Com um consumo global de areia fluvial e marinha estimado em cerca de 50 bilhões de toneladas por ano, organizações internacionais como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) vêm alertando há anos sobre o risco de esgotamento desse recurso e sobre as graves consequências ambientais associadas à sua redução progressiva. Nesse contexto, a China se consolida como o principal consumidor mundial, cujas crescentes necessidades de abastecimento têm alimentado fenômenos de extração e tráfico ilegal em partes da Ásia e da África, e geram cada vez preocupação crescente na América Latina.
“A areia é um dos mais importantes agregados da construção civil e sua extração é uma das atividades da mineração mais impactantes e não sustentáveis, principalmente quando não existe nenhum tipo de controle ou fiscalização”,explica ao Diálogo o professor da Academia Brasileira de Polícia, especialista em gestão de recursos hídricos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luís Fernando Ramadon, ex-chefe do Núcleo de Operações da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal e fundador do portal Ação contra Crimes Ambientais, Minerais e Tráfico de Animais Silvestres (ACCAMTAS).
O aumento do consumo é impulsionado principalmente pela demanda do setor de construção, que absorve cerca de 90 por cento da areia extraída, utilizada sobretudo na produção de cimento e asfalto. Essa pressão crescente sobre os recursos despertou o interesse de redes criminosas também na América Latina, onde o tráfico de areia frequentemente utiliza as mesmas rotas e infraestruturas da mineração ilegal e do tráfico de drogas.
Do Brasil à Colômbia, passando pelo Caribe, multiplicam-se os casos que refletem essa tendência. O mais emblemático continua sendo o ocorrido em 2008 na praia de Coral Spring, na costa norte da Jamaica, onde o equivalente a cerca de 500 caminhões de areia foi roubado em uma única noite.
O papel da China
A enorme demanda da China, que, em pleno boom urbanístico, entre 2011 e 2014, utilizou mais cimento do que os Estados Unidos em todo o século XX, tem sido associada a redes de extração ilícita em diferentes regiões do mundo, incluindo a Ásia e a África.

Especialistas alertam que dinâmicas semelhantes podem estar surgindo na América Latina. Embora atores chineses raramente apareçam diretamente envolvidos na extração ilegal, seu papel como intermediários, financiadores ou compradores finais foi documentado em diversos setores extrativos.
Como destacou a recente declaração de Vanda Felbab-Brown perante a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, o modus operandi chinês na América Latina segue padrões recorrentes, independentemente do recurso natural explorado. “Raramente os atores chineses aparecem na extração ilegal, embora ocasionalmente participem do recrutamento de trabalhadores”. A especialista também ressaltou o papel fundamental dos intermediários chineses, que podem ser grupos criminosos ou empresas formalmente legais e que “financiam a produção, fornecem equipamentos e insumos, obtêm documentos falsos, organizam o transporte e a exportação e atuam como compradores-chave”.
Esses padrões, observados em setores como o de ouro e madeira, tornam-se cada vez mais relevantes para a areia, especialmente em regiões onde a supervisão limitada e a expansão das atividades extrativas criam oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de abastecimento ilícitas. Na América Latina, a limitada capacidade a de controle e as redes comerciais opacas contribuem para gerar condições nas quais essas dinâmicas podem se enraizar.
Na Amazônia peruana, no departamento de Loreto e nos arredores de Iquitos, a extração ilegal de areia branca destruiu, em poucos anos, cerca de 260 hectares de florestas de varíllales, um ecossistema único no mundo caracterizado por crescer em solos de areia branca, pobres em nutrientes e muito ácidos. A perda é especialmente grave: essas florestas podem levar até um século para se regenerar e desempenham um papel essencial como filtros naturais da água da chuva, contribuindo para o abastecimento do rio Nanay, do qual dependem as comunidades locais.
Essas dinâmicas não são teóricas nem se limitam à América Latina. Em outras regiões, atores chineses já foram associados tanto a práticas prejudiciais de extração de areia quanto, em alguns casos, a atividades ilegais. Em Moçambique, uma empresa de propriedade chinesa foi acusada de causar graves danos ambientais por meio de operações de extração de areia em áreas costeiras, enquanto nas águas de Taiwan autoridades interceptaram repetidamente embarcações chinesas envolvidas na extração ilegal de areia. Em conjunto, esses casos ilustram como a demanda chinesa por materiais de construção pode se projetar além de suas fronteiras, operando, em algumas ocasiões, em zonas cinzentas legais e, em outros casos, avançando para atividades ilícitas.
