Infraestruturas estratégicas e responsabilidade: o Panamá reavalia os megaprojetos chineses

A explosão e o incêndio ocorridos em abril sob a Ponte das Américas, que causaram a morte de uma pessoa, deixaram outras duas feridas e forçaram o fechamento temporário de uma das principais conexões rodoviárias do Panamá, destacaram a importância de se contar com infraestruturas estratégicas resilientes e com rotas alternativas capazes de garantir a mobilidade e a continuidade logística durante uma emergência.

O incidente reacendeu, além disso, o debate sobre os atrasos na construção da Quarta Ponte sobre o Canal do Panamá. Projetada para aliviar o congestionamento nas pontes das Américas e Centenário, a obra deveria fortalecer a capacidade de conexão entre as duas margens do Canal. No entanto, a falta de conclusão do projeto estásobrecarregando as conexões existentes e ampliando os riscos de acidentes e interrupções.

“A Quarta Ponte foi anunciada há nove anos e deveria ser entregue em 2023. Hoje, ela acumula um custo adicional de mais de R$ 9,37 bilhões”, denunciou o deputado panamenho Jhonathan Vega, que classificou a explosão de abril como “mais uma prova da fragilidade de todo o sistema enquanto essa obra continua sem ser concluída”.

Foto de arquivo. O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, inspeciona as obras da Quarta Ponte sobre o Canal do Panamá, em 18 de dezembro de 2025. (Foto: Ministério da Presidência da República do Panamá)

Adjudicado em 2018 ao consórcio formado pela China Communications Construction Company (CCCC) e pela China Harbour Engineering Company (CHEC), o projeto tornou-se um dos casos mais visíveis do crescente escrutínio que vários governos latino-americanos vem aplicando aos investimentos chineses em infraestrutura estratégica,  uma vez que grandes obras promovidas por empresas estatais chinesas  têm registrado aumentos de custos, atrasos nos cronogramas e controvérsias sobre a qualidade de sua execução. Diante desses problemas, os governos da região estão revisando inúmeros projetos estratégicos ligados a Pequim, renegociando-os, congelando-os ou até mesmo cancelando-os completamente.

No Panamá, o debate vai muito além dos aspectos técnicos. A Quarta Ponte tornou-se um exemplo da reavaliação mais ampla que o país está realizando sobre os investimentos chineses em setores estratégicos. “Os interesses chineses no Panamá estão relacionados à manutenção de um certo grau de controle sobre as cadeias globais de abastecimento, nas quais o Canal do Panamá representa claramente um elemento de enorme importância”, explicou à Diálogo Guillermo Holzmann, analista político da Universidade de Valparaíso, no Chile.

Após a decisão do Panamá de romper relações diplomáticas com Taiwan e estabelecer relações com Pequim em 2017, os investimentos chineses no país cresceram rapidamente. No entanto, os atrasos, os custos excedentes e as dúvidas sobre a transparência de alguns projetos têm alimentado um ceticismo crescente. Os especialistas alertam para o perigo dos chamados “capitais corrosivos”: investimentos que, além dos riscos econômicos, podem aumentar a influência política e o controle de Pequim sobre ativos estratégicos como portos, redes de energia e infraestruturas logísticas.

A Quarta Ponte

A Quarta Ponte sobre o Canal do Panamá tornou-se um dos casos mais emblemáticos do debate sobre os investimentos chineses na América Latina. A obra, confiada ao Consórcio Panamá Quarta Ponte (CPCP), formado por empresas estatais chinesas e localizada junto a uma das rotas comerciais mais estratégicas do mundo, é hoje marcada por atrasos, revisões técnicas, modificações contratuais e custos crescentes. Em abril, a ministra do Trabalho do Panamá, Jackeline Muñoz, anunciou sanções após a detecção de irregularidades nas condições de trabalho e em questões migratórias.

No entanto, os principais desafios continuam sendo o cronograma e os custos. De acordo com o Ministério de Obras Públicas do Panamá, o projeto acumula cerca de cinco anos de atraso e, neste ano, atingiu apenas 37 por cento de avanço. Já em 2020, o governo havia aplicado sanções ao consórcio por atrasos nas fases de projeto, enquanto os governos subsequentes se viram obrigados a revisar partes significativas do contrato.

Os custos também aumentaram consideravelmente. Dos R$ 7,23 bilhões previstos inicialmente, o valor total da obra ultrapassou os R$ 13,23 bilhões. Segundo as autoridades panamenhas, parte desses aumentos deveu-se à necessidade de corrigir deficiências detectadas no projeto original. O ministro de Obras Públicas, José Luis Andrade, explicou que os estudos de tráfego realizados pelo atual governo mostraram que o projeto inicial teria gerado congestionamento assim que entrasse em operação.

