Com uma produção mundial de cocaína estimada em um recorde histórico de aproximadamente 4.100 toneladas em 2024, o Equador se consolidou como um dos principais pontos de saída de cocaína para os mercados internacionais. De acordo com o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), o país registrou um recorde de quase 300 toneladas de drogas apreendidas em 2024, um dos números mais altos do mundo. Nos primeiros meses de 2026, as autoridades equatorianas já haviam apreendido mais de 70 toneladas de entorpecentes.
“A localização do Equador entre a Colômbia e o Peru, juntamente com a presença de grandes portos comerciais utilizados para a exportação de banana — da qual é o maior exportador mundial —, oferece condições ideais para ocultar cocaína nos fluxos do comércio internacional”, explica à Diálogo Antonio Nicaso, especialista em crime organizado e professor da Queen’s University de Kingston, Ontário, Canadá.
Nos últimos anos, investigações realizadas no Equador, na Colômbia e na Itália destacaram o papel cada vez mais relevante desempenhado por operadores ligados à máfia calabresa ‘Ndrangheta nas redes internacionais que conectam a produção sul-americana de cocaína aos mercados europeus. Mais do que controlar diretamente o território equatoriano, essas estruturas atuam por meio de redes financeiras, logísticas e comerciais que conectam organizações criminosas locais, intermediários internacionais e compradores europeus.
O alcance internacional dessas rotas ficou novamente evidente em julho, quando as autoridades equatorianas apreenderam 1,7 toneladas de cocaína escondidas em um carregamento de frutas com destino à Dinamarca, uma operação que mais uma vez evidenciou a importância do Equador como plataforma logística para o tráfico de cocaína rumo à Europa.
A expansão da ‘Ndrangheta no Equador ocorre dentro de um ecossistema criminoso cada vez mais integrado, no qual a máfia calabresa se conecta com organizações locais, redes balcânicas, cartéis mexicanos e compradores europeus. Essa convergência aumenta os desafios em termos de investigação, inteligência financeira e cooperação internacional para as forças de segurança.
Equador, plataforma da globalização do crime
Como explica Nicaso, “no Equador, a ‘Ndrangheta não controla diretamente o território. Sua função é principalmente a de corredor internacional, financiadora dos embarques, garantidora dos pagamentos e organizadora da logística para a Europa”.
Sua força não reside no controle das zonas de produção de cocaína nem das rotas locais, mas em sua capacidade de coordenar diferentes redes criminosas, financiar carregamentos e conectar a oferta sul-americana à demanda internacional.
“A ‘Ndrangheta ocupa o nível mais alto da cadeia de valor criminosa, onde são tomadas as decisões estratégicas, financiados os carregamentos e garantido o acesso aos mercados internacionais”, acrescenta o especialista.
As conexões com organizações criminosas internacionais permitem que os grupos locais ampliem seu acesso a mercados, recursos financeiros e redes logísticas internacionais, fortalecendo sua capacidade de operar dentro de cadeias transnacionais de tráfico de drogas. Nesse contexto, os Estados Unidos designaram, em 2025, Los Choneros e Los Lobos como organizações terroristas estrangeiras, refletindo a crescente preocupação com a projeção internacional dessas estruturas criminosas.
Particularmente significativa é a crescente atenção voltada para a província costeira de El Oro. Segundo o coronel Renato González, comandante da Zona 7 da Polícia Nacional do Equador, “organizações criminosas estrangeiras como a ‘Ndrangheta buscam exercer influência nos corredores utilizados para o transporte de entorpecentes”. Situada às margens do Oceano Pacífico e próxima à fronteira com o Peru, El Oro constitui um corredor natural entre as zonas de produção de cocaína e as rotas marítimas para a Europa.
Nesse contexto, Puerto Bolívar assume um papel estratégico. Como um dos principais portos equatorianos para a exportação de banana, ele movimenta milhares de contêineres a cada ano, uma realidade que as organizações criminosas aproveitam para ocultar cargas de cocaína no comércio legal. Essa vulnerabilidade voltou a ficar exposta em julho, quando as autoridades italianas apreenderam 770 quilos de cocaína escondidos em um carregamento de bananas proveniente do Equador no porto de Vado Ligure.
Um ecossistema criminoso transnacional
A expansão da ‘Ndrangheta no Equador depende de sua capacidade de se integrar a organizações criminosas locais, redes balcânicas e outros atores latino-americanos. Essas conexões facilitam toda a cadeia criminosa, desde a aquisição de cocaína e a logística portuária até a distribuição internacional e a lavagem de dinheiro.
“As relações entre a ‘Ndrangheta e o PCC brasileiro, bem como com Los Choneros, Los Lobos e Los Tiguerones, com as redes criminosas albanesas e, sobretudo, com o mundo do crime organizado mexicano, estão plenamente comprovadas, inclusive do ponto de vista judicial”, afirma Nicaso.
