A transformação do crime organizado brasileiro, de um fenômeno ligado principalmente a atividades ilegais para uma rede capaz de exercer controle territorial e coercitivo, está redefinindo a natureza do desafio que as facções representam para o Estado. O poder criminoso já não é medido apenas pela quantidade de drogas traficadas ou pelo poder de fogo, mas também pela capacidade de substituir as instituições em determinadas áreas do território, determinando quem pode entrar, quais atividades podem ser realizadas e quais regras devem ser respeitadas.
Para os principais grupos criminosos, em particular o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), o território já não é, portanto, apenas o espaço onde operam, mas um recurso estratégico que deve ser conquistado, governado e defendido. Por meio do domínio de comunidades inteiras, as organizações criminosas podem proteger suas atividades ilícitas, controlar pessoas e informações, impor regras, influenciar as economias locais e criar novas fontes de renda.

“Cerca de 44 milhões de brasileiros, quase 20 por cento da população, vivem submetidos em territórios dominados pelas facções, inclusive em pequenas localidades de apenas 10 mil habitantes”, explicou ao Diálogo Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), unidade especial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e coautor do livro Tropa de Elite.
Paradoxalmente, a consolidação do domínio criminoso pode reduzir a violência visível. “Quando a facção é hegemônica, quando não está disputando o território, os homicídios tendem a desaparecer”, explicou Pimentel. É assim que surge “uma falsa impressão de paz”, por trás da qual se esconde “o pleno domínio territorial da facção”.
Em 2025, as mortes violentas intencionais no Brasil diminuíram 8,2 por cento em relação ao ano anterior, para 40.775 casos, o nível mais baixo desde 2012, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Segundo Pimentel, uma vez eliminada a disputa pelo território, diminuem os confrontos, enquanto o acesso das forças de segurança é dificultado e a população permanece submetida pelo medo: a violência não desaparece, mas muda de função, passando do confronto pela conquista do território para a ameaça permanente necessária para governá-lo.
O controle social
Um dos instrumentos mais evidentes desse domínio é o chamado “tribunal do tráfico”, um sistema judicial paralelo por meio do qual as facções exercem controle social. Para o delegado Paulo Saback, da Divisão de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro, trata-se de “um mecanismo de substituição do Estado” que regula “praticamente todos os aspectos da vida cotidiana”. Quem viola as regras da organização pode ser punido pelos traficantes com ameaças, violência, expulsão ou, nos casos mais graves, com a morte.
Esse poder sobre a população também se traduz no controle, por meio da força, das atividades econômicas e dos serviços. Em Icapuí, no litoral leste do Ceará, integrantes do Comando Vermelho exigiram de um provedor local de internet o pagamento de cerca de R$ 10 por cliente na área sob seu controle. Após a recusa da empresa, em julho de 2026, três homens encapuzados invadiram suas instalações e destruíram os equipamentos. É a mesma lógica pela qual, nas áreas controladas por milícias e facções do Rio de Janeiro, as organizações impõem ou monopolizam serviços essenciais como gás, televisão a cabo e internet.
No Ceará, a expansão do CV favoreceu a extensão desse modelo também para a coleta de resíduos, o abastecimento de água e o transporte escolar. “Há 25 anos era um estado pouco violento; hoje 90 por cento das cidades são dominadas pelas facções”, afirmou Pimentel.
Em Sobral, também no Ceará, a Operação Omertà, realizada em agosto de 2026, revelou indícios de que integrantes do CV teriam exigido pagamentos de candidatos que pretendiam fazer campanha em bairros sob sua influência, em valores de até R$ 60.000. As investigações também apontaram ameaças para impedir atos e encontros eleitorais.
A população acaba sendo a principal vítima, a ponto de, em alguns casos, ser obrigada a abandonar o próprio território. Em Uiraponga, no Vale do Jaguaribe, uma disputa entre os Guardiões do Estado (GDE) e o TCP Cangaço, ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP) do Rio de Janeiro, transformou a localidade em uma cidade fantasma em 2025. Isolada e de difícil acesso, a área oferecia às organizações criminosas um refúgio contra as operações policiais e uma posição favorável para suas atividades ilícitas.

Do território às infraestruturas: a projeção do poder criminoso
Os grupos criminosos também interferem na configuração do espaço urbano, transformando-o em uma ferramenta para consolidar seu domínio e dificultar a atuação das forças de segurança. No Rio de Janeiro, esse fenômeno é particularmente evidente. Em agosto de 2026, no Complexo de Israel, na Zona Norte da cidade, a Polícia Militar descobriu pela primeira vez veículos-bomba e barricadas equipadas com explosivos, preparados para serem detonados remotamente. O objetivo era impedir a entrada da polícia na área controlada pelos criminosos.
