Equador: reconfiguração dos corredores ilícitos no coração dos Andes

A prisão no Equador de Luis Rolando Osorio Arévalo, conhecido como Mison, acusado pelas autoridades colombianas de facilitar a expansão do Tren de Aragua em Bogotá, é um exemplo de uma transformação mais ampla que está ocorrendo na região andina.

Osorio foi detido no Equador após uma operação coordenada entre os órgãos de segurança do Equador e da Colômbia e entregue às autoridades colombianas em 8 de abril, na Ponte Internacional de Rumichaca, que liga os dois países. Na Colômbia, ele responde por acusações de homicídio, tráfico de drogas, porte ilegal de armas e associação criminosa agravada.

As autoridades colombianas o identificam como líder dos Los Maracuchos e o acusam de facilitar a expansão do Tren de Aragua em Bogotá desde 2018, além de recrutar migrantes venezuelanos para atividades criminosas. Ele deixou a Colômbia em 2024 e permaneceu foragido no Equador até ser localizado por meio de um alerta da Interpol.

O caso vai além da prisão de um indivíduo. Armando Rodríguez Luna, membro da consultoria mexicana Nzaya, especializada em segurança, direito e governança internacional, alerta que o que ocorre no Equador não pode ser entendido apenas como uma expansão territorial do tráfico de drogas.

“O que realmente está por trás disso é uma reconfiguração das organizações criminosas que operam nessa região do continente”, afirmou Rodríguez Luna ao Diálogo. Esse processo envolve principalmente a interação entre organizações colombianas e grupos venezuelanos, mexicanos e brasileiros, colocando o Equador no centro de uma dinâmica regional que vai muito além de suas fronteiras.

O Equador deixa de ser um corredor e se torna um território disputado

ECU Growing Role
Agentes da Polícia Nacional do Equador montam guarda em uma rua movimentada de Babahoyo, após a escalada da violência do crime organizado no Equador, em 3 de junho de 2026. (Foto: Gerardo Menoscal/AFP)

A relevância estratégica do Equador para o crime organizado transnacional resulta de uma combinação de fatores estruturais. O país está localizado próximo às principais zonas produtoras de cocaína do mundo – Colômbia e Peru –, possui acesso ao Oceano Pacífico, uma infraestrutura portuária desenvolvida e uma economia dolarizada que pode facilitar a lavagem de dinheiro. Em conjunto, essas condições transformaram o Equador em um ponto de articulação para redes que conectam produtores, transportadores e distribuidores em vários países.

Desde 2020, o Equador vem passando por um processo de fragmentação do crime organizado. O Observatório Equatoriano do Crime Organizado (OECO) documenta como organizações como o Cartel de Sinaloa e redes criminosas dos Balcãs têm buscado estabelecer operações no país, gerando disputas territoriais, aumento dos assassinatos por encomenda, fornecimento de armas de longo alcance, lavagem de dinheiro e esquemas de corrupção voltados para funcionários públicos. O Índice Global de Crime Organizado atribui ao Equador uma pontuação de 7,48 em criminalidade em 2025, quase dois pontos acima da média regional de 6,13.

Rodríguez Luna situa o ponto de inflexão por volta de 2022, quando grupos colombianos e mexicanos começaram a considerar o território equatoriano como uma rota estratégica não apenas para o tráfico de cocaína, mas também para o transporte de precursores químicos e outras atividades logísticas do crime organizado. As disputas já não se concentram apenas nas províncias litorâneas: elas também se estenderam para cidades do interior, onde diferentes organizações criminosas buscam consolidar novos corredores e estruturas de apoio.

O Equador, afirma Rodríguez Luna, deixou de ser um corredor de passagem para se tornar um território disputado, com tudo o que isso implica em termos de violência, corrupção institucional e desafios para o controle estatal.

Corredores terrestres, fluviais e marítimos

A geografia equatoriana permite que as organizações criminosas utilizem múltiplas rotas simultaneamente. Pesquisas publicadas pela Universidade Estadual da Península de Santa Elena (UPSE) identificam vários corredores marítimos, entre eles rotas que partem de Esmeraldas, Manabí e El Oro e transportam cargas pelo Pacífico em direção à América Central, bem como rotas que partem de Guayas e se conectam a redes de tráfico de maior alcance. Os grupos criminosos também têm utilizado as águas que circundam as Ilhas Galápagos como zonas de reabastecimento para embarcações que transportam narcóticos pelo Pacífico oriental.