“Um investimento dessa magnitude não pode ser entregue com um engarrafamento”, afirmou Andrade.

Para muitos analistas, essas dinâmicas não representam apenas um problema econômico, mas também podem aumentar a dependência dos governos em relação a projetos difíceis de renegociar ou interromper, inclusive devido à pressão diplomática chinesa. “Essa pressão pode retardar projetos, suspendê-los ou alterar suas condições para influenciar as decisões dos governos”, afirmou Holzmann.

Somam-se às dificuldades operacionais o perfil das empresas envolvidas. Em 2020, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos incluiu a China Communications Construction Company (CCCC) na lista de empresas consideradas ligadas ao Exército de Libertação Popular da China. Essa designação alimentou preocupações sobre o possível uso de grandes projetos de infraestrutura para perseguir objetivos estratégicos que vão além dos puramente comerciais. No caso do Panamá, essas preocupações assumem especial relevância, uma vez que a Quarta Ponte faz parte do ecossistema logístico do Canal, por onde transita aproximadamente 5 por cento do comércio marítimo mundial.

Uma tendência regional

O governo panamenho revisou diversos projetos vinculados a empresas chinesas, refletindo uma mudança de postura em relação a investimentos que inicialmente foram apresentados como uma oportunidade para impulsionar o desenvolvimento de infraestrutura estratégica. A revisão ocorre em um momento em que o Panamá busca reforçar a supervisão da infraestrutura crítica, diante da importância estratégica de seus portos, de suas redes logísticas e do Canal do Panamá.

Em janeiro, as autoridades revogaram, por descumprimento contratual, a concessão do porto de contêineres de Colón concedida às empresas chinesas Shanghai Gorgeous InvestmentDevelopment e Landbridge Group. Da mesma forma, o projeto energético “Gas to Power Panamá”, desenvolvido pela Sinolam Smarter Energy com um investimento anunciado de R$ 4,58 bilhões, também enfrentou atrasos e incertezas quanto à sua execução. Isso tem atraído atenção internacional porque os portos e a infraestrutura logística do Panamá, juntamente com o Canal do Panamá, são fundamentais para o comércio global, as cadeias de suprimento regionais e os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.

A reavaliação do papel dos investimentos chineses reflete uma tendência cada vez mais visível na América Latina, onde os governos revisam projetos de infraestrutura diante das crescentes preocupações com a transparência, a dependência estratégica, a segurança econômica e a resiliência da infraestrutura crítica. Na Bolívia, as controvérsias em torno do projeto rodoviário El Sillar, construído pela empresa estatal chinesa Sinohydro, incluíram denúncias de falhas de construção, descumprimento contratual e disputas entre as autoridades e a empreiteira. No Equador, em julho, a Corporación Eléctrica del Ecuador (CELEC) declarou nula uma licitação de R$ 239,23 milhões para infraestrutura de transmissão de energia elétrica que estava prestes a ser adjudicada a um consórcio formado pela China Railway First e pela Xian Electric Engineering, alegando razões de interesse público, transparência e proteção dos recursos públicos.

“Os países latino-americanos estão aprendendo a reagir, buscando preservar sua soberania e proteger seus interesses nacionais”, observa Holzmann. No entanto, ele acrescenta que “muitos países da região ainda não possuem uma definição clara e consolidada de seus interesses nacionais, que muitas vezes se confundem com necessidades conjunturais relacionadas à previdência social ou ao crescimento econômico”.

Casos recentes no Panamá, na Bolívia e no Equador mostram que o debate já não se limita à atração de investimento estrangeiro. Esses governos avaliam cada vez mais como os investimentos em infraestrutura afetam a segurança econômica, a segurança nacional, a resiliência das cadeias de suprimento e sua capacidade de proteger ativos críticos durante períodos de competição geopolítica. À medida que a infraestrutura crítica assume um papel cada vez mais importante para a segurança econômica, a segurança nacional, a resiliência das cadeias de suprimento e o funcionamento do Estado, os governos da região também avaliam como esses projetos podem afetar a resiliência dos ativos estratégicos, a transparência institucional e sua capacidade de tomar decisões de forma soberana.

A proteção da infraestrutura crítica vai além da construção de novas obras. Implica também avaliar quem as desenvolve, sob quais condições são executadas, qual o grau de supervisão exercido pelo Estado e como podem afetar a continuidade operacional de serviços e corredores estratégicos durante uma crise ou emergência. Os governos da América Latina buscam equilibrar a necessidade de investimento estrangeiro com uma maior atenção à transparência, à resiliência e à proteção de longo prazo dos ativos estratégicos.

Gostou deste artigo?

Artigos salvos

Os artigos salvos ficam armazenados apenas neste navegador. Limpar os dados de navegação os remove.