O crime organizado no Brasil passa por uma profunda transformação. O aumento do tráfico de drogas — evidenciado por um incremento nas apreensões em diferentes regiões do país, incluindo um aumento de 40 por cento no estado do Pará em 2025 —, juntamente com a crescente exploração do ecossistema financeiro brasileiro, incluisive de segmentos do setor fintech, está redefinindo as dinâmicas do crime organizado e desafiando as respostas do Estado. Esse cenário ressalta a necessidade de inovação contínua na aplicação da lei bem como de uma cooperação regional e internacional mais estreita.
Essa evolução também se reflete na própria estrutura das organizações criminosas. Por um lado, o poder dos dois principais grupos criminosos, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), se fortaleceu de forma significativa, com expansão para novos mercados, inclusive além das fronteiras brasileiras; por outro, abriram-se espaços em nível local que favoreceram a proliferação de novas facções — cerca de 88 —, entre elas Bonde dos Maluco, Os Mano, Comando Classe A e Comboio do Cão.
“A proliferação desses grupos decorre de uma combinação de fatores estruturais: a expansão dos mercados ilícitos, a fragmentação do controle criminal em nível local, fortalecimento do recrutamento nas prisões e capacidade limitada do Estado de manter uma presença efetiva nas periferias urbanas, nas zonas de fronteira e nos corredores logísticos”, explica ao Diálogo Rodrigo Duton, policial sênior no Rio de Janeiro e pesquisador em segurança pública.
Os efeitos dessa transformação já são visíveis no terreno. O deslocamento forçado dos moradores de um povoado no Ceará durante uma guerra entre facções locais, assim como a identificação no Rio de Janeiro de integrantes de grupos provenientes de outros estados do Brasil durante a operação Contenção, lançada em 28 de outubro de 2025 para conter o avanço do CV, ilustram como a instabilidade local está cada vez mais entrelaçada com redes criminosas mais amplas.

As características das novas organizações criminosas
A proliferação de facções, especialmente no Nordeste do país, tem sido acompanhada por uma crescente disputa pelo controle territorial e pelos mercados ilícitos, com consequente aumento dos homicídios e da instabilidade. Somente no estado da Bahia, o think tank com sede em Genebra, Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), registrou mais de 3.500 conflitos entre grupos criminosos entre maio de 2022 e abril de 2025.
Nesse contexto, alguns grupos surgem como dissidências de organizações maiores, como o Primeiro Comando Puro (PCP), originado de uma cisão do PCC. Outros, por sua vez, operam como ramificações locais, como o Terceiro Comando Puro (TCP) Cangaço, ativo no estado nordestino do Ceará como extensão do TCP do Rio de Janeiro.
“Existem acordos pragmáticos para reduzir custos e aumentar os lucros, mas há confrontos quando rotas, mercados de varejo, prisões, portos ou áreas de controle criminoso se tornam objeto de disputa. Esse modelo híbrido explica por que facções como PCC e CV continuam sendo centrais, mesmo coexistindo com grupos regionais”, diz Duton.
As consequências dessa fragmentação criminosa se refletem diretamente na população civil. No estado do Ceará, está aumentando rapidamente o número dos chamados “deslocados” pelo crime: famílias inteiras obrigadas a abandonar suas casas e fugir de suas comunidades devido a ameaças e confrontos entre facções. Emblemático é o caso de Uiraponga, no município de Morada Nova: de seus 2.000 habitantes, hoje restam apenas cinco famílias.
As novas geografias do PCC e do CV
O PCC é hoje o grupo criminoso brasileiro com maior projeção transnacional. Nascido nas prisões de São Paulo em 1993, conta com cerca de 40 mil membros, dos quais pelo menos 2 mil atuam em 28 países, inclusive na Ásia, graças também a alianças estratégicas com organizações como a máfia italiana ’Ndrangheta e as máfias balcânicas. “Sua estratégia de expansão se baseia menos em uma conquista militar aberta e mais em alianças lucrativas e na regulação dos mercados ilícitos”, explica Duton.
Segundo o especialista, enquanto o PCC apresenta uma vocação claramente transnacional e empresarial, o CV impulsiona um processo de internacionalização baseado em uma lógica mais territorial e relacional. Originário das prisões do Rio de Janeiro no final dos anos 70, o CV expandiu sua influência para zonas estratégicas da Amazônia e da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
“O CV está se transformando de uma facção fortemente ligada ao tráfico urbano armado em uma organização mais conectada aos corredores amazônicos, às alianças transfronteiriças e às economias convergentes, ou seja, drogas, extração ilegal, madeira, pesca predatória e controle territorial”, afirma Duton.
Graças à sua aliança com a organização criminosa Família do Norte, o CV garantiu o controle do rio Solimões na Amazônia, por onde transitam drogas adquiridas no Peru rumo aos mercados urbanos no Brasil. Em março de 2026, a polícia de Mato Grosso desmantelou um centro de treinamento dentro de uma área indígena onde jovens recrutas recebiam instrução em manuseio de armas, sobrevivência na selva e táticas operacionais,, no contexto da disputa com o PCC pelo controle de corredores de tráfico próximos à fronteira entre o Brasil e a Bolívia.
Novos paradigmas de combate
Esse novo cenário exige uma mudança de paradigma. “No âmbito nacional, é necessário reduzir o papel das prisões como incubadoras de facções, melhorar as condições prisionais, investir na segurança penitenciária e na reabilitação, e evitar políticas de encarceramento massivo que favorecem o recrutamento criminoso”, afirma Duton.
Ao mesmo tempo, a natureza cada vez mais transnacional do crime organizado exige uma cooperação internacional mais integrada. “A abordagem mais promissora combina o intercâmbio de inteligência, investigações conjuntas, o rastreamento de fluxos financeiros, a cooperação portuária e aduaneira, o intercâmbio de dados sobre armas, cargas e comunicações, além do apoio técnico aos países fronteiriços mais vulneráveis”, acrescenta Duton.
A coordenação entre parceiros regionais, com o apoio de organismos internacionais, ganha crescente relevância. Em fevereiro de 2026, o Brasil assinou um acordo com a Interpol para liderar uma força-tarefa regional contra o crime organizado, ampliando o acesso a bancos de dados globais e facilitando a cooperação em tempo real entre as forças de segurança latino-americanas.
A cooperação com os Estados Unidos também integra esse quadro. A parceria em segurança entre o Brasil e os Estados Unidos abrange múltiplas áreas, incluindo segurança marítima, intercâmbio de inteligência e esforços para desmantelar redes criminosas transnacionais. Isso inclui a participação em mecanismos de coordenação e compartilhamento de informações, como a Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-S), que apoia países parceiros no combate contra o tráfico ilícito. Paralelamente, Bolívia e Estados Unidos retomaram recentemente a cooperação operacional antidrogas após 17 anos de interrupção, um desenvolvimento relevante para o Brasil, dado o papel da Bolívia como importante país produtor e de trânsito de cocaína destinada ao Brasil e a outros mercados.
“O problema não é apenas o tráfico de drogas, mas a consolidação de atores criminosos capazes de conectar mercados ilícitos, cooptar funcionários, infiltrar-se na economia legal e exportar instabilidade regional”, conclui Duton.


