A mineração ilegal consolidou-se como um desafio crítico para a segurança nacional e o controle territorial no Peru. Além de seu impacto devastador em termos ambientais, esse fenômeno também alimenta economias criminosas, fomenta a violência e enfraquece as estruturas institucionais do país.
Diante dessa crescente complexidade, o Estado peruano intensificou sua resposta, intervindo em toda a cadeia ilícita, ao mesmo tempo em que reforça a cooperação internacional com aliados como os Estados Unidos. Essa cooperação tem como objetivo reforçar as capacidades do Estado de detecção, investigação e desarticulação dessas redes.
Impacto da mineração ilegal no Peru: Violência, economia e controle territorial
A mineração ilegal evoluiu até se tornar o motor financeiro mais importante do crime organizado no Peru. Várias agências de notícias indicam que as economias criminosas têm se aproveitado desse setor para estabelecer controles territoriais, vinculando a extração ilícita a esquemas de lavagem de dinheiro e violência.
A Pesquisa Nacional de Percepções sobre Corrupção 2025, da ONG Proética, revela um claro consenso público: 94 por cento dos peruanos identificam uma conexão direta entre narcotráfico, extração ilegal de madeira, corrupção e mineração ilegal, sendo esta última percebida como a atividade mais lucrativa para as redes criminosas.
Os números são alarmantes. Durante o último ano, a mineração ilegal movimentou aproximadamente US$ 12 bilhões, triplicando seu tamanho desde 2023 e concentrando 66 por cento do total das economias ilícitas do país. De acordo com a agência peruana de notícias Andina, os fluxos financeiros gerados por essa atividade já superam os do narcotráfico. Essa mudança foi destacada pelo ex-ministro das Relações Exteriores do Peru, Elmer Schialer, que em julho de 2025 afirmou que a economia ilegal do ouro no Peru era sete vezes maior do que o tráfico de cocaína.
No início de 2026, a crise se espalhou muito além das fronteiras tradicionais de Madre de Dios. Operações de mineração ilegal foram confirmadas em nove regiões, incluindo Amazonas, Cajamarca, Loreto, Huánuco, Pasco, Ucayali, Cusco e Puno, o que tornou essas áreas zonas de conflito criminal. Grandes organizações como La Gota Norteña, La Gran Alianza Los Parqueros, Los Pulpos e o Tren de Aragua lutam pelo controle estratégico. Essas disputas resultaram em mortes, apreensão de armas de guerra e até mesmo no uso de infraestrutura estatal cooptada por redes criminosas.
O nexo geopolítico: Sindicatos brasileiros e atores estatais externos
A participação de atores externos transformou um problema interno em uma crise de segurança regional. Relatórios de inteligência do final de 2025 confirmam que as organizações criminosas mais poderosas do Brasil – o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) – integraram a Amazônia peruana em seus corredores logísticos. Esses grupos utilizam o ouro ilegal para lavar os rendimentos da cocaína, fornecendo aos garimpeiros armas de fogo e equipamentos de alta tecnologia, como os sistemas Starlink, para evitar a detecção pelo Estado.
Além disso, uma ameaça estratégica importante vem da “demanda opaca” vinculada a interesses estatais externos. Relatórios do Observatório de Conflitos Mineiros da América Latina (OCMAL) indicam que as exportações de concentrados de ouro para a China dispararam, atingindo quase US$ 1 bilhão apenas no início de 2025.
Analistas alertam que as redes criminosas chinesas, incluindo a máfia de Fujian, facilitam a industrialização de minas ilegais, usando portos locais como centros logísticos para transportar ouro que é impossível de rastrear para os mercados asiáticos.
“Esses atores […] avançaram para a cobrança de extorsões e o controle de cadeias econômicas associadas ao ouro”, explicou à Diálogo o acadêmico Juan Liendo, do Colégio de Guerra do Exército Peruano. “Em alguns casos, eles vinculam a mineração a outras atividades ilícitas, como o narcotráfico, consolidando estruturas complexas, que transcendem fronteiras e modificam as dinâmicas locais de produção e comércio.”
Além disso, ele alertou que essas dinâmicas estão reconfigurando lideranças e rotas do crime organizado, adaptando as cadeias de exportação e comercialização do ouro a fatores regionais e globais.
Resposta do Estado: Operações, legislação e sanções
O Estado peruano intensificou sua resposta por meio de operações de interdição e reformas legais. Entre 2024 e 2025, foram interpostos acampamentos, máquinas e motores utilizados na mineração ilegal, enquanto o Ministério Público Especializado em Matéria Ambiental obteve condenações por crimes como mineração ilegal agravada e tráfico de insumos, segundo Andina.
