A Guatemala foi o epicentro de um ambicioso esforço regional ao reunir líderes das forças de segurança, autoridades locais, especialistas e representantes da sociedade civil no Fórum Latino-Americano e do Caribe sobre Segurança Democrática e Governança Territorial. O evento, realizado em meados de fevereiro, marcou o lançamento do Grupo Latino-Americano e do Caribe em Segurança e Democracia (GLACSED), uma iniciativa estratégica cujo objetivo é articular respostas regionais eficazes diante do crescente poder do crime organizado.
A proposta busca consolidar políticas de segurança pública baseadas em evidências, colaboração multinível e fortalecimento institucional sustentável informou o Ministério do Interior da Guatemala. O fórum acontece em um momento em que as redes criminosas ampliam sua atuação além das fronteiras, desafiando as capacidades de resposta dos Estados e aumentando a pressão por uma ação regional coordenada.
“Buscamos reunir os melhores especialistas regionais e globais para enfrentar o crime organizado, a corrupção e a criminalidade. Isso, aliado ao trabalho das instituições democráticas, pode fazer uma diferença significativa”, afirmou Carlos Alvarado, ex-presidente da Costa Rica e presidente do GLACSED, durante a inauguração do evento. Alvarado destacou que o objetivo é fornecer ferramentas e práticas eficazes aqueles que enfrentam diariamente esses desafios nos territórios.
Cooperação técnica e planejamento estratégico
O Fórum conta com o apoio técnico da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), reconhecida por sua experiência em análise e assessoria sobre fenômenos criminais complexos. Esse apoio contribui para o desenvolvimento e a implementação de um plano de trabalho para o restante de 2026.
“Estamos construindo uma plataforma baseada em três pilares fundamentais: consenso político para respostas eficazes dentro do marco legal, conhecimento especializado com experiência comprovada e ações práticas no terreno”, enfatizou Mark Shaw, diretor executivo da GI-TOC e secretário técnico do GLACSED. Shaw ressaltou que nunca foi tão urgente responder ao crime organizado com soluções concretas e alinhadas ao estado de direito.
Nesse contexto, foram definidos três eixos centrais no Plano de Trabalho apresentado durante o evento: governança territorial e estratégias contra a extorsão; reformas nos sistemas judiciário e penitenciário para combater as redes criminosas com maior eficácia; e cooperação internacional para fortalecer capacidades e garantir acesso a financiamento. Essas áreas refletem alguns dos desafios mais persistentes na região, onde as redes criminosas continuam se aproveitando da fragilidade da coordenação institucional e das lacunas entre as respostas nacionais.
Coordenação regional e fortalecimento do Estado
Eddy Morales, criminologista e ex-diretor-geral do sistema penitenciário da Guatemala, destacou que essa aliança tem potencial para promover uma coordenação regional mais sólida e criar um espaço de cooperação multilateral no qual os países possam compartilhar informações de inteligência, experiências e estratégias contra o crime transnacional. “A resposta conjunta é vital para combater organizações como os cartéis de drogas, o tráfico de armas e o tráfico de pessoas”, afirmou Morales em declarações à Diálogo.
O crime organizado não apenas ameaça a segurança dos cidadãos, mas busca usurpar o controle legítimo do território em zonas vulneráveis. Por essa razão, o Fórum ressaltou a importância de recuperar a presença do Estado em regiões onde as redes ilícitas ganharam espaço. Isso inclui esforços para impedir que os sistemas penitenciários funcionem como centros de operações criminosas, um problema recorrente na região.
Além disso, Morales destacou que o fortalecimento institucional é essencial e depende em grande parte de capacitação técnica, modernização tecnológica e apoio financeiro direcionado às agências de segurança e justiça. “Sem reformas internas que garantam transparência, controle da corrupção e capacidade institucional, qualquer ajuda externa, embora eficaz no nível operacional, terá pouco impacto no nível estrutural”, alertou Morales.
Necessidade de integração regional
Embora a América Latina e o Caribe tenham registrado uma redução moderada nas taxas de homicídio nos últimos anos, os níveis de violência continuam elevados e desiguais na região. Países como o Equador registraram aumentos significativos, alcançando algumas das taxas de homicídio mais altas do hemisfério, enquanto outros continuam enfrentando dinâmicas criminosas profundamente enraizadas que dificultam avanços sustentáveis.
O Brigadeiro-General Juan Carlos Buitrago, ex-diretor da Polícia Fiscal e Aduaneira da Colômbia, destacou que a falta de integração regional é um dos maiores obstáculos na luta contra o crime organizado transnacional. “O crime não tem fronteiras; somos nós que as estabelecemos, muitas vezes dificultando a cooperação”, afirmou em entrevista ao Canal Antigua da Guatemala.
Além disso, especialistas como o Dr. Henry Rodríguez, especialista em Políticas Públicas, apontaram que os grupos criminosos passaram por uma transformação radical, adotando tecnologias avançadas para otimizar sua logística ilícita, controlar territórios e enfrentar as instituições estatais. Esse cenário obriga as forças de segurança a adotar estratégias multidimensionais que vão além da reação imediata e enfrentem as causas estruturais do problema.
No encerramento do fórum, Marco Antonio Villeda, ministro do Interior da Guatemala, destacou que uma resposta eficaz deve se concentrar em atingir as fontes de financiamento do crime organizado. Da mesma forma, ressaltou que o fortalecimento da segurança regional deve respeitar os princípios democráticos que legitimam a atuação do Estado, garantindo que as medidas implementadas não comprometam os direitos fundamentais dos cidadãos.
O GLACSED representa um esforço coordenado para avançar de diagnósticos compartilhados para uma ação regional mais estruturada contra o crime organizado na América Latina e no Caribe. Ao alinhar prioridades em torno do controle territorial, da reforma dos sistemas de justiça e da cooperação transfronteiriça, a iniciativa busca transformar o diálogo em medidas práticas que possam ser adaptadas em nível nacional.


