A rede criminosa do Pacífico: como o tráfico de drogas explora a infraestrutura pesqueira do Equador

A convergência entre os cartéis mexicanos e as organizações criminosas equatorianas passou de um sistema de alianças territoriais para uma rede logística transnacional, mais flexível e distribuída. Se, no passado, os cartéis mexicanos recorriam a grupos locais para transportar a cocaína da fronteira colombiana até os portos equatorianos, hoje a cooperação se desenvolve cada vez mais ao longo do corredor marítimo do Pacífico Oriental (EPAC): os grupos equatorianos fornecem infraestrutura, embarcações e tripulações, enquanto os cartéis mexicanos garantem o recebimento das cargas e seu posterior transporte.

“Essa rota permite transportar grandes volumes por longas distâncias sem depender de um único trecho nem de um único operador”, explica ao Diálogo Nicolás Zevallos Trigoso, diretor de Assuntos Públicos do Instituto de Criminologia do Peru. Essa flexibilidade é favorecida pela infiltração no setor pesqueiro equatoriano que, segundo o especialista, oferece aos grupos criminosos cobertura logística e permite distribuir os riscos, “evitando que a queda de um comprometa toda a cadeia”.

As sanções anunciadas em 20 de agosto pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos mostram essa dinâmica. Segundo o Tesouro, oito cidadãos equatorianos, 10 embarcações e sete empresas equatorianas, principalmente do setor pesqueiro, estavam envolvidos em uma rede que transportava clandestinamente milhares de quilos de cocaína por mês da América do Sul para o México por meio do corredor do EPAC.

Equipe de abordagem do navio da Guarda Costeira dos EUA Hamilton durante a interceptação de duas embarcações velozes perto das Ilhas Galápagos, no Equador, em 26 de junho de 2025. A operação permitiu apreender mais de 2.030 kg de cocaína e reflete os esforços conjuntos contra o tráfico marítimo de drogas no Pacífico Oriental. (Foto: Guarda Costeira dos EUA)

No centro da rede estão operadores ligados a Los Choneros e Los Lobos, duas das organizações criminosas mais violentas do Equador, designadas pelos Estados Unidos em setembro de 2025 como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT), e ligadas aos cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG). Segundo o Tesouro, a partir da costa do Equador, a rede utilizava frotas pesqueiras para fornecer combustível, alimentos e assistência no mar a embarcações velozes, conhecidas como go-fast vessels (GFV), com destino ao México. Algumas dessas embarcações também detectavam e monitoravam a presença de unidades das forças de segurança, enquanto pelo menos uma era utilizada para transportar cocaína.

A ação do OFAC acrescenta uma dimensão financeira à pressão operacional contra essas redes. A abordagem não se limita a seus líderes, mas busca afetar simultaneamente os nós que permitem seu funcionamento — operadores, empresas, embarcações e outros facilitadores — e complementar as operações de interdição marítima e a troca de inteligência.

A operação faz parte de um esforço interinstitucional coordenado contra o tráfico de drogas, que reúne a Força-Tarefa de Segurança Nacional de Tampa, a Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-Sul), a Administração Federal Antidrogas dos EUA (DEA), a Guarda Nacional da Flórida, o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), o Escritório de Inteligência Naval e a Guarda Costeira dos EUA. Esses esforços foram reforçados em agosto de 2025 com o lançamento da Operação Pacific Viper, que mobilizou navios de patrulha, aeronaves e equipes táticas no Pacífico Oriental e que, até junho de 2026, havia permitido a apreensão de mais 112 toneladas de cocaína. Em dezembro de 2025, uma operação coordenada entre o Equador e os Estados Unidos permitiu, além disso, apreender em alto mar 4,6 toneladas de drogas.

A pesca utilizada como infraestrutura do tráfico de drogas

A rede identificada pelo OFAC é um exemplo paradigmático de uma dinâmica já consolidada: a integração de atividades criminosas na economia legal para transformar suas infraestruturas, recursos e capacidades em ativos logísticos do tráfico de drogas. Nesse modelo, a pesca, segundo Zevallos, “não constitui um mero disfarce, mas uma infraestrutura operacional” que permite às redes criminosas reduzir custos, riscos e exposição. “Uma frota legal fornece aquilo que o tráfico marítimo de drogas não pode produzir sem levantar suspeitas — partidas, matrículas, rotas autorizadas, cais, cadeia de frio”.

A estrutura é compartimentada em vários níveis, com funções distintas, mas interconectadas. No topo operacional estão os coordenadores dos fluxos, que conectam as organizações criminosas à rede de transporte e gerenciam seus movimentos em grande escala. Segundo o Tesouro, nessa rede, Julio Javier Mero Franco atuava para Los Choneros e coordenava “o transporte de aproximadamente 30 a 40 toneladas de cocaína por mês do Equador para a América Central e o México”, enquanto Milton Edixon Martínez Mendoza estava ligado a Los Lobos e Los Choneros e coordenava o transporte de milhares de quilogramas de cocaína por meio das GFV.

