A expansão dos cartéis mexicanos na América Latina já não se limita ao tráfico de drogas. Cada vez mais, organizações como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) consolidam sua presença por meio de alianças, redes logísticas, corrupção e controle de infraestrutura estratégica, gerando desafios de segurança que vão muito além do narcotráfico.
Nesse cenário, o desafio não se se resume mais à interceptação de cargas ou ao desmantelamento de células isoladas. As autoridades enfrentam redes transnacionais adaptáveis, capazes de se integrar a estruturas criminosas locais, explorar infraestruturas comerciais e manter suas operações mesmo após a neutralização de lideranças importantes.
De rotas de tráfico a redes operacionais
O que começou como uma disputa por corredores de tráfico de drogas evoluiu para estruturas criminosas mais duradouras e descentralizadas. Na América Central e na América do Sul, o Cartel de Sinaloa e o CJNG ampliaram sua influência por meio de alianças operacionais com organizações locais, garantindo cadeias de abastecimento de cocaína, coordenando a logística e reduzindo sua exposição perante as autoridades.

De acordo com o veículo mexicano La Silla Rota, essas redes mantêm acordos operacionais com atores regionais, entre eles dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), facilitando o fluxo contínuo de cocaína para os mercados internacionais por meio de rotas projetadas para contornar os controles estatais.
Em pontos estratégicos da Colômbia e do Equador, a presença de emissários mexicanos aprofundou essa articulação. De acordo com a InSight Crime, os vínculos evoluíram de relações transacionais para mecanismos de colaboração operacional de longo prazo, dando origem a estruturas fragmentadas e altamente adaptáveis, capazes de exercer influência crescente sobre territórios e economias ilícitas.
O resultado é um panorama criminal no qual as organizações dependem cada vez mais de núcleos operacionais interconectados em vez de cadeias hierárquicas rígidas, um modelo que dificulta abordagens tradicionais centradas principalmente na neutralização de lideranças.
Diversificação criminal e pressão institucional
A influência dos cartéis mexicanos hoje se estende por grande parte da região, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru, segundo o Infobae. Além do tráfico de cocaína e fentanil, essas organizações diversificaram suas atividades para o tráfico de armas, tráfico de pessoas, lavagem de dinheiro e operações financeiras ilícitas, criando economias criminosas paralelas que fortalecem sua resiliência e alcance regional.
Yadira Gálvez, especialista em segurança e acadêmica da Universidade Nacional Autônoma do México, explicou ao Diálogo que essa expansão não depende apenas da violência, mas também da capacidade das organizações criminosas de penetrar em estruturas locais e manter condições operacionais de longo prazo. “Elas buscam garantir a continuidade de suas atividades por meio da inércia do Estado, assegurar margens de impunidade e até construir uma base social nas áreas onde operam, configurando esquemas de governança criminosa”.
A acadêmica também alertou para uma tendência igualmente preocupante. “Observa-se uma convergência entre economias legais e ilegais, com acesso a recursos do Estado por meio de contratos públicos, o que dificulta a detecção dessas redes”.
Em ambientes disputados como a Colômbia e o Equador, o impacto dessas alianças torna-se cada vez mais evidente. A Colômbia, em particular, ilustra como a cooperação entre cartéis mexicanos e grupos armados locais vem reconfigurando a dinâmica territorial. Segundo La Silla Rota, a articulação entre emissários ligados ao Cartel de Sinaloa e ao CJNG com as dissidências das FARC fortaleceu a logística do tráfico de drogas e reforçou a capacidade operacional desses grupos armados.
O Equador enfrenta um desafio semelhante. De acordo com o jornal mexicano El Financiero, representantes de ambos os cartéis contribuíram para o aumento da violência em centros urbanos como Guayaquil, onde grupos classificados como “terroristas”, entre eles Los Lobos e Los Choneros, utilizam os portos para embarcar cargas ilícitas para mercados internacionais.
O Panamá enfrenta uma pressão diferente, mas igualmente estratégica. Um relatório da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) aponta que o controle das rotas do Pacífico por parte dos cartéis mexicanos aumentou a importância do istmo como ponto-chave para o transbordo de cargas ilegais, exercendo maior pressão sobre a segurança portuária, os controles alfandegários e os sistemas de fronteira.
