Na Amazônia do Escudo das Guianas — uma região que abrange a Guiana, o Suriname, a Guiana Francesa e áreas adjacentes do Brasil, da Venezuela e da Colômbia — a extração ilegal de ouro deixou de ser uma atividade marginal para se tornar uma fonte paralela, cada vez mais resiliente, de financiamento e controle territorial do crime organizado. Essas redes operam em conjunto com – e em alguns casos reforçam – as economias tradicionais do tráfico de drogas. A escala e a coordenação dessas estruturas tornaram-se mais evidentes após uma recente operação transfronteiriça apoiada pela Interpol, que demonstrou até que ponto os grupos criminosos atuam simultaneamente em múltiplas jurisdições, em vez de se limitarem a espaços nacionais isolados.
Lacunas regulatórias, corrupção e uma aplicação desigual da lei ao longo das fronteiras têm permitido que grupos criminosos consolidassem sua presença em territórios remotos onde a presença do Estado é limitada. Nesses contextos, a mineração ilegal de ouro tem se entrelaçado cada vez mais com redes criminosas transnacionais que se aproveitam da fiscalização precária, da porosidade das fronteiras e do isolamento geográfico. A Interpol e outros organismos internacionais têm alertado reiteradamente que essa atividade está intimamente ligada à corrupção, à lavagem de dinheiro e a outros crimes graves. Essas condições não apenas favorecem, mas são exploradas estrategicamente, permitindo que as redes se adaptem, desloquem suas operações e mantenham sua continuidade.
Além do impacto ambiental, a atividade impõe um elevado custo humano. Comunidades indígenas e pequenos mineiros enfrentam condições de trabalho precárias, exposição ao mercúrio e ausência de controles sanitários. Ao mesmo tempo, grupos armados e organizações criminosas exercem controle sobre as zonas de extração, criando condições associadas ao tráfico de pessoas, ao trabalho forçado e à exploração sexual. Essas dinâmicas também favorecem ambientes em que atores não estatais controlam o acesso aos territórios e à mão de obra em áreas onde a presença do Estado é limitada ou irregular.
Nesse contexto, as estruturas criminosas brasileiras mantêm uma posição predominante. “Grupos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital exercem supremacia na região, atuando não apenas na mineração irregular, mas também nas rotas do tráfico de drogas e em outros mercados ilícitos”, explicou à Diálogo Michelle Maffei, professora de Ciências Políticas da Universidade de Guayaquil.
A escala do fenômeno é significativa. Avaliações internacionais estimam que a mineração ilegal gere entre R$ 59,9 bilhões e R$ 239,5 bilhões anuais em receitas criminosas em nível global, sendo o ouro uma de suas principais fontes. Na Amazônia, foram identificados milhares de pontos de extração ilegal, enquanto a atividade continua gerando degradação ambiental e violência em áreas vulneráveis. Essa escala é relevante não apenas em termos ambientais, mas também porque representa uma fonte de renda estável e diversificada reduzindo a dependência dos grupos criminosos de um único mercado ilícito.
Mecanismos e alcance transnacional
A cadeia do ouro ilegal não termina na extração. Uma vez obtido, o mineral pode ser misturado à produção legal, passar por intermediários e ingressar em circuitos comerciais formais, dificultando o rastreamento de sua origem. Essa opacidade facilita a lavagem de dinheiro e permite que os atores criminosos ocultem seus lucros. Isso representa um desafio significativo para a aplicação da lei, já que intervenções nos pontos de extração se mostram insuficientes sem ações paralelas sobre os fluxos financeiros, intermediários e canais de exportação.
Essa dinâmica está cada vez mais entrelaçada com outras economias ilícitas. A mineração ilegal e o tráfico de drogas compartilham rotas, infraestrutura, facilitadores corruptos e redes de proteção. No território Yanomami no Brasil, por exemplo, investigações documentaram a crescente convergência entre a mineração ilegal e o crime organizado, incluindo a expansão do PCC para o comércio de ouro. Essa convergência permite que os grupos criminosos aumentem sua eficiência e ampliem seu alcance, ao mesmo tempo em que torna mais complexos os esforços de controle.
“Nesse contexto, o crime organizado mantém uma presença comparável à observada em zonas costeiras, o que evidencia sua expansão na Amazônia”, observou Maffei.
No entanto, ela esclareceu que essa atividade não substituiu o tráfico de drogas como principal fonte de renda: “o tráfico de drogas continua concentrando maiores fluxos de capital.” A mineração ilegal, contudo, consolida-se como um componente cada vez mais relevante dentro do ecossistema criminoso.
Ao longo da fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, milhares de brasileiros se aventuram em zonas remotas em busca de ouro. Reportagens da mídia regional descrevem assentamentos marcados por economias informais, circulação de drogas, limitada supervisão estatal e alta vulnerabilidade social — condições que favorecem a atividade criminosa e dificultam a aplicação coordenada da lei em nível transfronteiriço.
Operação Escudo Guiana
Em janeiro de 2026, a Operação Escudo Guiana — coordenada com o apoio da Interpol — envolveu autoridades do Brasil, da Guiana Francesa, da Guiana e do Suriname em uma operação conjunta contra a mineração ilegal de ouro na região. O resultado foi a prisão de 198 pessoas e a apreensão de maquinário, ouro, mercúrio, drogas e dinheiro em espécie. Realizada em diversos pontos remotos, a operação também permitiu identificar crimes associados, como o tráfico de pessoas e a exploração de mão de obra. Representou um esforço coordenado para atuar simultaneamente nos pontos de extração, nas rotas logísticas e nas atividades criminosas associadas em várias jurisdições.
A operação também evidenciou o valor operacional de ações sincronizadas em zonas fluviais e fronteiriças. A Interpol destacou que os agentes realizaram “operações espelho” em ambos os lados de rios fronteiriços estratégicos, um modelo que demonstra a importância de exercer pressão coordenada dos dois lados da fronteira para limitar o deslocamento das atividades ilícitas e reduzir as oportunidades de evasão.
Embora a operação tenha produzido resultados significativos, seu impacto dependerá de esforços sustentados que não se limitem aos pontos de extração, mas que também alcancem os fluxos financeiros, as redes logísticas e os facilitadores que sustentam essa atividade. Sem coordenação contínua, as redes criminosas podem se reconstituir ou se deslocar geograficamente, como ocorre em outras economias ilícitas. A especialista destacou “a necessidade de fortalecer a rastreabilidade dos fluxos financeiros por meio de inteligência e tecnologia, apesar das restrições do sistema bancário”.
O contexto econômico agrava o desafio. A Interpol alertou que o aumento sustentado do preço do ouro impulsiona a expansão da mineração ilegal e consolida seu papel como fonte de renda criminosa. Enquanto o mineral mantiver alta rentabilidade e a rastreabilidade continuar limitada, a atividade seguirá oferecendo às redes criminosas uma fonte de renda flexível e de baixo risco relativo.
Riscos e projeção regional
“As iniciativas para conter esse fenômeno permanecem aquém de sua magnitude”, destacou Maffei, apontando uma lacuna persistente entre a magnitude do problema e a capacidade de resposta.
Sem uma maior presença territorial, a atividade tende a se expandir impulsionada por novos jazimentos, preços elevados e a capacidade de adaptação dos grupos criminosos, que ajustam suas operações em função da pressão das autoridades.