A essa infraestrutura defensiva soma-se o uso de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Os drones são utilizados para vigiar o território, monitorar os movimentos da polícia e atacar grupos rivais com explosivos. No Rio de Janeiro, as autoridades investigam 18 episódios envolvendo bombas lançadas de drones e chegaram a documentar cursos organizados pelos criminosos para ensinar seu uso.
“Já existem relatos de pessoas feridas em várias comunidades devido aos estilhaços desses explosivos. É um cenário caótico”, afirmou Pimentel. Segundo o ex-capitão do BOPE, o Rio de Janeiro foi pioneiro no uso dessa tecnologia: “Antes mesmo da guerra entre Ucrânia e Rússia, em 2017, o Terceiro Comando já utilizava drones para atacar o Comando Vermelho”.
No Complexo do Alemão também surgiram coberturas e estruturas sobre ruas e espaços abertos, aparentemente para proteger os traficantes de ataques aéreos, mas com o efeito adicional de dificultar a vigilância aérea da polícia. “O principal uso dessas coberturas […] é evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso prejudica enormemente o monitoramento realizado pela polícia”, explicou o delegado Marcos Motta, chefe da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Se o controle do espaço urbano permite às facções submeter ruas e áreas públicas aos seus próprios interesses, limitar a liberdade de circulação e subjugar a população, transformando comunidades inteiras em reféns do sistema criminoso, o controle das infraestruturas representa sua extensão estratégica. Portos, aeroportos, rodovias e empresas de logística conectam os territórios dominados aos mercados externos e permitem aos grupos criminosos projetar suas atividades ilícitas muito além das comunidades sob seu controle.
Investigações recentes evidenciaram a infiltração do crime organizado até mesmo no Aeroporto Internacional de Guarulhos, o mais movimentado do Brasil e um dos principais centros aéreos da região. Em 31 de julho de 2026, a Polícia Federal frustrou uma tentativa de introduzir em uma aeronave com destino à Europa cerca de 400 quilogramas de cocaína. Em junho de 2025, a presença de drones não autorizados provocou o fechamento temporário do espaço aéreo durante uma tentativa de introduzir uma carga de cocaína em uma aeronave. A polícia investigou o uso dos drones para monitorar a atuação das forças de segurança no aeroporto.
Um novo paradigma contra as facções
É precisamente essa interconexão entre território, economia e infraestrutura que obrigou o Estado a adaptar sua resposta. O desafio já não consiste apenas em apreender drogas ou prender traficantes, mas em impedir que as facções consolidem seu controle sobre as comunidades e as conexões logísticas.
Uma mudança de paradigma é representada pela Lei 15.358, promulgada em março de 2026, o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, conhecido como Lei Raul Jungmann. A norma introduz o crime autônomo de “domínio social estruturado”, punido com penas de 20 a 40 anos de prisão para quem utiliza violência ou ameaças para controlar territórios, atividades econômicas e populações. A lei também contempla condutas destinadas a impedir ou dificultar a atuação das forças de segurança, entre elas o uso de barricadas e outros obstáculos e a destruição de vias de acesso.
A novidade é sobretudo de caráter repressivo: anteriormente, para processar uma facção, os investigadores precisavam comprovar os crimes específicos por meio dos quais esse domínio era exercido, como extorsão, ameaças, tráfico de drogas ou homicídio. A nova lei permite, por sua vez, transformar o domínio territorial no objeto direto da acusação penal, reforçando a capacidade de atingir a estrutura de poder da facção.
À resposta penal somam-se a inteligência financeira, o bloqueio e o confisco de ativos, a cooperação entre as forças de segurança e uma maior proteção dos centros logísticos. Nos portos, por exemplo, as autoridades e os operadores estão reforçando os controles e as tecnologias, desde scanners com inteligência artificial até sistemas de videomonitoramento e medidas antidrones.
Segundo Pimentel, penas mais severas são apenas uma parte da resposta. Também são necessárias medidas contra a corrupção nas instituições e, sobretudo, uma estratégia sustentada de “retomada do território”. O que está em jogo vai além do tráfico de drogas. As facções diversificaram suas fontes de renda e ampliaram sua influência sobre atividades econômicas e serviços.
A experiência do Brasil ilustra o desafio cada vez mais complexo que as organizações criminosas representam para as forças de segurança de toda a região. À medida que esses grupos diversificam suas atividades, ampliam suas redes logísticas e financeiras e se adaptam à pressão das autoridades, desarticulá-los exige mais do que agir contra líderes individuais ou carregamentos de drogas. Também é necessário fortalecer o compartilhamento de inteligência, as investigações financeiras e a cooperação entre os países para identificar e desarticular as redes que permitem ao crime organizado operar através das fronteiras.