O crime organizado deixou de ser apenas um desafio à segurança pública para se tornar uma ameaça estratégica à governança democrática na América Latina e no Caribe. Impulsionadas por mercados ilícitos cada vez mais lucrativos, as organizações criminosas ampliaram sua influência sobre territórios, economias e instituições, corroendo a autoridade do Estado e enfraquecendo a capacidade de resposta das democracias.
É o que alerta Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica, em entrevista exclusiva ao Diálogo durante a Conferência de Segurança Hemisférica da Universidade Internacional da Flórida (FIU), realizada entre 5 e 8 de maio de 2026.
Daa expansão dos mercados ilícitos e da infiltração em instituições públicas ao surgimento de uma nova forma de “governança criminosa”, Chinchilla analisa como as organizações criminosas evoluíram até se tornarem uma das principais ameaças à estabilidade da região.
“Os criminosos estão sentados à mesa governando nossos países”, afirma a ex-presidente, em uma das advertências mais contundentes da conversa.
Ao longo da entrevista, Chinchilla examina os desafios que os Estados enfrentam para recuperar o controle de seus territórios, combater a impunidade, fortalecer o Estado de Direito e ampliar sua capacidade de resposta diante de redes criminosas que operam cada vez mais além das fronteiras nacionais.
Diálogo: Nos últimos anos, a América Latina tem vivenciado uma expansão significativa do crime organizado e um maior controle territorial por parte desses grupos. Com base em sua experiência como ex-chefe de Estado e conhecedora desses temas na região, como tem evoluído a relação entre governança, autoridade do Estado e resultados em matéria de segurança?
Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica: Eu começaria dizendo, talvez de forma categórica, mas respaldada pelos indicadores, que o crime organizado se tornou a principal ameaça à estabilidade institucional do nosso hemisfério, especialmente na América Latina e no Caribe.
Por que afirmo isso de maneira tão categórica? Em primeiro lugar, pelo crescimento dos mercados ilícitos. Hoje, a região conta com cerca de dez hubs de mercados ilícitos já consolidados, entre eles alguns dos mais lucrativos, como o da cocaína.
Isso permitiu a diversificação dessas operações e uma maior penetração nas economias lícitas por meio da lavagem de ativos provenientes de atividades ilícitas.
A isso se somam a crescente cooptação de autoridades e instituições públicas e a expansão do controle territorial de grupos criminosos, inclusive em áreas urbanas de muitos países da América Latina. Além disso, cada vez mais as taxas de homicídio são explicadas, em grande medida, pela atuação do crime organizado.
Por fim, diria que nenhum país escapa a esse fenômeno. Temos visto países historicamente estáveis, como Equador, Costa Rica e até mesmo o Chile, registrarem aumentos preocupantes nas taxas de homicídio.
Definitivamente, existe uma estreita inter-relação entre o funcionamento do crime organizado e os impactos observados nos planos territorial e institucional.
Diálogo: Em sua publicação mais recente, Segurança cidadã e convivência pacífica, a senhora introduz o conceito de governança criminal para descrever essas dinâmicas emergentes na região. Como devemos compreender esse fenômeno e o que ele revela sobre a presença, as capacidades e as limitações do Estado em diferentes territórios? E, a partir disso, quais abordagens a senhora considera mais eficazes para restabelecer a autoridade legítima do Estado?
Chinchilla: O fenômeno da governança criminal está associado, basicamente, ao maior controle que as organizações do crime organizado transnacional exercem sobre a economia, o território e as instituições, acompanhado de uma infiltração progressiva nas estruturas do poder público.
No fundo, o que está acontecendo, e que de alguma forma nos custa admitir, é que os criminosos estão sentados à mesa governando nossos países.
Na maioria dos casos, isso não ocorre necessariamente com o consentimento explícito das autoridades. Ainda assim, temos visto na América Latina tentativas de estabelecer negociações, muitas vezes pouco transparentes, por meio das quais atores políticos buscam obter determinados benefícios das organizações criminosas em troca de maior poder, controle territorial para atividades ilícitas ou mesmo funções que acabam substituindo a presença e a autoridade do Estado em determinados territórios.
Como enfrentar esse fenômeno tão delicado? Tenho de reconhecer que não é uma tarefa simples. Estamos diante de um novo cenário de problemas de segurança na região. Embora o crime organizado não seja uma novidade, há apenas uma ou duas décadas falávamos principalmente da predominância da criminalidade comum. Nesse contexto, era muito mais fácil articular estratégias de resposta.
Hoje, tudo passa necessariamente pelo fortalecimento das capacidades das forças policiais, das instituições judiciais e dos órgãos de perseguição penal. Também passa pela compreensão de que, assim como as organizações criminosas atuam de forma transnacional, a cooperação internacional precisa operar na mesma lógica.
