Peru e Equador coordenam suas forças de segurança contra a mineração e a extração ilegal de madeira ao longo da fronteira comum com um objetivo claro: impedir que redes criminosas transfiram suas operações para o outro lado da fronteira quando aumenta a pressão em um dos dois países.
Em maio de 2026, os ministros da Defesa se reuniram em Arenillas, Equador, e concordaram em reforçar a cooperação no enfrentamento ao crime organizado transnacional, à mineração ilegal e à extração ilegal de madeira. Segundo o Ministério da Defesa do Peru, o acordo prevê o compartilhamento de informações e inteligência, operações coordenadas e o acompanhamento dos compromissos assumidos. Em 2025, informou o Ministério Público peruano, os dois países já haviam assinado o Plano de Trabalho 2025-2026, que prevê operações conjuntas, investigações e cooperação internacional desde o norte de Cajamarca até Condorcanqui, no Amazonas.
Pedro Yaranga, especialista em segurança integral e gestão de riscos e professor da Universidade Ricardo Palma, no Peru, identificou em entrevista ao Diálogo as lacunas na vigilância como o principal desafio. Em agosto de 2026, autoridades equatorianas interceptaram em Zamora Chinchipe uma carga com mais de 18.600 unidades de material explosivo e prenderam duas pessoas, informou o Infobae. Uma das linhas de investigação considera a possibilidade de que o material fosse destinado a atividades de mineração ilegal.
O deslocamento como estratégia de sobrevivência das redes criminosas
As organizações que exploram o ouro amazônico respondem às operações de repressão deslocando suas atividades, em vez de se desfazerem. Uma investigação do Código Vidrio e do Ojo Público, publicada em março de 2026, documentou o deslocamento dessas organizações para as províncias equatorianas de Zamora Chinchipe e Morona Santiago após o aumento das operações militares e policiais em outras áreas do país. Grupos do Equador, Peru e Colômbia disputam áreas de mineração ilegal na Cordilheira do Cóndor.
A pressão das autoridades continuou em agosto, quando forças equatorianas intervieram em novos pontos de extração ilegal em Zamora Chinchipe e Morona Santiago, onde inutilizaram máquinas, acampamentos e equipamentos empregados no processamento de material aurífero. Do lado peruano, a Promotoria Ambiental informou, em abril, sobre a destruição de máquinas pesadas utilizadas na extração ilegal de minerais em San Ignacio, perto da fronteira, e a prisão de oito pessoas — peruanos, equatorianos e colombianos — supostamente ligadas à atividade.
A infraestrutura sustenta o circuito
A capacidade dessas redes criminosas de transferir suas operações através da fronteira depende, em parte, da infraestrutura que conecta os locais de extração, as áreas de processamento e as rotas de abastecimento nos dois países. Estradas clandestinas permitem que mineradores e grupos criminosos transportem minério, máquinas, produtos químicos, explosivos e outros insumos à margem dos postos oficiais de fronteira.
“É a única estrada que existe nesta parte do lado equatoriano, mas foi construída pelos próprios criminosos. Todo o material de mineração extraído no Peru é transportado em centenas de caminhões para o lado equatoriano para processar o ouro, que depois sai como ouro equatoriano”, explicou Yaranga. O Código Vidrio também documentou o “Paso Tres”, uma estrada clandestina de cerca de três quilômetros que, segundo relatórios militares citados pelo veículo, é utilizada por mineradores ilegais e organizações criminosas para transportar minério aurífero, armas, produtos químicos e explosivos. Sua construção começou em dezembro de 2024, fora dos postos de fronteira autorizados.
Yaranga alertou para os efeitos da pressão assimétrica. “Quando há pressão em determinado país, eles imediatamente se mudam para o país vizinho. O melhor resultado seria consolidar essa aliança em nível regional: uma pressão permanente e cooperação simultânea de agentes internacionais e forças aliadas”, explicou.
Operações espelho, inteligência em tempo real e ações contra os fluxos financeiros
A coordenação também avançou para o planejamento operacional. Após a reunião de maio, os dois países concordaram em preparar e implementar planos para realizar operações militares espelho em cinco áreas de interesse binacional, além de fortalecer o compartilhamento de inteligência militar. “Já foram realizadas operações com a participação conjunta de peruanos e equatorianos, basicamente com as Forças Armadas, com excelentes resultados. Esse tipo de operação deveria continuar”, afirmou Yaranga, que defendeu o acesso a informações em tempo real: “Sobretudo para rastrear os movimentos migratórios desses criminosos; caso contrário, é impossível. À inteligência humana é preciso somar equipamentos de última geração.”
