais cotidianos como movimentos financeiros irregulares, operações logísticas incomuns ou mudanças abruptas nas dinâmicas comerciais. Identificar e denunciar esses indícios fortalece a capacidade de resposta antecipada do Estado.
De economias ilícitas a ameaças híbridas
Nos últimos anos, o ambiente de segurança no Equador evoluiu significativamente, impulsionado pela expansão do tráfico de drogas e sua integração com redes transnacionais. Segundo a InSight Crime, o país deixou de ser um território de trânsito para se tornar um ponto estratégico no envio de cocaína para os Estados Unidos e a Europa. Portos como Guayaquil e áreas costeiras como Manabí e Esmeraldas tornaram-se focos de atividade criminosa.
A diversificação das economias ilícitas acompanhou esse processo. O Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) documentou a expansão para atividades como lavagem de dinheiro, extorsão e mineração ilegal. Autoridades equatorianas e relatórios internacionais também indicaram que uma parcela significativa dos carregamentos de cocaína que deixam a região passa por portos equatorianos, embora as estimativas variem.
Nesse cenário, setores-chave da população ativa – transportadores, comerciantes, trabalhadores portuários e profissionais – desempenham um papel cada vez mais relevante na detecção precoce de anomalias, transformando as denúncias da população em um multiplicador da inteligência e dos esforços das autoridades.
Análises regionais de segurança, incluindo um relatório da Marinha Nacional da Colômbia, alertaram para uma possível convergência entre redes criminosas transnacionais e atores externos interessados em explorar economias ilícitas na América Latina. Segundo essas avaliações, a cooperação entre esses atores poderia facilitar atividades logísticas, financeiras e operacionais ilícitas na região.
O especialista peruano em segurança Jorge Serrano explicou à Diálogo que essas dinâmicas refletem uma convergência operacional: “Os grupos terroristas adotam táticas típicas do crime organizado para se financiar, enquanto as organizações criminosas recorrem a métodos terroristas para expandir seu controle”.
Capacidades operacionais e resposta
Diante desses desafios, em janeiro de 2026, o governo equatoriano anunciou um novo plano de segurança que prevê um investimento de R$902 milhões. em tecnologia de ponta como parte do fortalecimento do Plano Fénix, voltado para ampliar a capacidade de resposta do país ao crime organizado.
As medidas incluem helicópteros bimotores, um navio logístico multifuncional, um sistema de radar 3D, scanners, drones para controle de fronteiras e a modernização dos sistemas de inteligência. “Reforçaremos a mobilidade e a capacidade operacional no ar, no mar e em terra”, afirmou o ministro da Defesa, Gian Carlo Loffredo. Essas ferramentas buscam ampliar a capacidade das autoridades de identificar atividades suspeitas e agir com base nas informações em tempo real.
Cooperação internacional e corresponsabilidade
O fortalecimento dessas capacidades foi acompanhado por uma ampliação da cooperação internacional. No início de março, Equador e Estados Unidos iniciaram operações militares conjuntas para enfrentar organizações criminosas transnacionais e reforçar a segurança regional. Em 2025, os EUA destinaram R$ 67,5 milhões em assistência de segurança e R$ 30 milhões em tecnologia de drones.
Em 11 de março, o governo equatoriano e os Estados Unidos aprofundaram ainda mais a colaboração com o estabelecimento de um escritório do FBI, a Polícia Federal americana em Quito, fortalecendo a cooperação com as autoridades equatorianas em áreas como inteligência criminal e análise investigativa. Essa cooperação permite ao Equador ampliar o acesso a inteligência, tecnologia e apoio operacional adicional, reforçando sua capacidade de enfrentar ameaças que frequentemente ultrapassam suas fronteiras.
Serrano destacou que enfrentar esses desafios exige esforços coordenados. Segundo ele, o intercâmbio de inteligência, aliado às denúncias da população, permite uma resposta mais eficaz diante de ameaças complexas.
No plano normativo, o Equador também endureceu seu marco jurídico por meio de reformas que fortalecem os controles migratórios e agilizam os processos de deportação, com o objetivo de limitar o uso do território nacional por redes transnacionais.
Nesse modelo, a segurança deixa de ser vista como responsabilidade exclusiva do Estado e passa a ser entendida como um esforço compartilhado. Uma única ligação telefônica pode contribuir para prevenir crimes, proteger comunidades e enfraquecer redes criminosas. O Equador avança, assim, em direção a uma abordagem na qual a segurança depende não apenas das instituições estatais, mas também da cooperação com parceiros internacionais e da participação ativa da sociedade.



