Minitro Mora, da Colômbia, sobre a Coalizão: “Nós a vemos como um catalisador da nossa estratégia”

As organizações criminosas transnacionais ampliaram suas atividades para além do narcotráfico, diversificando suas fontes de financiamento e incorporando novas tecnologias para desafiar as forças de segurança. Diante dessas ameaças, a Colômbia aposta em uma estratégia que combina o controle territorial, o fortalecimento das capacidades militares e policiais, o combate às finanças ilícitas e uma maior cooperação internacional.

Durante a terceira conferência da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), realizada em 27 de outubro, em Santo Domingo, República Dominicana, o Major-General (R) Jorge Eduardo Mora López, ministro da Defesa da Colômbia, abordou, em entrevista à Diálogo, as prioridades de segurança de seu país, a evolução das organizações criminosas e o papel da cooperação regional para combatê-las. O ministro também destacou as capacidades e experiências que a Colômbia oferece à Coalizão, a importância de sua parceria estratégica com os Estados Unidos e os esforços para enfrentar ameaças emergentes, como o uso de drones por grupos armados.

Diálogo: Senhor ministro, a Colômbia enfrenta um cenário complexo de segurança, marcado pela expansão e adaptação de grupos armados e organizações criminosas transnacionais. Quais são as principais prioridades do Ministério da Defesa para fortalecer as capacidades das Forças Militares e responder a essas ameaças?

Major-General (R) Jorge Eduardo Mora López, ministro da Defesa da Colômbia: Temos três prioridades. A primeira é recuperar e consolidar a autoridade do Estado em todo o território nacional. A segunda é romper as conexões transnacionais que sustentam essas organizações. A terceira é fortalecer as capacidades das nossas Forças Militares e da Polícia para alcançar os dois primeiros objetivos.

Partimos de uma compreensão clara da ameaça. Na Colômbia, operam oito grupos armados organizados e mais de uma centena de estruturas criminosas que formam alianças por conveniência para dividir os lucros do narcotráfico, da mineração ilegal, da extorsão e do sequestro. É um sistema que aprende e se adapta. E esse sistema não termina nas nossas fronteiras: a cocaína é enviada para mercados de outros continentes; armas e explosivos entram pelas nossas fronteiras; o ouro extraído ilegalmente e os recursos ilícitos são lavados em outras jurisdições; e as redes de tráfico de migrantes atravessam vários países.

Por isso, atuamos em duas frentes. Dentro do território nacional, realizamos campanhas militares e policiais nas regiões mais afetadas, como o sudoeste e a região do Pacífico, Catatumbo, o nordeste de Antioquia e o sul de Bolívar, e Putumayo, para proteger a população, conter a expansão criminosa e combater essas estruturas e suas economias ilícitas. Fora do território nacional, trabalhamos com os Estados Unidos, com a Coalizão das Américas contra os Cartéis e com nossos vizinhos para fechar rotas, interromper fluxos financeiros e eliminar refúgios para os criminosos.

Para sustentar esse esforço, estamos fortalecendo as capacidades de inteligência integrada, defesa contra drones, guerra eletrônica e defesa cibernética, mobilidade e responsabilização judicial. Tudo isso com um princípio inegociável: a legalidade e o respeito aos direitos humanos.

A segurança não se anuncia: ela se exerce e se mantém. Nossa prioridade é garantir que nenhuma comunidade fique submetida à extorsão, ao recrutamento forçado, ao deslocamento ou ao controle das economias criminosas. Recuperar o território significa proteger as pessoas, manter a presença institucional e atingir simultaneamente o comando, a logística e as finanças daqueles que as ameaçam.

Diálogo: O senhor enfrentou ameaças transnacionais à frente de uma unidade especializada, como fundador e comandante da Força de Desdobramento contra Ameaças Transnacionais (FUDAT). Como essas ameaças evoluíram e quais lições dessa experiência considera aplicáveis ao atual cenário de segurança da Colômbia?

Ministro Mora: As ameaças evoluíram em três aspectos. Passaram de estruturas hierárquicas, com um líder identificável, para redes flexíveis que formam alianças por conveniência. Deixaram de atuar em uma única atividade criminosa para explorar várias simultaneamente: narcotráfico, mineração ilegal, extorsão, tráfico de armas e de migrantes. E tornaram-se mais transnacionais e tecnologicamente sofisticadas: utilizam drones, comunicações criptografadas e facilitadores em outros países. Quando um dos pontos da rede sofre pressão, ela se adapta e procura outra rota.

