Guatemala fortalece segurança nas fronteiras com inteligência e cooperação

A Guatemala está reconfigurando sua segurança nas fronteiras para passar de controles generalizados a um modelo baseado em inteligência, gestão de riscos e coordenação interinstitucional. O objetivo é antecipar as operações das redes criminosas transnacionais e impedir seu avanço antes que consolidem novos corredores no país.

A estratégia busca integrar as capacidades do Estado para compartilhar informações, identificar padrões de risco e direcionar recursos para pessoas, cargas e operações que apresentem maiores sinais de alerta.

“Avançar para um modelo baseado em inteligência nos dá maior amplitude, permite conhecer melhor o importador e o exportador, compreender os fenômenos que estão nos afetando em nível nacional e concentrar nossos esforços onde existe maior risco”, disse ao Diálogo Víctor Hugo Cruz, vice-ministro de Antinarcóticos e Segurança Fronteiriça da Guatemala.

A mudança responde a uma realidade na qual as ameaças já não permanecem confinadas a apenas um lado da fronteira. As organizações criminosas são dinâmicas e operam por meio de redes flexíveis, capazes de modificar rotas e métodos quando as autoridades interrompem um corredor ou reforçam a segurança em uma área.

O desafio, portanto, é transformar a informação em uma vantagem operacional que permita detectar esses movimentos e responder antes que as organizações criminosas ampliem suas atividades. “A inteligência nos ajuda a evitar inspeções desnecessárias e a concentrar nossos esforços naqueles que buscam utilizar e contaminar as cadeias logísticas com atividades ilícitas”, acrescentou Cruz.

Da presença nas fronteiras à inteligência e coordenação

A arquitetura de segurança se apoia na articulação das capacidades da Polícia Nacional Civil (PNC), das Forças Armadas, da Superintendência de Administração Tributária (SAT) e de outras instituições vinculadas ao controle das fronteiras. O objetivo é reduzir os espaços que as organizações criminosas podem explorar entre instituições, jurisdições e pontos de entrada.

O intercâmbio de informações é um dos componentes centrais. Em fevereiro de 2026, o Ministério do Interior  reuniu várias instituições para fortalecer a coordenação nas fronteiras e estabelecer mecanismos mais ágeis de intercâmbio. “Nosso objetivo é articular respostas conjuntas diante de organizações criminosas transnacionais ligadas ao narcotráfico, ao tráfico de pessoas, ao contrabando e a outros crimes”, ressaltou Cruz.

Um desses mecanismos é a Força-Tarefa para a Facilitação do Comércio (FTFC), criada em 2024 por meio de um acordo interinstitucional entre a SAT e os ministérios de Governo, Agricultura e Defesa. Segundo Cruz, dependendo do ponto de entrada, outras instituições, como o Instituto Guatemalteco de Migração, também participam da coordenação. O esquema permite compartilhar informações, emitir alertas, traçar perfis de contêineres e coordenar inspeções de acordo com o nível de risco.

Santo Tomás de Castilla, um dos principais portos do país, ilustra esse enfoque. Ali, as instituições coordenam a análise de risco e as inspeções para identificar as cargas que exigem maior escrutínio e reduzir controles duplicados sobre o comércio legítimo.

Antes, um contêiner podia ser inspecionado duas ou três vezes por diferentes instituições. Agora, as entidades compartilham informações e coordenam uma única inspeção quando necessário. “As competências de cada instituição não se perdem; cada uma mantém suas funções, mas, no nível operacional, trabalhamos com mecanismos de comunicação que permitem atuar conjuntamente”, explicou Cruz.

A estratégia também se estende às passagens terrestres. Em março de 2026, o Ministério de Governo e a SAT inauguraram uma unidade da Diretoria Antinarcóticos e Segurança Fronteiriça (DASF) em Tecún Umán, San Marcos, um dos principais pontos de intercâmbio comercial entre a Guatemala e o México, para fortalecer o controle das fronteiras e combater o narcotráfico, o contrabando e outros crimes transnacionais.

O fator tecnológico

A tecnologia amplia essas capacidades ao permitir inspecionar cargas, analisar riscos e detectar ameaças com maior precisão.

A Guatemala incorporou equipamentos portáteis de raios X e sistemas de inspeção não intrusiva em alfândegas marítimas e aéreas e em postos de controle rodoviário. Essas ferramentas permitem examinar cargas e contêineres sem abri-los e, combinadas com a análise de risco e a inteligência, direcionar recursos para alvos de maior interesse.

“As imagens são analisadas por equipes de diferentes instituições, o que permite determinar se uma carga exige uma inspeção física e realizar inspeções mais eficientes, rápidas e objetivas”, explicou Cruz.

A inteligência artificial também começa a ser incorporada a esses processos. Segundo o Ministério de Governo, alguns portos já utilizam essas ferramentas para otimizar processos logísticos. Somam-se a isso capacidades de análise especializada para centralizar informações e identificar substâncias ilícitas e precursores.

Entre novembro de 2024 e abril de 2025, a Guatemala informou a apreensão de mais de uma tonelada de precursores de fentanil, um indício de que o controle das fronteiras deve detectar não apenas as drogas prontas, mas também os insumos utilizados para produzi-las.