Uma das mudanças mais relevantes foi a evolução das redes criminosas albanesas. Se inicialmente atuavam principalmente como intermediárias entre fornecedores sul-americanos e organizações criminosas europeias, hoje desenvolvem relações diretas com produtores, operadores portuários e grupos criminosos locais, ampliando consideravelmente sua autonomia operacional.
“Conseguiram construir redes de relações com os produtores de cocaína, além de se infiltrarem nos portos do país”, explica o especialista.
Nesse sistema, os grupos equatorianos contribuem com o controle territorial e apoio logístico; as redes albanesas desempenham um papel cada vez mais importante nos setores portuário e comercial; enquanto a ‘Ndrangheta fornece financiamento, acesso a redes consolidadas de distribuição na Europa e mecanismos internacionais de lavagem de dinheiro. O resultado é uma estrutura criminosa cada vez mais resiliente, diversificada e difícil de desmantelar.
A economia criminosa do eixo Colômbia-Equador
A presença de operadores ligados à ‘Ndrangheta no Equador não se limita ao tráfico de cocaína. Investigações realizadas em diversos países também revelam o uso de empresas de fachada para facilitar operações comerciais, ocultar atividades ilícitas e conferir aparência de legalidade a parte da logística empregada pelas organizações criminosas.
O caso do chefe mafioso Roberto Nastasi é emblemático. Durante anos, ele se apresentou como um empresário dedicado ao setor de eletrodomésticos em Guayaquil. Segundo as autoridades colombianas, ele utilizava estruturas empresariais para facilitar a aquisição e o envio de cocaína para a Europa e atuava como elo de ligação entre a ‘Ndrangheta e o Clã do Golfo.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que o eixo Colômbia-Equador adquire uma importância estratégica cada vez maior para a ‘Ndrangheta. Enquanto a Colômbia continua sendo o principal produtor mundial de cocaína, o Equador oferece acesso a portos internacionais, infraestrutura comercial consolidada e rotas marítimas que o conectam aos principais mercados europeus.
As prisões na Colômbia, em 2025, de Giuseppe Palermo, conhecido como Peppe, considerado pelas autoridades um dos principais operadores da ‘Ndrangheta na América Latina, ilustraram essa dimensão regional. Segundo a Polícia colombiana, Palermo coordenava a aquisição de grandes carregamentos de cocaína na Colômbia, no Peru e no Equador antes de enviá-los para a Europa. Meses antes, a prisão de Emanuele Gregorini, conhecido como Dollarino, havia revelado a presença na América Latina de outra importante estrutura mafiosa italiana dedicada ao tráfico internacional de cocaína.
O desafio para a segurança regional
O fortalecimento do ecossistema criminoso que conecta a ‘Ndrangheta às gangues equatorianas, às redes albanesas, aos cartéis mexicanos e aos grupos armados colombianos representa uma ameaça que vai muito além do tráfico de drogas. O risco é que o Equador deixe de ser um mero país de trânsito para se tornar uma plataforma operacional permanente do crime organizado global.
A chegada de capitais e conhecimentos criminosos estrangeiros aumenta a capacidade operacional das organizações locais, alimentando a violência, as extorsões e as disputas pelo controle dos corredores logísticos e das infraestruturas portuárias. Paralelamente, a ‘Ndrangheta contribui para consolidar uma cadeia criminosa integrada, na qual atores locais e internacionais cooperam de maneira cada vez mais estreita.
Esse modelo dificulta a identificação de responsabilidades e cadeias de comando, fragmenta as atividades ilícitas e aumenta a capacidade de adaptação e resiliência das redes criminosas diante das operações das forças de segurança.
Para enfrentar esse cenário, a cooperação internacional, o intercâmbio de inteligência e o fortalecimento da cooperação entre o Equador e seus parceiros internacionais representam ferramentas fundamentais para melhorar a resposta regional. Em julho, por exemplo, a Marinha do Equador e militares da Marinha dos EUA realizaram treinamentos e patrulhamentos conjuntos em Esmeraldas para fortalecer as capacidades de interdição marítima e coordenação operacional.
Segundo Nicaso, também é necessário atingir os recursos econômicos das organizações criminosas: “Hoje, no mundo, consegue-se apreender entre 10 por cento e 15 por cento das drogas, mas confisca-se menos de 1 por cento dos bens de origem criminosa”.
O desafio, portanto, não consiste apenas em interceptar a cocaína, mas em desmantelar os sistemas financeiros, as empresas de fachada e os mecanismos de lavagem de dinheiro que sustentam o tráfico de drogas. Fortalecer a cooperação internacional, o intercâmbio de inteligência, as investigações financeiras e a segurança portuária será fundamental para reduzir a capacidade operacional dessas redes e proteger os corredores estratégicos utilizados para o comércio legítimo.