Países sul-americanos se unem para combater a expansão das redes criminosas

As organizações criminosas transnacionais estão se expandindo na América Latina a um ritmo que desafia cada vez mais a capacidade de resposta dos diversos países: elas administram cadeias ilícitas integradas, controlam corredores logísticos que atravessam várias fronteiras e se aproveitam das diferenças entre legislações, sistemas judiciais e controles de fronteira, tornando insuficiente uma resposta limitada ao âmbito nacional. O Índice Global de Crime Organizado de 2025 coloca vários países sul-americanos entre os mais afetados pelo crime organizado. A Colômbia ocupou o segundo lugar mundial, enquanto o Equador e o Paraguai dividiram o quarto lugar; o Brasil e o Peru também registraram altos níveis de atividade criminosa, uma concentração que reflete a dimensão regional do fenômeno e a necessidade de respostas coordenadas.

As consequências também são evidentes no âmbito da segurança. De acordo com a InSight Crime, em 2025 a América Latina e o Caribe registraram mais de 108 mil homicídios, enquanto o Equador atingiu a taxa recorde de 50,9 homicídios por cada 100 mil habitantes, uma das mais altas do mundo, impulsionada pela competição entre organizações criminosas pelo controle de rotas do tráfico de drogas, portos, territórios e outras economias ilícitas.

“A taxa de homicídios na América Latina é de 18 por cada 100 mil habitantes, três vezes superior à média mundial de 5,6, e metade dessas mortes está relacionada ao crime organizado”, declarou o procurador-geral do Chile, Ángel Valencia, à agência de notícias francesa AFP, durante a assinatura do Compromisso Regional de Santiago contra o Crime Organizado Transnacional, assinado no final de maio pela Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Peru.

O acordo estabelece um roteiro para fortalecer os controles migratórios e financeiros, bem como a coordenação entre as autoridades de segurança e a justiça, mas, acima de tudo, marca uma mudança de paradigma: diante de organizações que operam além das fronteiras nacionais, os Estados buscam transformar o tradicional intercâmbio de informações em uma cooperação operacional baseada na troca de inteligência, na coordenação de investigações e no planejamento de operações conjuntas.

Foto de arquivo. Alias Pinguino, um dos líderes do grupo criminoso Los Choneros, após sua captura em Guayaquil, no Equador, em 24 de janeiro de 2024. Ao longo dos anos, Los Choneros evoluíram de uma organização criminosa de alcance local para uma rede ligada ao tráfico transnacional de drogas e a alianças com organizações criminosas estrangeiras. (Foto: Gerardo Menoscal/AFP)

A nova dinâmica do crime organizado

A crescente capacidade das organizações criminosas de se expandirem para além de seus países de origem representa um dos principais desafios para a segurança regional. Em junho passado, autoridades brasileiras desmantelaram uma rede do Tren de Aragua que operava em vários estados do país. A investigação revelou ligações entre o grupo venezuelano e o Comando Vermelho (CV), particularmente no fornecimento de armamento, bem como redes relacionadas ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro. Diversas investigações também apontaram contatos com membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), embora as evidências disponíveis mostrem uma relação mais sólida e documentada com o CV.

“A crescente natureza transnacional das organizações criminosas e sua capacidade de operar em múltiplas jurisdições transformaram completamente o panorama da segurança global”, declarou ao Diálogo Juan Belikow, professor de Relações Internacionais da Universidade de Buenos Aires. “A resposta tradicional em matéria de segurança tornou-se obsoleta diante de um inimigo que diversificou suas atividades econômicas para se tornar ‘multissetorial’, operando simultaneamente em diversos tipos de crimes.”

Essa evolução afeta não apenas a expansão geográfica, mas também o modelo de negócios das organizações criminosas. No Equador, Los Choneros, que surgiram como um grupo inicialmente dedicado a crimes comuns e posteriormente ao tráfico de drogas, transformaram-se em uma rede criminosa diversificada que utiliza até mesmo áreas de mineração ilegal de ouro como bases operacionais. Para sustentar essa expansão, consolidaram alianças com cartéis mexicanos, inclusive o Cartel de Sinaloa, redes albanesas e com a ‘Ndrangheta italiana, ampliando sua capacidade de atuar nos mercados internacionais.