Para os especialistas, esses exemplos oferecem um indicativo de como dinâmicas semelhantes já estão surgindo na América Latina, onde a alta demanda, as rotas de tráfico consolidadas e a fiscalização desigual criam condições comparáveis.
O caso do Brasil
Empresas chinesas costumam estabelecer operações em áreas onde convergem interesses econômicos e estratégicos. É o caso de Camaçari, no estado da Bahia, onde, em outubro de 2025, foi inaugurada a primeira fábrica automotiva do grupo BYD na América Latina, em uma região afetada pela extração ilegal de areia.
A zona ilustra como a atividade econômica legal e a extração ilícita podem coexistir dentro do mesmo espaço geográfico e regulatório. Em março de 2025, a operação da Polícia Federal “Piratas das Dunas III” desmantelou uma rede que extraía e comercializava areia ilegalmente nas dunas locais e nos arredores de Salvador, onde, em 2024, já havia sido identificada uma rota de exportação clandestina de quartzo verde para a China.
Segundo Ramadon, cerca de 68 por cento da areia consumida no Brasil é ilegal, com perdas estimadas em torno de R$ 28,78 bilhões. O setor é dominado por milícias, grupos paramilitares frequentemente formados por ex-policiais, que utilizam a areia extraída ilegalmente também para construir em territórios sob seu controle, especialmente no Rio de Janeiro.
“As milícias utilizam a extração de areia como fonte de recursos financeiros, assim como se apropriam do comércio de gás, internet e de transporte alternativo. Elas cobram taxas pelo uso ou pela prestação de ‘segurança’ nos locais de extração e de comércio”, afirma Ramadon.
Entre os casos mais conhecidos está o de Luis Antonio da Silva Braga, conhecido como Zinho, chefe da milícia Bonde do Zinho, que se entregou às autoridades em janeiro de 2023. O grupo havia se expandido para o município de Seropédica, a 75 quilômetros do Rio de Janeiro, onde o custo da areia extraída ilegalmente continua competitivo. “Em Seropédica, há atualmente cerca de 90 areais autorizados que vendem o metro cúbico de areia entre 65 e 90 reais, enquanto nos areais ilegais, sem licenças nem concessões, o preço gira em torno de 50 reais”, explica Ramadon.
O impacto ambiental e social
A extração de areia provoca graves danos ambientais, muitas vezes irreversíveis. “É responsável pela degradação de praias, rios e lagoas, pela alteração dos cursos d’água, pelo aumento do assoreamento, pela erosão do solo, pela destruição de áreas de preservaçao, da flora e da fauna, e pela poluição atmosférica com aumento de partículas”, explica Ramadon.

Na República Dominicana, a extração ilegal está comprometendo a segurança hídrica e os ecossistemas dos rios Nizao, Yuna e Yaque del Norte. O setor movimenta cerca de R$ 4,98 bilhões por ano, impulsionado pela evasão fiscal e pelos baixos custos que tornam o mercado ilegal mais competitivo.
No Panamá, em março, o Ministério do Comércio e Indústrias confirmou a extração de cerca de 500 mil metros cúbicos de areia do fundo do mar em Punta Chame para um aterro costeiro de 2,5 quilômetros vinculado a um projeto turístico sem autorização legal.
Na Colômbia, a extração ilegal também tem sido associada à corrupção e à violência. Em Córdoba, o jornalista Rafael Moreno — que investigava crimes ambientais e corrupção local, incluindo a extração ilegal de recursos — foi assassinado em 2022, o que destaca os riscos associados à denúncia dessas redes.
As medidas necessárias
Segundo especialistas, cerca de 80 por cento da areia comercializada globalmente tem origem desconhecida, favorecida por lacunas regulatórias e pela falta de fiscalização. Para Ramadon, a resposta deve ser abrangente: “É necessária inteligência administrativa para um controle rigoroso da extração legal, desde o local até a distribuição. E também ação policial, para garantir um combate sistemático à extração ilegal e a identificação dos responsáveis”. A isso se soma a necessidade de maior coordenação institucional, o mapeamento de áreas ilegais e o incentivo à pesquisa acadêmica.
Segundo o PNUMA, o consumo global de areia e agregados atingiu níveis tão elevados que, sem uma gestão sustentável, até 2050 a demanda poderá superar amplamente a disponibilidade de recursos, transformando a areia, hoje vista como inesgotável, em um recurso crítico.
Além da dimensão ambiental, as implicações são ainda mais amplas: infraestruturas, desenvolvimento urbano e crescimento econômico dependem da areia. Sua escassez progressiva ameaça alimentar conflitos, fortalecer economias ilícitas, intensificar a competição por recursos naturais ampliar as pressões sobre a governança em regiões vulneráveis.