E há um componente sem o qual não é possível derrotar o crime organizado: a inteligência financeira. Esses são elementos que indispensáveis se quisermos enfrentar essa ameaça com algum grau de sucesso.
Diálogo: Outra das transformações observadas nos últimos anos são os padrões de violência, que tendem a ser mais fragmentados, mais dinâmicos e mais localizados. Que fatores estão impulsionando essa evolução e como os Estados deveriam se adaptar para responder de maneira mais eficaz a essa nova realidade?
Chinchilla: É verdade. Parte do que, pelo menos em meu estudo, deixamos bem claro é que não podemos mais analisar o fenômeno dos homicídios na América Latina e no Caribe em termos agregados. As estatísticas regionais nos dizem cada vez menos, porque a tendência geral é, na verdade, de queda.
Mas quando focamos o olhar e observamos o que está ocorrendo no nível das sub-regiões e, mais ainda, no nível dos países, vemos dinâmicas muito distintas.
Por exemplo, a sub-região que historicamente foi considerada a mais perigosa do mundo em termos de taxas de homicídio por 100 mil habitantes, a América Central, já não o é. Trata-se de uma região onde os homicídios vêm diminuindo. No entanto, quando observamos o Caribe, constatamos que atualmente abriga três dos países com as taxas de homicídio mais altas do mundo.
Por isso é tão importante aprofundar a análise nas sub-regiões, nos países e até mesmo em determinadas zonas dentro deles. Assim, conseguimos também indicar que as áreas mais perigosas da região, ou aquelas que estão se tornando mais perigosas, são as zonas de fronteira, especialmente onde convergem vários países, como ocorre na Amazônia, bem como certas áreas costeiras.
O que isso nos indica é a necessidade de segmentar melhor as informações com as quais trabalhamos e adaptar as respostas de políticas públicas às realidades locais.
Mantendo, é claro, o panorama geral, pois, insisto, trata-se de um fenômeno transnacional, mas entendendo que sua manifestação varia de um território para outro. A resposta, portanto, deve combinar estratégias de cooperação transnacional com políticas ajustadas às necessidades específicas de cada contexto local.
Diálogo: Outro dos desafios centrais que temos observado nos últimos anos é a confiança pública na polícia e nas instituições de justiça. Na sua análise, quais são os principais fatores que influenciam essas percepções e como os governos podem fortalecer suas capacidades de segurança sem enfraquecer, e até mesmo reforçando, a legitimidade institucional a longo prazo?
Chinchilla: Esse talvez seja um dos maiores desafios que temos. No início, quando você me perguntou quais deveriam ser os elementos de uma estratégia, eu apontei que não podemos falar em combater a criminalidade, seja ela comum ou organizada, sem instituições sólidas, robustas, profissionais e transparentes que façam parte do Estado de Direito. Refiro-me, fundamentalmente, aos juízes, aos promotores e às forças policiais.
E, infelizmente, esses são os componentes que, historicamente, têm sido os mais fracos das democracias latino-americanas. Como consequência dessas fraquezas, a percepção da população também tem tendido a punir essas instituições.
Os poderes judiciais apresentam, em geral, uma percepção muito baixa entre a população latino-americana, devido ao fato de arrastarem o grande problema da impunidade. A América Latina, em quase todos os indicadores globais, registra taxas muito altas de impunidade; ou seja, cometem-se crimes que nunca são punidos. Nesse contexto, compreende-se a frustração da cidadania.
Qual é o desafio diante disso? Que, em muitos casos, infelizmente, devido ao curto-prazismo que caracteriza os governos e as políticas públicas na América Latina, recorre-se com frequência a receitas de “mão de ferro” que, em vez de fortalecer as autoridades judiciais, acabam por enfraquecê-las.
E assim, talvez consigamos resultados de curto prazo, mas, a médio prazo, não resolvemos o problema. Por isso, continuo insistindo na necessidade de apostar fortemente na profissionalização da administração da justiça em nossos países.
Diálogo: A coordenação entre as próprias instituições do Estado é um componente essencial para garantir resultados efetivos. Com base na sua experiência, em que pontos esses mecanismos de coordenação costumam falhar e quais você considera que são as lacunas mais urgentes que os governos deveriam sanar?
Chinchilla: Existem diferentes modelos na América Latina de organização do poder judiciário, da localização institucional das promotorias ou das procuradorias-gerais. Também existem diferentes modelos de organização das forças policiais.
Há países com sistemas federais e múltiplas polícias locais, como no caso do México, e outros com polícias centralizadas, como no caso da Colômbia. Portanto, é muito difícil dar uma receita muito específica, porque é necessário respeitar a organização institucional de cada país.
