As organizações criminosas transnacionais atuam cada vez mais além das fronteiras, combinando o narcotráfico e outras economias ilícitas com redes financeiras, logísticas e de corrupção que lhes permitem ampliar seu alcance. Diante de uma ameaça que supera a capacidade de resposta de um único país, a cooperação regional tornou-se um componente central dos esforços de segurança no hemisfério.
Essa abordagem ganhou novo impulso em março de 2026, com a criação da Coalizão das Américas contra os Cartéis (ACCC), concebida para fortalecer a coordenação entre os países participantes no enfrentamento às organizações criminosas transnacionais. Desde então, os países participantes avançaram na coordenação operacional e no intercâmbio de informações para enfrentar ameaças que atravessam fronteiras.
Nesse contexto, o Diálogo entrevistou María Paula Romo, ex-ministra do Governo do Equador (2018-2020) e diretora de Educação Executiva do Centro Adam Smith da Universidade Internacional da Flórida (FIU), durante a Conferência Hemisférica de Segurança da FIU, realizada em Miami, de 5 a 8 de maio de 2026. A conversa ocorreu durante os primeiros estágios da ACCC, antes de vários dos avanços operacionais que a Coalizão desenvolveria posteriormente.
Romo analisou a evolução do crime organizado transnacional e as capacidades necessárias para enfrentá-lo, desde o fortalecimento institucional e os mecanismos de integridade até a inteligência financeira e uma cooperação regional contínua. Para Romo, diante de organizações criminosas que atuam em vários países, a resposta também deve ser organizada e transnacional.
Diálogo: Há décadas, a América Latina e o Caribe registram alguns dos níveis mais altos de violência do mundo, apesar dos aumentos contínuos nos gastos com segurança e das reformas institucionais. O que essa persistência revela sobre as limitações dos atuais modelos de segurança e onde a senhora identifica os caminhos mais promissores para avançar?
María Paula Romo, ex-ministra do Governo do Equador e diretora de Educação Executiva do Centro Adam Smith da Universidade Internacional da Flórida (FIU): Essa é provavelmente a pergunta que mais tira o sono de que estuda ou trabalha com questões de segurança, e também dos governos, sobretudo porque hoje esse tema se tornou a principal preocupação dos cidadãos. Durante décadas, a violência esteve entre as principais preocupações, mas as questões econômicas, o emprego e o desemprego sempre apareciam no topo da lista. Hoje, a segurança ocupa o primeiro lugar, não porque os outros indicadores tenham melhorado, mas porque a situação da segurança se deteriorou. Por que isso acontece na América Latina?
Vou citar uma estatística que ajuda a entender essa desproporção. Cerca de 9 por cento da população mundial vive na América Latina, mas 33 por cento dos homicídios ocorrem na região. Os crimes violentos são mais comuns e ameaçam mais a população do que em qualquer outro lugar. Além disso, outros fatores, como viver em áreas urbanas ou rurais ou o nível de renda, perdem relevância diante da violência, que é um fator comum em nossos países.
Há considerar muitas explicações possíveis. A impunidade, a falta de controle e a informalidade são fatores extremamente importantes. Poderíamos analisar indicadores específicos, mas, se eu tivesse de escolher um, apontaria para a fragilidade institucional que leva à impunidade.
Diálogo: O crime organizado ampliou sua influência, não apenas sobre o território, mas também sobre as economias locais e até mesmo sobre a governança. Que capacidades os Estados devem priorizar para recuperar essa autoridade e legitimidade sem comprometer os princípios da governança democrática?
Romo: O que você está descrevendo é extremamente importante e representa uma mudança que precisamos levar em consideração. Décadas atrás, as organizações criminosas lutavam contra o Estado e atacavam, em termos militares, autoridades da Justiça e forças de segurança: policiais, militares e juízes. Hoje com seu grande poder econômico e sua profunda penetração nas economias, vemos essas organizações criminosas cooptando o Estado, inclusive as forças de segurança, por meio do financiamento de campanhas e da infiltração de instituições, forças policiais, Forças Armadas e Judiciário. Isso faz parte da nossa realidade cotidiana.
Por isso, o cenário e a abordagem mudam. Já não se trata do Estado combatendo um ator externo, mas do Estado tentando impedir que esse ator externo penetre em suas próprias estruturas e identificá-lo, porque devemos partir do princípio de que isso já aconteceu. As evidências podem ser observadas em nossos países. Por isso, políticas de integridade, controle interno e mecanismos permanentes de avaliação e verificação devem ser uma prioridade. Acredito que esse seja um fator extremamente importante.
Diálogo: Pesquisas como o Latinobarómetro e o Barômetro das Américas continuam mostrando níveis muito baixos de confiança em instituições fundamentais, como a polícia e o sistema judiciário. Como essa falta de confiança afeta o combate ao crime organizado e quais abordagens têm se mostrado mais eficazes para reconstruir a legitimidade institucional?