Da FUDAT, tirei três lições que aplicamos hoje. Primeira: a inteligência e as operações devem estar integradas desde o início, com capacidade de mobilização rápida para onde a ameaça se deslocar. Segunda: a ação operacional deve ser acompanhada de medidas judiciais e do combate às finanças criminosas; caso contrário, a estrutura se reorganiza. Terceira: nenhum país consegue derrotar sozinho uma ameaça transnacional; a cooperação com os Estados Unidos e com nossos vizinhos foi determinante.

Essas lições fundamentam nossa estratégia nacional: compreender o adversário como um sistema que se adapta, atuar sobre suas capacidades críticas e não apenas sobre alvos isolados, integrar militares, policiais e promotores desde a fase de planejamento e avaliar e ajustar continuamente nossas ações.

A lição mais importante é que não basta deslocar os criminosos de um território para outro. Precisamos impedir que reconstruam suas redes de comando, financiamento e corrupção. As forças de segurança atuam com determinação, enquanto a Procuradoria-Geral da Nação, com plena autonomia, conduz as investigações que permitem transformar os resultados operacionais em resultados judiciais duradouros.

Diálogo: As organizações criminosas combinam cada vez mais o narcotráfico com a mineração ilegal, a extorsão, o tráfico de armas e outras atividades ilícitas. Qual é a prioridade atribuída ao combate às suas redes financeiras e como esse esforço se integra às operações militares e de inteligência para desarticular essas organizações de forma mais eficaz?

Ministro Mora: É uma prioridade absoluta. O dinheiro permite que essas organizações recrutem integrantes, adquiram armas, corrompam autoridades e se reorganizem. Se atingirmos apenas seus integrantes, sem combater suas finanças, a estrutura volta a crescer.

Essa integração ocorre em três etapas. Primeiro, no planejamento: em cada campanha, as Forças Militares, a Polícia e a Procuradoria-Geral da Nação planejam as ações em conjunto com a Unidade de Informação e Análise Financeira, a Sociedade de Ativos Especiais, a Direção de Impostos e Alfândegas Nacionais (DIAN) e a Migración Colombia. Segundo, na execução: a inteligência militar e policial identifica rotas, centros logísticos, operações de extração ilegal de ouro e redes de extorsão; as operações atingem esses pontos e coletam provas, enquanto a Procuradoria conduz os processos judiciais e busca a apreensão dos bens ilícitos. Terceiro, na cooperação internacional: como o dinheiro atravessa fronteiras, trabalhamos com nossos parceiros em equipes conjuntas para combater a lavagem de dinheiro, as fraudes comerciais e as atividades ilícitas envolvendo criptoativos, além de compartilhar provas e cooperar em processos de extradição.

Já temos resultados. A Campanha Urano, contra o furto de hidrocarbonetos, que reúne as forças de segurança e as autoridades judiciais, reduziu esse crime em 44 por cento em setembro e outubro. Também estamos desenvolvendo estratégias específicas contra a mineração ilegal, a extorsão e o narcotráfico. Medimos o sucesso pelos casos que resultam em decisões judiciais e pelos bens efetivamente atingidos, e não apenas pelas apreensões.

Nossa meta não é acumular apreensões, mas retirar dessas estruturas a capacidade de financiar a violência. Isso exige identificar beneficiários, rastrear o fluxo do dinheiro e as redes de corrupção e fornecer informações úteis às autoridades responsáveis pelas investigações criminais e pelo confisco de bens. Cada instituição atua dentro de suas competências. O que buscamos é um impacto duradouro.

Diálogo: Essa evolução também tem uma dimensão tecnológica. As organizações criminosas estão incorporando drones, comunicações criptografadas e outras tecnologias para ampliar suas capacidades operacionais. Quais capacidades o senhor considera mais urgentes para manter a superioridade operacional diante dessas ameaças?

Ministro Mora: A mais urgente é a defesa contra drones. Entre abril de 2024 e outubro de 2026, foram registrados 551 ataques com drones realizados por grupos armados contra nossas forças de segurança e a população civil, em 105 municípios de 17 departamentos, deixando 492 pessoas feridas e 48 mortas. O maior número de ataques ocorreu em 2026, com um total de 272. Estamos implantando sistemas antidrones nas áreas mais afetadas e trabalhando com os ministérios das Tecnologias da Informação e das Comunicações (TIC), da Ciência, do Interior e da Justiça para proteger o espaço aéreo, as comunidades e a infraestrutura crítica. Não vamos permitir que o narcoterrorismo obtenha vantagem.

