Seguindo um modelo iniciado pelas máfias europeias, em particular a italiana ‘Ndrangheta, os principais grupos criminosos latino-americanos começaram uma infiltração sistêmica na economia legal. Além das operações clandestinas tradicionais, eles compram empresas, investem na indústria e chegam a assumir o controle de cadeias agrícolas e produtivas inteiras. O objetivo principal, diferentemente das dinâmicas tradicionais de lavagem de dinheiro, não é apenas o de ocultar capitais ilícitos, mas obter legitimidade e, dessa forma, ampliar seu poder de influência.
“A fachada empresarial permite que eles se infiltrem em sindicatos e financiem a política, apresentando-se como geradores de emprego, para dificultar a perseguição penal e obter proteção social”, explica à Diálogo Nicolas Zevallos Trigoso, diretor de Assuntos Públicos do Instituto de Criminologia, com sede no Peru.
Segundo Zevallos, para os grupos criminosos, a economia legal representa um espaço de proteção e expansão, destinado a garantir a sustentabilidade a longo prazo de suas atividades ilícitas. O impacto sobre a população em geral é considerável. Nessa zona cinzenta florescente, onde os criminosos se transformam em “colarinhos brancos”, muitos empresários legítimos são obrigados a operar sob as novas regras draconianas impostas pelo crime organizado, ou, em alguns casos, são até mesmo expulsos do mercado.
Operação Carbono Oculto no Brasil
A magnitude dessa ameaça foi revelada em 2025, graças a uma investigação histórica conduzida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. O que começou como uma denúncia judicial contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), tornou-se a gigantesca Operação Carbono Oculto, que trouxe à tona a integração vertical sem precedentes do grupo no setor energético. Os promotores revelaram que o grupo supostamente teria coagido agricultores, proprietários de usinas de cana-de-açúcar e distribuidores de combustível a vender seus negócios, através de intimidações seletivas, incluindo o incêndio estratégico de campos de cana-de-açúcar, para desvalorizar os ativos antes de uma aquisição forçada.
Os resultados da ofensiva foram impressionantes. As autoridades desmantelaram uma rede que incluía quatro usinas de etanol e mais de 1.000 postos de gasolina, descobrindo um aparato financeiro que movimentava cerca de US$ 9,6 bilhões, por meio de fintechs e fundos de investimento clandestinos.
“Os criminosos geram uma vantagem competitiva desleal: ao possuir capital a custo zero e usar a coerção, eles podem levar à falência concorrentes honestos e monopolizar mercados locais”, diz Trigoso.
O caso do Peru e do Equador
No Equador, grupos criminosos locais começaram a imitar as máfias balcânicas que operam há anos no país, assumindo o controle de empresas de produção e exportação de banana, para ocultar o tráfico de cocaína. O exemplo mais comovente é o da Hacienda La Clementina, uma enorme plantação de mais de 10.000 hectares na província de Los Ríos.
Em uma escalada descarada ao longo de 2025, a plantação foi ocupada pelo grupo criminoso Los Choneros AK-47. O grupo bloqueou a venda legal da propriedade, impôs sua própria força de segurança e pratica extorsões contra as famílias que vivem e trabalham na fazenda.
No Peru, nas regiões afetadas pela mineração ilegal ou pelo narcotráfico, a economia local geralmente gira em torno dos fluxos de capital gerados por essas atividades ilícitas. Setores como hotelaria, oficinas e comércio em geral tornaram-se muito dependentes dessas receitas, o que impulsiona o consumo em nível regional.
“No Peru, mais do que uma infiltração, observamos uma simbiose profunda entre o lícito e o ilícito. Mercados como a mineração ilegal, o narcotráfico e a extração ilegal de madeira demandam serviços de uma rede de 1,4 milhão de pessoas, que fornecem logística, transporte, insumos e alimentação de maneira formal ou informal”, diz Trigoso.
Esse fenômeno de integração orgânica também se repete em todo o continente. No México, os cartéis controlam cadeias de valor inteiras de abacate e limão. Na Colômbia, a pecuária e o ouro legal acabam se entrelaçando com capitais e atividades de origem ilícita.
“Não se trata de uma intrusão externa, mas de uma estrutura em que o capital criminoso mobiliza setores lícitos inteiros, transformando a economia formal em uma engrenagem do seu modelo de negócios e criando uma base social dependente do seu sucesso”, afirma Trigoso.
As vulnerabilidades
Segundo Zevallos, existem dois fatores críticos principais que facilitam a penetração dos grupos criminosos latino-americanos na economia legal: a prevalência da informalidade – um amplo setor de comércio não registrado e baseado em dinheiro vivo, que opera à margem da supervisão e da fiscalização do governo –, que na América Latina atinge em média 50 por cento, e a fragilidade institucional do sistema formal.
“A informalidade atua como um vaso comunicante massivo; permite que o dinheiro ilícito circule com total liberdade, sem rastreabilidade nem rastro digital. É um ecossistema onde o dinheiro vivo manda, facilitando que o capital ilegal se atomize e se integre sem resistência no consumo diário”, diz Trigoso.
Definido como o setor da economia que não é tributado nem monitorado oficialmente, o mercado informal representa 33 por cento do PIB na América Latina. De acordo com o Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano 2025, Sob pressão: recalibrando o futuro do desenvolvimento, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o crime organizado na região se alimenta de ambientes marcados pela informalidade, apresentando-se como uma via indispensável para a geração de rendimentos e emprego.
A economia formal também apresenta fragilidades. “Os controles atuais são principalmente performáticos e administrativos. Eles se baseiam no cumprimento de trâmites e declarações que funcionam como um ‘escudo de papel’, mas o Estado carece de uma capacidade real de vigilância estratégica e inteligência financeira no terreno”, alerta Trigoso.
Diante desse cenário, é necessária uma priorização estratégica. “Os Estados devem concentrar sua inteligência e perseguição penal nas estruturas criminosas mais relevantes e passar de um modelo de controles administrativos para um de inteligência econômica preditiva”, conclui o especialista.