Essas mesmas águas de importância estratégica também são alvo da frota pesqueira de águas distantes da China, cujas documentadas atividades de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (INN) se tornaram outro grande desafio para a segurança marítima do Equador. Em conjunto, essas ameaças convergentes ressaltam a necessidade de fortalecer a consciência situacional marítima e a cooperação regional em todo o Pacífico Oriental.

Os traficantes de drogas também aproveitam o elevado volume de exportações legítimas do Equador para ocultar cocaína em contêineres com destino à Europa e à América do Norte, transformando o país em um dos principais pontos de saída de carregamentos internacionais de cocaína. Esse uso da logística comercial aumentou a pressão sobre portos, autoridades alfandegárias, empresas de navegação e forças de segurança responsáveis por proteger as cadeias logísticas legítimas.

As organizações criminosas transnacionais desenvolveram estruturas que distribuem funções logísticas entre múltiplas jurisdições. Transporte, armazenamento, proteção de cargas, financiamento e distribuição podem operar simultaneamente em diferentes territórios.

Rodríguez Luna descreve conexões que articulam corredores do Pacífico com rotas que se estendem até o Atlântico. “Brasileiros, mexicanos e colombianos colaboram para diversificar as rotas”, destacou.

A fronteira com a Colômbia continua sendo uma área crítica. Dezenas de passagens clandestinas são utilizadas para o tráfico de drogas, armas, precursores químicos, combustível e pessoas. As Forças Armadas equatorianas também mantêm vigilância sobre as rotas fluviais na Amazônia diante de indícios crescentes de atividades ligadas ao narcotráfico e outras economias ilícitas.

O OECO alerta que grupos locais participam dessas redes como elos operacionais – armazenamento, transporte, assassinatos por encomenda, apoio logístico. Mas Rodríguez Luna afirma que as organizações criminosas equatorianas ainda não possuem capacidade para operar sozinhas essas estruturas transnacionais e dependem de alianças com atores externos, como o Tren de Aragua e grupos criminosos mexicanos, para manter corredores e redes logísticas.

Ao mesmo tempo, as ações contra o tráfico de drogas na Colômbia contribuíram para o deslocamento de parte da infraestrutura criminosa para o Brasil, o Equador e a Venezuela, redistribuindo pressões e capacidades por toda a região.

A cooperação regional diante de ameaças sem fronteiras

A operação que resultou na captura de alias Mison demonstrou que a coordenação entre o Equador e a Colômbia produz resultados concretos. A troca de informações entre órgãos de segurança permitiu localizar e entregar às autoridades colombianas um suposto líder criminoso que havia conseguido escapar da justiça durante meses ao cruzar uma fronteira internacional.

Para Rodríguez Luna, esse tipo de colaboração é essencial para enfrentar a natureza atual das ameaças transnacionais. “A segurança já é entendida sob essa nova lógica, não apenas pela proteção dos espaços territoriais, marítimos e aéreos ou das fronteiras, mas particularmente pela segurança das cadeias logísticas e das cadeias de valor”, destacou.

Essa abordagem também tem orientado a cooperação do Equador com os Estados Unidos em matéria de segurança. Em junho, o Equador e os Estados Unidos assinaram a estratégia “Fronteira Segura”, destinada a fortalecer a segurança de fronteira por meio de análises de risco, intercâmbio de informações, alertas operacionais, mecanismos de inspeção, patrulhamento e controles coordenados. O Ministério da Defesa do Equador destacou que a estratégia também prevê coordenação com a Colômbia, ressaltando o caráter regional da ameaça.

Rodríguez Luna considera que a cooperação com os Estados Unidos continuará sendo um componente central para combater essas redes. Questionado sobre o papel de Washington nesse esforço, ele foi categórico: “Total. Absoluta. É a principal”.

Essa cooperação inclui intercâmbio de inteligência, assistência técnica, apoio à segurança de fronteira e esforços para fortalecer o conhecimento do domínio marítimo e aéreo, todos fundamentais à medida que os grupos criminosos diversificam suas rotas e buscam aproveitar a infraestrutura comercial legítima.

O caso de Mison reflete uma realidade que os órgãos de segurança da região não podem ignorar: o Equador deixou de ser um país de trânsito para se tornar um nó estratégico do crime organizado transnacional, com infraestrutura logística, corredores ativos e estruturas locais integradas a redes globais.

Uma resposta eficaz requer inteligência compartilhada, operações conjuntas e uma compreensão atualizada de como essas organizações redistribuem funções entre jurisdições. Fortalecer os mecanismos regionais de troca de informações e proteger as cadeias logísticas legítimas contra a infiltração criminosa será fundamental para desmantelar redes que se aproveitam das lacunas institucionais e operam através das fronteiras.

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