A pressão sobre as redes logísticas também apresenta resultados. Em abril de 2026, agentes equatorianos desarticularam uma estrutura que, segundo o jornal La Hora, introduzia clandestinamente explosivos provenientes do Peru, armazenava-os em El Oro e os distribuía para áreas de mineração ilegal em Imbabura, Carchi e El Oro. Seis operações de busca simultâneas em Imbabura, Carchi, Loja e El Oro permitiram apreender cartuchos de emulsão explosiva, detonadores, nitrato de amônio, dinheiro em espécie e dispositivos móveis.
Para Yaranga, as ações devem atingir o dinheiro. “Atacar somente os líderes às vezes não produz o resultado esperado. É preciso atacar a rede de apoio financeiro dessas organizações: dentro da mesma aliança e em tempo real, bloquear contas e identificar quem recebe essas remessas”, explicou. Ele estimou que cada organização movimenta anualmente “cerca de R$ 10,24 milhões, pelo menos” e defendeu que o rastreamento se estenda às transferências para o exterior: “Esse tipo de ação é muito mais contundente do que a simples captura.”
Cooperação fortalece capacidades institucionais
A cooperação com os Estados Unidos também ajuda Equador e Peru a fortalecer as capacidades investigativas e técnicas necessárias para combater a mineração ilegal e as redes financeiras ilícitas que a sustentam. Exemplos desse apoio podem ser vistos nos dois países. No Equador, a cooperação com os Estados Unidos tem incluído assistência técnica, equipamentos e capacitação para os agentes envolvidos em investigações e operações, além de apoio ao compartilhamento de informações financeiras. No Peru, um exemplo recente ocorreu em maio, quando o Ministério Público recebeu um espectrômetro portátil de raios X, acompanhado de treinamento para sua utilização, a fim de fortalecer as investigações sobre mineração ilegal e lavagem de dinheiro.
O apoio também se estende à inteligência e à investigação criminal. Em março de 2026, Equador e Estados Unidos formalizaram a instalação de um escritório do FBI em Quito, com um agente designado permanentemente para trabalhar junto a uma equipe especializada da Polícia Nacional. No Peru, o FBI e a Polícia Nacional assinaram, em junho, um acordo para criar uma equipe especial de investigação contra o crime organizado transnacional, com apoio dos Estados Unidos em tecnologia, logística, capacitação especializada e assistência profissional. Em agosto, a incorporação de novos integrantes reforçou a equipe conjunta e suas capacidades de inteligência e investigação.
Para Yaranga, o desenvolvimento profissional contínuo da Polícia e das Forças Armadas contribuiria para fortalecer ainda mais essas capacidades. Ele destacou o valor de programas de capacitação de longo prazo, que poderiam se estender por vários anos. “Uma Polícia capacitada, uma Polícia profissional se torna incorruptível, trabalha com todas as fontes e é confiável”, afirmou.
O valor dessa convergência está na capacidade de Peru e Equador de reduzir a margem de manobra que as redes criminosas encontram entre jurisdições vizinhas. Operações coordenadas, compartilhamento de inteligência e monitoramento de rotas, explosivos e fluxos financeiros permitem exercer pressão simultânea sobre diferentes componentes dessas organizações e dificultam a transferência de suas atividades de um lado para o outro da fronteira.
Essa abordagem bilateral também se insere em um esforço regional mais amplo: a Coalizão contra os Cartéis das Américas busca fortalecer a cooperação entre os países do hemisfério no enfrentamento às redes criminosas transnacionais e às economias ilícitas que as sustentam.
As operações espelho acordadas pelos dois países reforçam essa abordagem ao combinar as capacidades de cada Estado diante de uma ameaça compartilhada. Juntamente com a investigação criminal, o rastreamento financeiro e a capacitação especializada, essa coordenação fortalece a capacidade de Peru e Equador de proteger seus territórios, desarticular as redes que sustentam a mineração ilegal e consolidar uma resposta binacional mais integrada ao crime organizado transnacional.