Romo: Essa é outra questão fundamental quando falamos de segurança e, provavelmente, a mais complexa de enfrentar e a que levará mais tempo. Algumas ações contra o crime organizado, as estruturas e as economias criminosas, podem produzir resultados mais rapidamente. Mas conquistar a confiança da população, diante da distância que existe entre os cidadãos e as instituições de justiça criminal, assim como outras formas de Justiça, é muito mais difícil. A demora, a falta de ações oportunas e a incapacidade de oferecer respostas eficazes estão no centro da nossa crise institucional e da nossa crise de confiança democrática. A questão fundamental é como fazer com que a população receba respostas.
O que vou sugerir pode ter apenas um impacto marginal, mas acredito que o uso de novas tecnologias como, por exemplo, soluções de inteligência artificial para as questões mais básicas da administração da Justiça, poderia ajudar a reduzir a sobrecarga e oferecer soluções rápidas, sobretudo nos conflitos jurídicos mais comuns e de menor escala. Isso não está isento de controvérsias.
No fim das contas, trata-se de justificar a existência do Estado. Na teoria clássica, o Estado moderno tem sua razão de ser em duas funções: mediar conflitos entre particulares e garantir a segurança, por deter o monopólio legítimo da força. Essas duas funções, que explicam a própria razão de ser do Estado, são justamente as que hoje estão sendo questionadas na América Latina. Quando uma pessoa enfrenta um conflito, seja pessoal ou de maior escala, com uma organização criminosa, e o Estado é incapaz de garantir justiça, controle e ordem, as organizações criminosas ocupam esse espaço: financiam suas operações cotidianas por meio de pequenas extorsões, porque são elas que controlam o território. Por isso, esses desafios não devem ser vistos apenas como questões de segurança. Se não conseguirmos resolvê-los, o que está em jogo é a própria finalidade do Estado e a existência dos Estados como os conhecemos.
Diálogo: Além de fortalecer as capacidades nacionais, estamos enfrentando organizações criminosas que atuam em vários países e jurisdições. Na prática, o que torna a cooperação regional em segurança realmente eficaz e quais condições são necessárias para mantê-la ao longo do tempo?
Romo: Como você bem disse, o crime é organizado e transnacional, portanto a resposta também deve ser organizada e transnacional. Não faz sentido enfrentar uma indústria criminosa que opera cada vez mais de acordo com esse modelo com respostas isoladas, domésticas e polarizadas.
Na minha experiência, uma das soluções é que a cooperação seja especializada e permaneça no âmbito das forças de segurança, que são instituições hierárquicas e permanentes. A cooperação entre forças policiais, forças Armadas e instituições judiciais permite manter a continuidade para além dos processos políticos, das diferenças ideológicas e da polarização. Uma das chaves para que a cooperação seja eficaz é mantê-la no nível operacional e técnico, aprofundá-la e concentrar ali a maior parte dos esforços, porque esse é o nível que mantém a estabilidade em nossos países.
Diálogo: Nesse contexto, há outros atores internacionais importantes para a cooperação regional em segurança, como os Estados Unidos, para os quais contribuir para o fortalecimento da resiliência institucional na região é uma prioridade. Em que áreas a senhora considera que essa cooperação pode agregar maior valor diante de organizações criminosas que atuam além das fronteiras e dos sistemas financeiros?
Romo: Este é um momento particularmente interessante para analisar a segurança, porque os Estados Unidos colocaram o restante do hemisfério, e os países da América Latina, no centro de suas estratégias de segurança pela primeira vez, talvez, em décadas. Há muito tempo a América Latina não recebia tanta atenção por parte dos Estados Unidos nem era vista como uma questão relacionada à própria segurança norte-americana, à segurança hemisférica, mas também à própria segurança nacional dos Estados Unidos.
O ponto fundamental é que a cooperação dos Estados Unidos com os países da região se concentre em inteligência, especialmente inteligência financeira e no combate aos fluxos ilícitos de dinheiro. Os Estados Unidos têm um papel fundamental porque são um importante centro de negócios e transações e pela quantidade de informações às quais têm acesso, diferentemente dos nossos sistemas locais. Para mim, a verdadeira mudança ocorrerá quando conseguirmos estabelecer uma cooperação que não se limite a uma operação ou outra, mas que seja sustentada por inteligência criminal, inteligência financeira e esforços para rastrear e apreender de ativos criminosos.
Diálogo: Por último, considerando o cenário da segurança regional como um todo, quais elementos a senhora considera fundamentais para construir uma resposta mais integrada, eficiente e voltada para o futuro diante dessas ameaças transnacionais?
Romo: Cooperação, como já dissemos, fortalecimento institucional e políticas sérias de integridade. E também uma visão mais clara e realista sobre as questões de segurança. Justamente por ser uma preocupação tão generalizada, a segurança também se tornou objeto de campanhas publicitárias, e nenhum dos problemas de nossos países será resolvido com uma foto, um vídeo ou uma mensagem nas redes sociais. São problemas profundos que exigem respostas profundas, estruturadas, de médio e longo prazo, que não podem ser substituídas por estratégias de comunicação.