A diversificação também se estende ao âmbito digital. O Cybercrime-as-a-Service (CaaS), ou seja, a venda de serviços de cibercrime, deu origem a um verdadeiro mercado criminoso no qual grupos especializados desenvolvem e comercializam malware, acessos a redes de computadores comprometidas e outras capacidades utilizadas para ataques cibernéticos. Cada vez mais organizações criminosas tradicionais podem adquirir esses recursos para complementar o tráfico de drogas, armas e pessoas com operações cibernéticas, ampliando sua capacidade operacional sem a necessidade de desenvolver internamente conhecimentos tecnológicos.

De acordo com a empresa de segurança digital Check Point Research, em dezembro de 2025, as organizações da América Latina sofreram uma média de 3.065 ataques cibernéticos por semana, com um crescimento anual de 26 por cento, o maior registrado entre as regiões analisadas.

Por que a transnacionalidade favorece as redes criminosas

A dimensão transnacional constitui uma das principais vantagens estratégicas das organizações criminosas. Além de facilitar a lavagem de dinheiro e a diversificação das atividades ilícitas, ela permite que elas se aproveitem das diferenças entre os marcos jurídicos nacionais, retardando as investigações e aumentando os custos das operações de combate.

“Os grupos criminosos não se limitam mais a corromper policiais locais: eles subornam funcionários da alfândega, autoridades políticas e policiais, e reguladores financeiros em vários continentes para garantir suas operações”, observa Belikow. Dessa forma, conseguem movimentar rapidamente pessoas, dinheiro e mercadorias por corredores que atravessam várias jurisdições, reduzindo a eficácia das respostas nacionais.

Segundo o G1, em agosto, nove pessoas foram assassinadas em cinco dias durante uma série de ataques ligados, segundo as autoridades bolivianas, ao confronto entre o PCC e o CV pelo controle dos corredores do tráfico de drogas. A crise levou o governo boliviano a anunciar a instalação de um escritório permanente da Polícia Federal do Brasil em La Paz para fortalecer o intercâmbio de inteligência, além de uma presença recíproca de funcionários bolivianos no Brasil, reforçando a cooperação bilateral contra as organizações criminosas.

A fragmentação das jurisdições também retarda a ação judicial. “As organizações criminosas, as máfias e os grupos terroristas escolhem países específicos para estabelecer seus centros de comando, outros para lavar dinheiro e ainda outros para armazenar mercadorias”, explica Belikow. Um caso emblemático é o de Larry Amaury Álvarez Núñez, conhecido como Larry Changa, cofundador do Tren de Aragua: procurado pela justiça chilena, foi detido na Colômbia em 2024 e, em julho de 2026, o país autorizou sua extradição para o Chile, após um longo processo judicial e diplomático.

Uma resposta cada vez mais regional

Para reduzir a vantagem operacional das organizações criminosas, os países da região estão reforçando os mecanismos de cooperação em vários níveis. Além do Compromisso Regional de Santiago, os Estados-membros do Mercosul e os países associados assinaram, em maio, o Compromisso de Assunção 2026 contra a Corrupção e o Crime Organizado, com o objetivo de fortalecer o intercâmbio de informações, a cooperação policial e judicial e a investigação financeira transnacional.

“Hoje, as forças de segurança e a justiça precisam de uma estratégia multissetorial, multinível e internacional”, afirmou Belikow. Segundo o especialista, “isso implica realizar patrulhagens conjuntas, compartilhar bancos de dados biométricos em tempo real e executar mandados de prisão simultâneos entre continentes”.

A essa arquitetura regional soma-se também uma cooperação crescente em nível hemisférico. Em agosto, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) ativou a Força-Tarefa do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM), uma nova estrutura de comando conjunto destinada a sincronizar operações com os 19 países parceiros da Coalizão contra os Cartéis das Américas, aumentar a eficácia contra os grupos criminosos transnacionais e fortalecer a capacidade de resposta a crises regionais.

O desafio já não consiste apenas em proteger as fronteiras, mas em identificar e interromper os fluxos de pessoas, capitais, armas e mercadorias ilícitas ao longo de toda a cadeia logística das redes criminosas. Nesse cenário, a cooperação regional e hemisférica torna-se um multiplicador de força, indispensável para enfrentar as organizações criminosas em sua dimensão transnacional.

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