Infraestrutura crítica e desafio de adaptação
A sobreposição de economias ilícitas tornou-se um dos principais desafios de segurança para a região. De acordo com um relatório do Centro de Estudos Estratégicos do Exército do Peru (CEEEP), as organizações criminosas transnacionais compartilham cada vez mais logística, rotas e recursos operacionais, desafiando a capacidade do Estado de manter o controle sobre infraestrutura crítica e corredores estratégicos.
A Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) também alerta que essa convergência criminosa aumenta a pressão sobre a capacidade de resposta dos governos, particularmente na proteção da infraestrutura crítica. Enquanto isso, o compêndio Desafios à Segurança na América Latina, também do CEEEP, aponta que essas redes visam deliberadamente nós estratégicos dos sistemas comerciais e de transporte para garantir a continuidade de suas operações.
“As organizações já não operam apenas sob esquemas hierárquicos, mas por meio de centros operacionais ligados à logística, ao fornecimento de insumos e ao transporte, o que amplia sua capacidade de adaptação”, destacou Gálvez.
Ela ressaltou que essa evolução exige uma visão operacional mais ampla: “Não basta identificar lideranças; é necessário localizar os núcleos operacionais e financeiros que sustentam a rede, sem perder de vista a dimensão local onde a violência se materializa”.
Os portos, as alfândegas e os corredores logísticos continuam particularmente vulneráveis, já que o comércio legítimo e ilícito converge cada vez mais nos mesmos sistemas.
“O principal desafio é a escala. O volume de carga que circula por portos e fronteiras excede as capacidades de inspeção dos Estados, o que limita a vigilância efetiva de contêineres e mercadorias”, explicou Gálvez.
A especialista também alertou sobre a infiltração criminosa nas cadeias logísticas: “Existem mecanismos que facilitam o tráfico ilícito a partir do interior das operações por meio de corrupção, falsificação de documentos ou modificações nos contêineres, o que indica a penetração em áreas-chave do sistema”.
Segundo Gálvez, responder a essas vulnerabilidades requer não apenas maior capacidade de controle, mas também supervisão institucional e modernização tecnológica.
Ao mesmo tempo, as organizações criminosas continuam incorporando novas tecnologias para reduzir sua exposição às autoridades. Segundo o relatório da PUCP, essas redes recorrem cada vez mais a drones, sistemas de comunicação criptografados e mecanismos financeiros digitais, como criptomoedas, para coordenar operações, movimentar recursos e dificultar o rastreamento financeiro por parte das autoridades.
Cooperação regional e desafio operacional
Diante de estruturas criminosas cada vez mais adaptáveis, os governos da região têm buscado fortalecer mecanismos de cooperação, intercâmbio de inteligência e estratégias de resiliência destinadas a reduzir lacunas operacionais.
De acordo com o relatório da PUCP, os países aliados priorizam a harmonização jurídica, a coordenação de inteligência e a cooperação técnica para melhorar as respostas coletivas diante de ameaças híbridas e fortalecer a arquitetura regional de segurança. Ainda assim, as autoridades continuam enfrentando desafios importantes para acompanhar a flexibilidade e o alcance operacional dessas redes criminosas transnacionais.
“A inteligência criminal deve se concentrar na identificação de vínculos transnacionais, fluxos financeiros e facilitadores políticos. Sem essa abordagem multidimensional, as capacidades de contenção se mostram insuficientes”, indicou Gálvez.
A especialista destacou que a confiança entre instituições continua sendo essencial para uma coordenação regional eficaz. “Sem confiança entre agências e entre países, o intercâmbio de informações e a execução de operações conjuntas ficam limitados. Nesse cenário, a articulação com os Estados Unidos é fundamental para fortalecer as capacidades de inteligência, monitoramento financeiro e operações coordenadas contra redes criminosas transnacionais”.
À medida que as organizações criminosas evoluem para além das estruturas tradicionais do narcotráfico, as forças de segurança da região enfrentam um desafio operacional mais amplo: proteger infraestruturas estratégicas, identificar redes financeiras e logísticas e impedir que organizações criminosas transnacionais consolidem uma influência duradoura no hemisfério.



