O Equador está intensificando as ofensivas militares contra a mineração ilegal, que nos últimos anos se expandiu para os parques nacionais e áreas protegidas do país.
No final de outubro de 2025, ocorreu uma grande mobilização na província de Imbabura, no norte do país. Um destacamento de cerca de 500 soldados, apoiado por artilharia pesada e ataques aéreos e terrestres coordenados, atacou acampamentos clandestinos e entradas ilegais em áreas conhecidas como Mina Vieja, Mina Nueva e El Olivo. A área afetada cobriu cerca de 187 hectares, com mais de 720 entradas de minas destruídas, de acordo com dados do Exército equatoriano. Em suas contas nas redes sociais, o presidente Daniel Noboa declarou que a mineração ilegal na área havia sido erradicada e prometeu uma presença permanente das Forças Armadas, juntamente com ações semelhantes em outras regiões.
Cumprindo essa promessa, a ofensiva militar foi imediatamente estendida à fronteira norte. Em uma operação mais recente, no final de novembro, as forças equatorianas atacaram os cantões de San Lorenzo e Eloy Alfaro, na província de Esmeraldas, uma área logística crucial na fronteira com a Colômbia. A operação se concentrou em desmantelar a espinha dorsal financeira e logística das redes ilícitas, destruindo até 25 acampamentos e plataformas de mineração ilegal.
Essa ação causou um grande golpe financeiro, com a apreensão de escavadeiras, equipamentos de processamento e grandes quantidades de combustível. Oficiais militares confirmaram que a infraestrutura era controlada pela Frente Oliver Sinisterra, um grupo dissidente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que está ativamente aliado a cartéis equatorianos, como Los Lobos, para explorar zonas de mineração.
Crime organizado e designação terrorista
O que começou como uma atividade informal no Equador atraiu rapidamente redes criminosas sofisticadas, operando com maquinário pesado, explosivos e logística complexa.
O alcance dessa atividade ilícita é enorme. De acordo com dados citados pela plataforma de inteligência empresarial Bnamericas, que fez referência à Agência de Regulamentação e Controle de Mineração (ARCOM), existem mais de 387 minas ilegais espalhadas por 16 províncias. Quarenta delas são controladas por grupos armados organizados, com especialistas estimando que pelo menos 30 estão localizadas em áreas protegidas, incluindo o Parque Nacional Podocarpus, na Amazônia.
Entre os grupos do crime organizado que disputam violentamente as áreas de mineração estão Los Lobos e Los Choneros.
Los Lobos, um grupo que mantém laços com o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México, controla 20 minas de ouro e 40 grupos de mineração ilegal. Também é conhecido por extorquir empresas detentoras de concessões para outras 30 minas.
Los Choneros supostamente usa a mineração ilegal como fachada para outras atividades criminosas importantes, incluindo contrabando de armas, extorsão e tráfico de drogas.
É importante ressaltar que esses grupos foram oficialmente designados como ameaças tanto no Equador quanto nos Estados Unidos. No Equador, a Presidência da República, por meio do Decreto Executivo nº 111, os designou como grupos terroristas. Esse status foi repetido internacionalmente quando os Estados Unidos também designaram Los Choneros e Los Lobos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs).
Prendendo um figurão
Em uma grande vitória contra as redes criminosas, o presidente Noboa e o ministro do Interior do Equador, John Reimberg, anunciaram a prisão do líder de Los Lobos, Wilmer Chavarría Barré, conhecido como Pipo, em Málaga, Espanha, em meados de novembro de 2025. Na plataforma X, Reimberg e o comandante da Polícia Nacional do Equador, Pablo Maldonado, confirmaram que a prisão foi resultado de um “trabalho coordenado” entre as autoridades dos dois países.
“O criminoso que fingiu sua morte, mudou de identidade e se escondeu na Europa, enquanto ordenava assassinatos no Equador, controlava operações de mineração ilegal e coordenava rotas de drogas junto com o Cartel Jalisco Nova Geração”, disse Noboa.
Em outubro, logo após a grande ofensiva militar contra a mineração ilegal, como represália, ataques explosivos danificaram pontes e foram seguidos por um carro-bomba em Guayaquil, matando uma pessoa e ferindo outras. O presidente Noboa e outras autoridades atribuíram esses atos diretamente às “máfias da mineração ilegal”.
Luis Alejandro Vázquez Reina, advogado especializado em direito constitucional e penal com sede em Ibarra, província de Imbabura, destacou que a mineração ilegal não apenas destrói o meio ambiente, mas também traz consequências graves para as comunidades locais, incluindo insegurança, prostituição forçada e aumento da violência, impedindo os cidadãos de desfrutar dos espaços naturais.
Para María Eulalia Silva, presidente executiva da Câmara de Mineração do Equador, a mineração ilegal deve ser combatida regionalmente, pois o crime organizado opera sem fronteiras, disse ela à Bnamericas. Ela enfatizou a necessidade de ações conjuntas para padronizar regulamentações, fortalecer o controle territorial e incentivar a mineração industrial que gera empregos legais. Sem uma resposta abrangente, alertou ela, os mineradores ilegais poderiam retornar às áreas afetadas, colocando em risco projetos de concessão e ecossistemas estratégicos.
“A coordenação interinstitucional é essencial, envolvendo não apenas o poder executivo, mas também o judiciário, as agências reguladoras e as autoridades locais”, disse Silva.
Apoio e cooperação internacional
A luta contra o crime organizado e a mineração ilegal tem recebido um apoio internacional significativo, particularmente dos Estados Unidos. Nos últimos meses, autoridades americanas comprometeram quase US$ 20 milhões em ajuda, incluindo equipamentos tecnológicos, como drones para a Marinha equatoriana, para ajudar a monitorar rotas de drogas e outras atividades ilegais. O apoio também se concentra em fornecer assistência técnica para a aplicação da lei, fortalecer os esforços anticorrupção e combater a lavagem de dinheiro — um mecanismo fundamental para o processamento de rendimentos ilegais do ouro.
Além disso, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aprovou um grande empréstimo para apoiar as iniciativas de segurança do Equador, com foco no fortalecimento da transparência financeira e no combate à alta criminalidade e às áreas afetadas pela mineração ilegal.
O sucesso das ofensivas militares, afirmam os especialistas, dependerá muito da coordenação sustentada do Poder Executivo, do Judiciário, das agências reguladoras e da parceria internacional contínua.