Um avanço fundamental foi a promulgação do Decreto Legislativo nº 1695, de janeiro de 2025. Essa norma endurece as sanções, elevando as penas de prisão de seis para nove anos, e inclui novas medidas contra o tráfico e a comercialização de minerais ilícitos. Também amplia as competências para investigar crimes de lavagem de dinheiro e crime organizado, incorpora multas específicas para quem traficar insumos químicos e maquinário e restringe o acesso a concessões minerárias a pessoas vinculadas a atividades ilegais.
Segundo Liendo, “para que um marco normativo tenha efeitos reais e sustentados, é preciso fortalecer as instituições. O Peru precisa de capacidades judiciais, policiais e militares robustas. Atualmente, as organizações-chave estão desorganizadas diante desse fenômeno, o que limita severamente a ação dissuasiva de qualquer norma”.
Por sua vez, a Marinha de Guerra do Peru intensificou sua presença na Amazônia, realizando operações de interdição fluvial em rios como Madre de Dios, Tambopata e Urubamba. Durante essas ações, dragas, motores e outros equipamentos utilizados em atividades ilícitas foram destruídos.
Cooperação internacional: Esforço conjunto contra o crime organizado
A cooperação internacional tornou-se um pilar fundamental da estratégia peruana contra a mineração ilegal. De acordo com Infobae, a colaboração com os Estados Unidos tem se concentrado em intercâmbio de informações, assistência técnica e ações coordenadas para enfraquecer pontos críticos dessa economia ilícita, como o controle de insumos e fluxos financeiros.
Um exemplo desse esforço conjunto foi a apreensão de cerca de 4 toneladas de mercúrio destinadas à mineração ilegal, realizada em 2025, por meio da coordenação entre agências peruanas e norte-americanas, informou Noticias Ambientales.
Além disso, instrumentos bilaterais como o memorando de entendimento sobre minerais críticos, assinado em 4 de fevereiro de 2026, priorizam a transferência de tecnologia, a exploração e o fortalecimento da governança no setor de mineração. Embora o memorando se concentre nos minerais essenciais para a transição energética, ele inclui explicitamente o ouro como um foco “crítico” para a segurança e a rastreabilidade da cadeia de abastecimento, com o objetivo de desvincular o ouro ilegal do mercado mundial.
Paralelamente, o Peru participa da plataforma SERVIR-Amazônia, uma iniciativa conjunta com a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA), que utiliza dados de satélite para detectar em tempo real atividades ilegais e o desmatamento associado. Essa ferramenta permite priorizar intervenções e melhorar a coordenação entre instituições.
Liendo destacou que, no âmbito do 200º aniversário das relações diplomáticas entre os dois países, “embora Washington apoie o país, para maximizar essa cooperação, o Estado peruano deve garantir uma direção política eficiente e uma institucionalidade sólida”.
“Nenhum outro país mantém esse tipo de relação nem oferece apoio comparável ao Peru nessa questão”, afirmou Liendo. “As Forças Armadas, por sua estrutura hierárquica e formação internacional, podem contribuir de forma eficaz, se contarem com o apoio político e um marco legal adequado.”
Paralelamente, a resposta peruana também se articula com os países andinos, por meio de mecanismos regionais que reforçam o intercâmbio de informações e a investigação transfronteiriça. Em outubro de 2025, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru avançaram em um Plano de Ação 2025-2030, para coordenar análises técnicas e respostas conjuntas em zonas fronteiriças afetadas pela mineração ilegal, informou o Ministério das Relações Exteriores do Peru.
Formalização: Um caminho para a sustentabilidade
A formalização da mineração no Peru surge como uma solução de longo prazo para erradicar o mercado ilegal de ouro. Segundo Liendo, toda a atividade mineradora deve ser legal e estar sob o controle do Estado, desde a extração, até o processamento em plantas regulamentadas. Isso não significa que o Estado seja proprietário, mas que trabalhe com aliados estratégicos para garantir a rastreabilidade.
Liendo ressaltou que, se os mineradores legais tiverem acesso a mercados seguros e preços regulados, será possível implementar programas de formalização que incluam padrões trabalhistas, de segurança e ambientais. Caso contrário, grande parte do ouro continuará sendo canalizada para mercados ilícitos internacionais, perpetuando o contrabando e a influência de redes criminosas.
O desafio para o Peru é monumental, mas as ações coordenadas entre o Estado, a cooperação internacional e os atores regionais representam um passo crucial para desarticular as redes criminosas que operam em torno da mineração ilegal, a fim de devolver o controle do território ao país.