O segundo nível corresponde à infraestrutura logística que possibilita o transporte da droga. Nesse caso, segundo o Tesouro, essa infraestrutura era fornecida por empresas pesqueiras como a Arcasdenoe S.A., de propriedade de Alfonso Mero Mero e de seus filhos, Roberth Alfonso Mero Arcentales e Edwar Alexis Mero Arcentales. Segundo o OFAC, a frota da empresa estava envolvida no tráfico de milhares de quilos de cocaína da América do Sul para o México e, graças também ao acesso a “combustível subsidiado pelo governo”, fornecia às GFV “abastecimento de combustível, alimentos e serviços médicos”, além de serviços de detecção e monitoramento das embarcações das forças de segurança. O Tesouro também destaca que Edwar Mero Arcentales estava diretamente envolvido no tráfico de drogas em coordenação com Los Choneros.

O terceiro nível corresponde à capacidade da rede de diversificar suas atividades. Jimmy Leonidas Alarcón Holguín, um dos indivíduos sancionados, era proprietário de ou controlava cinco empresas dedicadas à pesca e outra dedicada ao comércio de materiais de construção. Segundo Zevallos, uma presença distribuída por vários setores pode ampliar a capacidade das organizações criminosas de ocultar e lavar os lucros ilícitos.

Ao atacar simultaneamente esses diferentes componentes, as sanções buscam dificultar não apenas a movimentação de recursos financeiros, mas também o acesso das organizações criminosas às empresas, embarcações e serviços que sustentam suas operações.

As frotas-fantasma

A exploração criminosa do setor pesqueiro vai além da rede identificada pelo OFAC. Autoridades e investigações equatorianas também documentaram o uso de embarcações registradas de forma fraudulenta ou clonadas, conhecidas localmente como barcos-fantasma, que podem facilitar atividades ilícitas e o acesso irregular a recursos destinados a apoiar a pesca, como o combustível subsidiado.

Uma das formas mais sofisticadas dessa manipulação é a clonagem. “A clonagem nos mostra que o crime organizado já não precisa construir uma infraestrutura paralela: basta falsificar a identidade administrativa da infraestrutura legítima que já existe”, diz Zevallos. “A vantagem é dupla: a embarcação opera sob a cobertura documental de um barco real e, quando é desmascarada, a responsabilidade penal se dilui entre duas identidades registradas.”

Um dos casos mais emblemáticos é o do Rosa Isabel, apreendido em outubro de 2025 junto com o Siempre Nelly perto das Ilhas Galápagos, graças à troca de informações entre as autoridades equatorianas e norte-americanas, após a descoberta no mar de oito pacotes contendo armas. As verificações revelaram uma série de irregularidades. A autorização do Rosa Isabel havia expirado, o comandante não constava no registro e sete tripulantes estavam a bordo sem autorização. A embarcação auxiliar El Rebelde também foi identificada como clonada. O Siempre Nelly, por sua vez, transportava cerca de 9.000 litros de combustível não declarados.

Investigações jornalísticas destacaram que o combustível subsidiado representa um ativo estratégico para a rede criminosa: um recurso público destinado à pesca pode ser desviado para redes ilícitas a fim de sustentar suas operações marítimas. A clonagem pode facilitar esse esquema, permitindo que uma embarcação utilize a identidade e a documentação de um barco de pesca legítimo para operar com aparência de legalidade e acessar recursos destinados ao setor.

Governança criminosa

A infiltração no setor pesqueiro não se limita ao aproveitamento de seus recursos e infraestrutura: ela também permite que as organizações criminosas ampliem seu controle sobre quem trabalha no setor e sobre as comunidades costeiras das quais dependem. Esse domínio territorial lhes garante não apenas recursos e mão de obra, mas também acesso a informações e a uma rede de apoio indispensável para as operações de tráfico de drogas no mar.

As chamadas vacunas, ou seja, extorsões impostas periodicamente aos pescadores, são um dos principais instrumentos desse controle. Segundo Primicias, pescadores de San Lorenzo, em Manabí, afirmaram pagar aproximadamente R$ 721 por mês por embarcação, o que representaria cerca de R$ 865.200 por ano. A Federação de Organizações de Pescadores do Equador estima, além disso, que quase 60.000 pescadores artesanais de Manabí estejam, de alguma forma, expostos à criminalidade. A extorsão torna-se, assim, uma ferramenta de controle da atividade econômica e da mobilidade: determina quem pode trabalhar, onde pode navegar e quais rotas pode percorrer.

A pressão criminosa sobre as comunidades pesqueiras também facilita o recrutamento de pessoas com conhecimentos indispensáveis para o tráfico marítimo de drogas. Pescadores e tripulantes conhecem as rotas, as condições do mar e o funcionamento das embarcações — habilidades que as organizações criminosas podem explorar para transportar cargas e manter suas redes logísticas.

Essa dinâmica já ultrapassa as fronteiras equatorianas. “Grupos criminosos equatorianos extorquem pescadores artesanais peruanos na fronteira norte, em coordenação com gangues locais, enquanto insumos e equipamentos apreendidos dessas embarcações acabam alimentando a logística do tráfico marítimo de drogas”, explica Zevallos.

O risco, portanto, é a expansão progressiva, para além das fronteiras do Equador, de um modelo de governança criminosa baseado na infiltração nas economias locais e no controle das comunidades. O caso apresentado pelo OFAC mostra que combater essas redes exige ir além da apreensão de cargas e identificar e desmantelar as empresas, embarcações, fluxos financeiros e estruturas logísticas que sustentam o tráfico de drogas, além de fortalecer a cooperação e o intercâmbio de inteligência entre os países afetados por essas rotas.

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