Inteligência além das fronteiras

O modelo guatemalteco também se estende ao âmbito regional por meio de inteligência, alertas antecipados e mecanismos de coordenação com os países vizinhos.

“A Guatemala não pode ser vista como um ator isolado da segurança regional”, afirmou Cruz, que destacou que, nos últimos anos, o país fortaleceu acordos bilaterais para agilizar o intercâmbio de informações entre agências de segurança.

Na fronteira com o México, o rio Suchiate concentra parte desses esforços. A deterioração da segurança impulsionou a vigilância e o intercâmbio de informações para antecipar deslocamentos criminosos, com o apoio do Grupo de Alto Nível de Segurança, que articula as autoridades dos dois países.

A mesma lógica é aplicada nas fronteiras com Honduras e El Salvador, onde a Guatemala opera uma força-tarefa coordenada pelos ministérios da Defesa e de Governo.

Com Honduras, a coordenação se intensificou em 2026 após relatos de confrontos armados em Trujillo, Corinto e Omoa, com maior intercâmbio de informações e operações conjuntas para antecipar possíveis deslocamentos criminosos em direção ao território guatemalteco.

Esses mecanismos são complementados pela participação da Guatemala no Sistema da Integração Centro-Americana (SICA) e em outros fóruns regionais, nos quais os países compartilham informações, estratégias e boas práticas diante de ameaças transnacionais.

O resultado aponta para um modelo menos centrado em fronteiras isoladas e mais orientado para um perímetro regional de informação, coordenação e resposta.

Cooperação com os Estados Unidos

Os Estados Unidos ocupam um papel importante no fortalecimento dessas capacidades. “Os Estados Unidos têm sido um parceiro muito importante e sua presença em diferentes países da região também contribui para que essa comunicação flua. Isso nos permite manter intercâmbios não apenas com nossos vizinhos, como México, Honduras e El Salvador, mas também com parceiros importantes, como Colômbia e Panamá”, afirmou Cruz.

No âmbito operacional, a cooperação se traduziu em um Programa Conjunto de Segurança para detectar e prevenir ameaças transnacionais, inicialmente no Aeroporto Internacional La Aurora, com previsão de expansão para outros pontos de fronteira. O programa busca fortalecer a identificação, o controle e a capacidade de resposta diante de ameaças transnacionais por meio do intercâmbio de informações e da cooperação entre as autoridades guatemaltecas e o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP).

O apoio também se estende aos portos. Em maio de 2026, a Guatemala e os Estados Unidos inauguraram, em Puerto Quetzal, novas instalações para unidades caninas K-9, com o apoio do Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e e Aplicação da Lei (INL) do Departamento de Estado dos EUA. Segundo dados oficiais, a iniciativa, coordenada com a FTFC, havia contribuído, até então, para a apreensão de 5.200 quilogramas de cocaína em 2026 em Puerto Quetzal.

Em junho de 2026, o presidente Bernardo Arévalo e Almirante de Esquadra Francis L. Donovan, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), abordaram o fortalecimento da cooperação bilateral contra o narcotráfico e o crime organizado transnacional, bem como os compromissos compartilhados no âmbito da Coalizão contra os Cartéis das Américas.

“Nosso país demonstrou que não está disposto a ceder suas fronteiras, suas instituições e seu futuro ao crime organizado”, afirmou Arévalo, que agradeceu o apoio dos Estados Unidos aos esforços de segurança da Guatemala.

Rumo a uma segurança regional conectada

A transformação da Guatemala reflete uma tendência mais ampla na segurança das fronteiras do hemisfério, na qual inteligência, tecnologia e operações são integradas para responder a organizações criminosas que atuam de maneira transnacional.

O desafio é transformar essa integração em uma vantagem operacional. As organizações criminosas podem deslocar rapidamente suas operações e recursos ilícitos entre países, enquanto as autoridades precisam compartilhar informações com a mesma rapidez.

“Em nossa região, temos voos de 30 minutos, 45 minutos ou poucas horas entre os países. Se sabemos que existe uma pessoa de interesse, precisamos ter a capacidade de comunicar essa informação em tempo hábil”, explicou Cruz.

À medida que o crime transnacional se adapta, a segurança nas fronteiras dependerá menos do emprego isolado de agentes e mais da capacidade de conectar inteligência, tecnologia e operações. A Guatemala busca transformar a cooperação regional em ferramentas para compartilhar alertas, antecipar movimentos criminosos e acelerar a resposta.

Sob esse enfoque, as fronteiras deixam de funcionar como pontos de controle independentes e passam a fazer parte de um sistema regional de segurança conectado, no qual as informações obtidas em um porto, aeroporto, passagem terrestre ou país vizinho podem contribuir para orientar uma operação em outro ponto.

“As redes criminosas são dinâmicas e ágeis para se comunicar; os governos também devemos ser”, concluiu Cruz.

Gostou deste artigo?

Artigos salvos

Os artigos salvos ficam armazenados apenas neste navegador. Limpar os dados de navegação os remove.