A rápida expansão da mineração ilegal de ouro na Amazônia peruana e nas regiões de fronteira está remodelando a dinâmica do crime em todo o país, à medida que redes tradicionalmente ligadas à produção de coca no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM) e em outras regiões investem cada vez mais capital e mão de obra em operações de mineração ilícita.
Os altos preços globais do ouro, a facilidade com que o ouro de origem ilícita pode ser inserido nos mercados legais e os desafios da fiscalização em vastos territórios amazônicos aceleraram o crescimento da mineração ilegal de ouro. O Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), com base em imagens de satélite, constatou que o desmatamento acumulado relacionado à mineração de ouro havia atingido 139.169 hectares em nove regiões peruanas até meados de 2025. À medida que a mineração ilegal de ouro se expande, elase consolida como uma das maiores economias criminosas do Peru e, segundo algumas estimativas, já supera o tráfico de drogas em termos financeiros.
A expansão da mineração ilegal tem sido particularmente acentuada nas regiões amazônicas do Peru, onde os depósitos aluviais são mais fáceis e menos onerosos de explorar do que os depósitos de rocha dura nos Andes. Segundo o professor Ricardo Soberón, ex-diretor do Centro de Pesquisa sobre Drogas e Direitos Humanos (CIDDH), “nos Andes, é preciso remover 10 toneladas de terra para extrair 10 gramas de ouro. Nas selvas e nos rios, são necessárias 3 toneladas de terra para obter o mesmo rendimento”.
Redes criminosas inter-regionais
O avanço da mineração ilegal de ouro está criando novas redes criminosas inter-regionais, à medida que organizações tradicionalmente associadas à produção de coca diversificam seus investimentos. Segundo o Dr. César Ipenza Peralta, da Universidade do Pacífico, “muitas pessoas da VRAEM migraram para diferentes regiões do país… muitos traficantes de drogas veem nisso uma oportunidade”, já que o ouro pode ser inserido nos mercados legais com maior facilidade.
Ele acrescenta: “muitos traficantes de drogas que estavam associados ao VRAEM e operavam em áreas distantes ou próximas ao VRAEM estão hoje ligados à mineração ilegal… Por exemplo, traficantes de drogas do VRAEM que atuavam em Puerto Inca, em Huánuco, outro departamento da Amazônia Central, hoje se dedicam à mineração ilegal.”
As estruturas criminosas do Peru consistem, em geral, em redes locais descentralizadas, e não em estruturas hierárquicas de alcance nacional como ocorre em outras partes da região, com grupos como o Exército de Libertação Nacional (ELN) da Colômbia, facções dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Clã do Golfo. “Nunca tivemos um cartel no Peru, e não contamos com um grupo estruturado que controle todo o país; em vez disso, alianças entre grupos fornecem insumos necessários às operações”, observou o Dr. Peralta.
Em vez de buscar controle territorial em várias regiões, as estruturas criminosas peruanas estão se integrando cada vez mais por meio de investimentos financeiros e alianças operacionais, lavando os lucros da produção de coca no VRAEM por meio da mineração ilegal na Amazônia. A expansão é econômica, e não territorial.
Em áreas onde coexistem a mineração de ouro e a produção de coca, as duas economias ilícitas compartilham cada vez mais cadeias de abastecimento, redes logísticas, rotas de transporte e intermediários locais. Segundo Soberón, “os capitais provenientes da cocaína que chegam ao Peru são facilmente investidos na compra de maquinário e suprimentos para a atividade aurífera… as duas indústrias compartilham logística, compartilham suprimentos, compartilham território, compartilham atores sociais, compartilham rotas de saída”.
Lavagem de dinheiro
A mineração ilegal de ouro tornou-se particularmente atraente para produtores de coca e traficantes de drogas, pois oferece um mecanismo eficaz para a lavagem de recursos ilícitos. Uma vez extraído, o ouro é difícil de rastrear, pode assumir diferentes formas e não pode ser distinguido nos mercados internacionais com base em sua origem — seja ela legal ou ilegal.