A segunda prioridade é a guerra eletrônica, a defesa cibernética e a inteligência integrada, para responder às comunicações criptografadas e antecipar os movimentos dos criminosos dentro dos limites legais. A terceira é a mobilidade, para chegar rapidamente a áreas de difícil acesso.

Também queremos desenvolver essas capacidades no próprio país. Nossa indústria de defesa já responde às necessidades das Forças Militares. A Corporação de Alta Tecnologia para a Defesa (CODALTEC), entidade estatal vinculada ao Ministério da Defesa Nacional, forneceu proteção contra drones à Marinha, e estamos modernizando a Indústria Militar (INDUMIL), empresa estatal vinculada ao Ministério da Defesa Nacional. Cada programa, seja nacional ou desenvolvido por meio da cooperação internacional, deve deixar capacidades permanentes nas mãos dos colombianos.

Não aceitaremos que a tecnologia utilizada pelos criminosos determine as condições em que nossos soldados, policiais e comunidades devem atuar. Nossa resposta é antecipação, proteção e capacidade própria: detectar ameaças a tempo, proteger instalações e neutralizar ameaças dentro do marco jurídico aplicável. Cada investimento em tecnologia deve se traduzir em vidas protegidas e em forças de segurança mais bem preparadas.

Diálogo: A Colômbia ingressou na Coalizão das Américas contra os Cartéis com ampla experiência no combate ao narcotráfico, às economias ilícitas e aos grupos armados. Como a Coalizão pode apoiar as prioridades de segurança da Colômbia e, ao mesmo tempo, aproveitar as capacidades e experiências dos diferentes países participantes?

Ministro Mora: A Coalizão apoia nossas prioridades de maneira concreta: garante que a pressão exercida na Colômbia não perca seu efeito quando as organizações criminosas atravessam a fronteira. Nossa estratégia recupera a autoridade do Estado e desarticula as estruturas criminosas dentro do país; a Coalizão ajuda a impedir que essas organizações encontrem rotas de fuga, refúgios ou lugares para esconder seu dinheiro em outros países. Por isso, nós a vemos como um catalisador da nossa estratégia. Seus objetivos coincidem com os nossos: negar liberdade de movimento às redes criminosas, interromper suas operações e impedir que se reorganizem.

Ao mesmo tempo, ela nos permite aproveitar os pontos fortes de cada parceiro: capacidades de vigilância e inteligência sobre rotas marítimas e aéreas, controle dos corredores na América Central e no Caribe, trabalho das unidades de inteligência financeira e experiências de outros países no enfrentamento de ameaças que também afetam a Colômbia.

A Colômbia, por sua vez, oferece décadas de experiência em operações de combate ao narcotráfico, inteligência, interdição marítima e fluvial, processos judiciais e treinamento. Estamos dispostos a compartilhar essa experiência, dentro da lei e caso a caso, inclusive por meio da capacitação de pessoal dos países parceiros. Tudo isso se baseia em um princípio que defendemos: cada nação mantém o comando de suas forças e atua de acordo com sua própria Constituição e suas leis.

A Colômbia coopera a partir de uma posição de capacidade e soberania, não de subordinação. Compartilharemos experiências e coordenaremos esforços para fechar rotas e combater as finanças criminosas, mas as decisões sobre nossas operações, o emprego das forças de segurança e as informações que compartilhamos continuarão nas mãos das autoridades colombianas. Cooperação, sim; transferência de competências, não.

Diálogo: As redes criminosas aproveitam as fronteiras, os portos e outros corredores estratégicos para transportar drogas, armas e recursos ilícitos entre países. Como a Colômbia pode fortalecer o compartilhamento de inteligência e a coordenação operacional com seus parceiros para detectar e desarticular redes que atuam em diferentes jurisdições?

Ministro Mora: A Colômbia tem acesso a dois oceanos e faz fronteira com cinco países. Essa condição geográfica torna essencial a cooperação em segurança com nossos parceiros. Trabalhamos em três frentes.

Para detectar ameaças, precisamos de um compartilhamento de informações mais rápido e abrangente: um panorama comum de rotas, embarcações, contêineres e fluxos financeiros, para que as informações cheguem a tempo a quem precisa agir. Partimos de mecanismos que já funcionam, como as comissões binacionais de fronteira, o acordo de interdição marítima com os Estados Unidos e a campanha naval multinacional liderada pela Marinha da Colômbia.