Mas, no fundo, não há dúvida de que existem lacunas de gestão entre o que faz a polícia, o que faz o Ministério Público ou a Procuradoria e o que fazem os juízes. Muitas vezes, por não haver uma filosofia comum nem uma integração de esforços, por meio de forças-tarefa, as provas obtidas pela polícia não conseguem se materializar em uma decisão judicial.
E é aí que vemos que muitas das notícias em nossos países são aquelas em que a polícia diz: “Eu o prendi e o juiz o soltou”. Essas são situações que podem ser resolvidas; não devemos encarar isso com passividade, pois já tivemos exemplos.
Digo isso por experiência própria. Em uma crise de segurança que enfrentei e que foi bem-sucedida em termos de política pública, a primeira coisa que fiz foi reunir policiais, promotores e juízes e propor a eles: “Vamos seguir com uma única filosofia, com treinamento comum e com forças-tarefa”.
Assim, em vez de irmos à imprensa reclamar uns dos outros, nos sentamos para ver como melhorar a articulação dos esforços. Essa é uma tarefa fundamental se quisermos melhorar a eficiência.
Diálogo: Se ampliarmos o olhar para além do âmbito nacional, como está sendo enfrentado esse desafio de coordenação entre os países da região? E quão eficazes são hoje os mecanismos de cooperação regional, especialmente no que diz respeito ao intercâmbio de inteligência e à coordenação judicial?
Chinchilla: Quando analisamos alguns estudos sobre a resiliência institucional dos países no combate ao crime organizado, é interessante notar que, no caso da nossa região, são valorizados os esforços realizados em matéria de instrumentos de cooperação que conseguimos elaborar e aprovar.
No entanto, uma das advertências é que, embora contemos com um bom marco normativo e tenhamos avançado em múltiplos acordos de cooperação, na prática existe uma lacuna significativa na execução.
Então, voltamos um pouco à mesma questão: estamos realmente fazendo o necessário do ponto de vista, por exemplo, da cooperação financeira? As autoridades financeiras estão monitorando, relatando e colaborando efetivamente na troca de informações para evitar a lavagem de dinheiro?
As polícias estão compartilhando informações relevantes sobre os movimentos transfronteiriços? Os juízes estão articulando a cooperação judicial para obter condenações?
É aí que precisamos trabalhar mais. A boa notícia é que os instrumentos existem e o que precisamos é impulsionar ações que permitam reunir juízes, promotores e policiais de diferentes países.
Diálogo: E nesse mesmo contexto de cooperação, que papel deveriam desempenhar os parceiros internacionais, incluindo os Estados Unidos, no apoio aos esforços da região para fortalecer a governança democrática e a segurança?
Chinchilla: Os Estados Unidos compreenderam, há muitas décadas, que esta era uma questão de segurança nacional para o seu país. Por isso, há já cerca de quatro décadas vêm sendo desenvolvidos mecanismos de cooperação, como modalidades de patrulhamento conjunto, intercâmbio de informações e a aprovação de leis de extradição, entre outras medidas. Não poderia dizer que, pelo menos no caso dos Estados Unidos, essa tarefa não tenha sido assumida.
O mesmo vem ocorrendo com vários países da Europa em alguns esquemas de patrulhamento conjunto. Por exemplo, no Caribe e em parte do Atlântico, vemos como participam países como a Holanda, a Grã-Bretanha e outros. Portanto, já há um caminho percorrido.
No entanto, os fatos mostram que isso não foi suficiente, porque o crime organizado continua crescendo, os mercados internacionais continuam consumindo drogas e aí temos uma lacuna nas políticas de prevenção do consumo que ainda não foi preenchida.
Além disso, o negócio continua gerando níveis de lucratividade muito altos. Portanto, também temos uma tarefa pendente do ponto de vista dos lucros do crime organizado.
Diálogo: E já para encerrar e olhando para o futuro, quais você considera que deveriam ser as principais prioridades da América Latina para fortalecer a governança democrática e construir uma resposta mais resiliente diante do crime organizado?
Chinchilla: As questões de segurança, criminalidade e violência são, em essência, fenômenos de natureza multicausal. Por isso, a primeira coisa que eu diria é a necessidade de elaborar respostas integrais, capazes não apenas de atuar sobre os fatores de risco por meio de políticas de prevenção nos planos econômico e social, mas também de melhorar a eficácia da ação policial em matéria de controle e de fortalecer a função do Poder Judiciário na sanção e na punição.
As respostas que se concentram exclusivamente em uma única dimensão, em geral, não se sustentam no tempo.
Ora, se me perguntassem qual seria a política mais urgente, mesmo reconhecendo a necessidade de uma resposta integral, eu diria que, para a América Latina hoje, é fundamental enfrentar os níveis de impunidade por meio de um investimento muito mais eficaz na consolidação de aparelhos judiciais que, em coordenação com as polícias, sejam eficazes, profissionais e transparentes.