Segundo Soberón, “é muito simples: assim que a rocha é levada às usinas de processamento localizadas no litoral do Peru, o ouro resultante já é considerado legal. Não há como impedir que ele entre no mercado como uma exportação tradicional.”
O valor do ouro também pode ser manipulado por meio da classificação incorreta de sua pureza ou forma, permitindo que organizações criminosas ocultem lucros ilícitos por meio de transações comerciais aparentemente legítimas. Uma investigação realizada pelo veículo de investigação peruano Ojo Público documentou cadeias de abastecimento que dependiam de documentação falsificada para disfarçar a origem e o valor de produtos de ouro extraídos ilegalmente. Uma vez lavado e inserido nas cadeias de abastecimento legais, o metal pode ser exportado para mercados internacionais, incluindo a China, um dos maiores importadores e processadores de ouro do mundo, o que dificulta a identificação de sua origem ilícita.
A dimensão desses fluxos financeiros ilícitos transformou a mineração ilegal em um dos principais mecanismos de lavagem de dinheiro do Peru. De acordo com a Unidade de Inteligência Financeira (UIF) do Peru, 55 por cento das transações financeiras suspeitas relacionadas a crimes antecedentes entre janeiro de 2015 e junho de 2025 estavam associadas à mineração ilegal.
Os desafios da fiscalização
O governo peruano enfrenta um desafio complexo ao lidar com a convergência do tráfico de drogas e da mineração ilegal de ouro. O extenso sistema fluvial amazônico do país se estende por milhares de quilômetros, tornando a vigilância e a fiscalização contínuas operacionalmente complexas e altamente demandantes em termos de recursos.
De 2015 a 2019, o Peru mobilizou policiais e militares para postos de controle florestal em toda a região de Madre de Dios, com o objetivo de fortalecer a presença do Estado nas principais áreas de mineração. No entanto, manter esses postos remotos mostrou-se oneroso e logisticamente desafiador, enquanto apenas uma pequena parcela da rede fluvial da região pôde ser monitorada de forma eficaz.
Com base nesses esforços, o governo lançou a Operação Mercúrio em 2019, reunindo as Forças Armadas, a Polícia Nacional, o Ministério Público e autoridades ambientais em uma campanha sustentada para desmantelar acampamentos de mineração ilegal em La Pampa. Embora a operação tenha reduzido significativamente a mineração ilegal na área imediata, os grupos criminosos se adaptaram, transferindo suas atividades para outras localidades remotas e áreas protegidas. Mais recentemente, no início de 2026, as autoridades peruanas realizaram operações conjuntas entre militares e policiais para combater a retomada das atividades de mineração ilegal na Reserva Nacional de Tambopata e em seus arredores, evidenciando tanto os esforços contínuos do governo quanto a capacidade de adaptação das redes criminosas.
A fiscalização é ainda mais complicada pelas fronteiras pouco definidas entre a mineração ilegal, as operações legalizadas e a mineração artesanal. Alguns operadores participam simultaneamente de atividades legais e ilegais, enquanto a legalidade do ouro extraído depende frequentemente da documentação e das licenças, e não do processo de extração em si. Esses sistemas sobrepostos dificultam que as autoridades determinem a situação legal das operações de mineração durante as inspeções e criam oportunidades para que organizações criminosas integrem ouro de origem ilícita às cadeias de abastecimento legítimas.
Para as forças de segurança peruanas, o desafio já não é apenas combater o narcotráfico ou a mineração ilegal como crimes isolados. Cada vez mais, os mesmos atores criminosos financiam, transportam e protegem ambas as atividades. Desmantelar essas redes interconectadas exigirá compartilhamento contínuo de inteligência, coordenação entre diferentes órgãos e cooperação permanente com parceiros regionais para impedir que organizações criminosas transnacionais diversifiquem e ampliem suas operações ilícitas.