Para desarticular as redes criminosas, a interdição deve resultar em processos judiciais. A Lei 2592 de 2026, aprovada pelo Congresso por iniciativa do governo, estabelece um procedimento especial de interdição marítima para a Marinha, que permite iniciar processos judiciais ainda no mar, com audiências virtuais concentradas. Sua entrada em vigor está prevista para janeiro de 2027. No combate ao tráfico de armas, avançamos na implementação do Registro Nacional de Identificação Balística, que permitirá rastrear armas de fogo legalmente registradas que acabam nas mãos de criminosos.

E, para que a cooperação funcione, o compartilhamento de informações deve seguir regras claras: cada país decide o que compartilha, as informações são utilizadas apenas para os fins autorizados e as ações nas fronteiras de cada país são decididas por esse país ou coordenadas bilateralmente. É assim que se constrói a confiança necessária para operações que envolvem diferentes jurisdições.

As fronteiras não podem se transformar em refúgios para o crime nem servir de desculpa para desrespeitar a soberania. Precisamos de informações oportunas e cooperação judicial eficaz, com regras claras sobre finalidade, sigilo, rastreabilidade e uso autorizado. A coordenação entre países multiplica os resultados; as operações em território colombiano continuam sujeitas às decisões e autorizações da Colômbia.

Diálogo: A Colômbia e os Estados Unidos são aliados estratégicos há décadas e construíram uma estreita relação nas áreas de defesa e segurança. Os Estados Unidos anunciaram recentemente a intenção de destinar US$ 1 bilhão a um novo pacote de assistência em segurança para a Colômbia. Quais capacidades e áreas de cooperação o senhor considera prioritárias para fortalecer a resposta conjunta às organizações criminosas transnacionais?

Ministro Mora: Agradecemos ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos por esse voto de confiança. Trata-se da renovação de uma parceria que salvou vidas nos dois países.

Temos cinco prioridades. Inteligência, vigilância e reconhecimento das rotas e corredores utilizados pelas organizações transnacionais. Mobilidade aérea e manutenção das frotas para chegar a regiões de difícil acesso. Capacidades navais e fluviais adequadas à nossa condição de país banhado por dois oceanos. Defesa contra drones e guerra eletrônica, com operadores colombianos capacitados. E cooperação judicial e financeira para atingir os recursos dessas organizações, onde quer que estejam. Queremos que essa cooperação se concentre nas regiões priorizadas pela nossa estratégia nacional, onde pode gerar maior impacto.

Temos um critério para cada programa: ele deve deixar capacidades permanentes à disposição da Colômbia. O modelo que funcionou durante décadas continua válido: os Estados Unidos fornecem inteligência, tecnologia, treinamento, assessoria e financiamento, enquanto as forças de segurança colombianas tomam as decisões e executam as operações. A Colômbia apoia uma cooperação mais profunda, com uma única condição: as decisões sobre o uso da força em nosso território continuam sendo exclusivamente colombianas.

Valorizamos todas as iniciativas de cooperação que contribuam de maneira comprovável para proteger os colombianos. Nossa prioridade não é o valor anunciado, mas os resultados: mobilidade, vigilância, defesa contra drones, treinamento e capacidades sustentáveis sob controle colombiano. A parceria deve gerar autonomia operacional, não dependência.

Diálogo: Em setembro, a Colômbia aderiu à declaração conjunta do Escudo das Américas, que prevê medidas coordenadas contra 24 organizações criminosas transnacionais, entre elas o Clã do Golfo, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Como o fato de vários países concentrarem seus esforços nas mesmas organizações pode reduzir as oportunidades que essas redes exploram para movimentar integrantes, recursos e operações entre diferentes jurisdições?

Ministro Mora: Essas organizações se aproveitam das diferenças entre os países: um líder que atravessa uma fronteira, uma conta aberta em outra jurisdição, um associado que lava dinheiro longe de onde o crime foi cometido. Quando vários países atuam contra as mesmas organizações, essas oportunidades diminuem.

Isso limita suas possibilidades de três maneiras. Na movimentação de recursos, porque seus ativos podem ser congelados em mais de um país. Na movimentação de integrantes, porque são impostas restrições de viagem e de vistos a seus membros e facilitadores, além de agilizar os processos de extradição. E na transferência de operações, porque as informações são compartilhadas e a pressão exercida pela Colômbia sobre o Clã do Golfo, o ELN ou os grupos dissidentes não desaparece quando eles tentam buscar refúgio ou financiamento fora do país.

Cada país atua de acordo com sua própria legislação. Na Colômbia, essas estruturas estão entre os grupos armados organizados enfrentados pela nossa estratégia nacional, dentro do marco jurídico aplicável, e as decisões sobre seu tratamento legal cabem ao Estado colombiano. A coordenação internacional amplia o impacto das ações que realizamos internamente.

A coordenação internacional pode fechar rotas, restringir o acesso a ativos e eliminar refúgios para as organizações criminosas, mas não substitui as decisões jurídicas da Colômbia. Nenhuma classificação estrangeira determina, por si só, se uma estrutura é um grupo armado organizado, quais regras regem o uso da força ou qual tratamento jurídico deve ser aplicado. Atuaremos com firmeza e regras claras: combater o crime exige eficácia e respeito à lei.

Diálogo: À medida que as organizações criminosas se tornam mais dispersas e interconectadas, como o Ministério trabalha para fortalecer a integração da inteligência e das operações entre as Forças Militares, a Polícia e outras instituições do Estado?

Ministro Mora: Essa integração está no centro da nossa estratégia e parte de uma ideia simples: nenhuma instituição, isoladamente, consegue derrotar uma rede criminosa que funciona como um sistema. Durante muito tempo, cada instituição atuou segundo sua própria lógica: as forças de segurança recuperavam o território, a Polícia tentava manter a presença e a resposta judicial chegava de forma fragmentada. O resultado era previsível: a organização criminosa voltava a ocupar o espaço deixado livre. Por isso, mudamos nossa forma de planejar. Em cada região prioritária, as Forças Militares, a Polícia e as autoridades judiciais elaboram um planejamento conjunto desde o início, com um objetivo comum e responsabilidades claramente definidas.

Cada instituição mantém sua missão e suas competências, mas todas compreendem o objetivo comum. Assim, as informações coletadas por uma unidade chegam a tempo a quem precisa agir, e cada operação é planejada para resultar em um processo judicial, o que garante a continuidade dos resultados. Por fim, uma estratégia que não é avaliada não pode ser aprimorada. Por isso, acompanhamos os avanços por meio de indicadores claros e revisamos periodicamente os resultados, para identificar o que está funcionando, o que precisa ser ajustado e onde o Estado ainda não conseguiu estabelecer uma presença adequada. Nosso objetivo não é apenas atingir as estruturas criminosas, mas consolidar o controle, para que as comunidades sintam a presença do Estado e os avanços conquistados não sejam perdidos.

Não se trata de reunir as instituições sob um único comando, mas de permitir que cada uma cumpra melhor sua missão. As forças de segurança protegem a população e realizam operações dentro da lei; a Procuradoria-Geral da Nação conduz as investigações criminais com autonomia; e os órgãos civis atuam dentro de suas respectivas competências. A coordenação funciona quando produz proteção real para as comunidades e resultados que resistem ao escrutínio judicial.

Diálogo: Olhando para o futuro, quais são, na sua avaliação, os principais desafios de segurança do hemisfério e quais capacidades a região precisará desenvolver para se antecipar a eles?

Ministro Mora: Vejo três desafios. A convergência das economias ilícitas, em que o narcotráfico se combina com a mineração ilegal, o tráfico de migrantes, a extorsão e a lavagem de dinheiro. A velocidade com que os criminosos adotam novas tecnologias: drones, criptografia, criptoativos e crimes cibernéticos. E sua capacidade de corromper instituições e se deslocar de um país para outro.

Para nos anteciparmos, a região precisa de interoperabilidade entre suas forças, consciência situacional marítima e aérea compartilhada, inteligência financeira integrada, marcos jurídicos que facilitem a cooperação judicial e uma indústria de defesa regional. Acima de tudo, precisa de confiança entre Estados que respeitem a soberania uns dos outros e compreendam que enfrentam uma ameaça comum.

O desafio não é apenas prender integrantes de organizações criminosas, mas impedir que suas redes se reconstruam, se desloquem para outro país ou adotem novas tecnologias. O sucesso regional deve ser medido por comunidades mais seguras, rotas ilícitas interrompidas, redes financeiras criminosas enfraquecidas e capacidades nacionais fortalecidas. Nenhum país consegue fazer isso sozinho, e nenhum deve abrir mão de sua soberania para cooperar.

O desafio é impedir que as organizações criminosas se reorganizem. Para isso, precisamos de controle territorial permanente, inteligência oportuna e dentro da lei, investigações financeiras, proteção da infraestrutura crítica e cooperação judicial. A segurança deve se traduzir em liberdade para as comunidades e em instituições que permaneçam presentes.

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