O Chile está fortalecendo uma rede crescente de alianças regionais e internacionais para combater o avanço do crime organizado transnacional. Por meio de acordos de cooperação com os Estados Unidos, mecanismos conjuntos com a Argentina e a Bolívia e iniciativas mais amplas de coordenação com países vizinhos, Santiago busca fortalecer as capacidades de inteligência, investigação e operação necessárias para enfrentar organizações criminosas que atuam além das fronteiras nacionais.
O esforço reflete uma realidade cada vez mais evidente na região. Os grupos criminosos já não operam dentro de jurisdições nacionais isoladas. Em vez disso, apoiam-se em corredores logísticos transfronteiriços, fluxos financeiros ilícitos, rotas migratórias e estruturas descentralizadas que exigem respostas coordenadas entre as instituições de segurança.
A estratégia chilena se desenvolve em um contexto de mudanças no ambiente de segurança do país. O Radiograma da Segurança no Chile 2025, elaborado pelo Instituto de Políticas Públicas da Universidade Andrés Bello, documenta o aumento de homicídios e sequestros, que continuam pressionando as instituições de segurança.
Ao mesmo tempo, o Índice Global de Crime Organizado 2025 alertou que organizações criminosas como o Tren de Aragua ampliaram sua presença no Chile, por meio de atividades ligadas ao tráfico de drogas, ao tráfico de pessoas e a outras economias ilícitas. Segundo o jornal espanhol El País, o grupo já atua em 14 das 16 regiões do país.
O acordo com os Estados Unidos
Um dos pilares da estratégia chilena tem sido o fortalecimento da cooperação em segurança com parceiros internacionais.
Em abril de 2026, o Chile reforçou sua relação de segurança com os Estados Unidos por meio de um acordo que prevê um investimento de R$ 5,16 milhões para apoiar instituições chilenas envolvidas no combate ao crime organizado, com assistência do FBI, a Polícia Federal americana e do Departamento de Estado dos EUA. A iniciativa visa fortalecer capacidades relacionadas à investigação financeira, ao combate à lavagem de dinheiro, aos crimes cibernéticos e ao desmantelamento de redes criminosas.
Para Guillermo Holzmann, analista político e consultor internacional da Universidade de Valparaíso, esse tipo de cooperação reflete a necessidade de adaptar as instituições diante de organizações criminosas cada vez mais sofisticadas.
“Os países com uma estrutura institucional mais sólida, como o Chile, buscam fortalecer a inteligência criminal, o trabalho do Ministério Público e a capacidade das polícias”, disse à Diálogo. Esses esforços, acrescentou, tendem a produzir melhores resultados quando combinados com a cooperação entre países vizinhos.
Segundo ele, essa cooperação não pode ser construída apenas por meio de acordos políticos.
“A interação entre instituições como o Ministério Público e a Polícia com seus pares de outros países gera os espaços de confiança necessários. É impossível estabelecer cooperação e inteligência sem que haja confiança”, afirmou.
Em sua opinião, a continuidade dessas relações institucionais é o que permite sustentar uma cooperação eficaz ao longo do tempo e responder com maior eficiência às organizações criminosas que operam em múltiplas jurisdições.
Fortalecendo a coordenação fronteiriça
A estratégia chilena também se reflete cada vez mais na coordenação operacional com os países vizinhos.
Em março de 2026, Argentina, Bolívia e Chile avançaram na criação de uma força-tarefa conjunta destinada a coordenar os esforços de segurança contra organizações criminosas que operam ao longo de suas fronteiras comuns, informou o Ministério da Segurança Pública do Chile. O mecanismo prevê o intercâmbio de inteligência, a coordenação operacional e ações conjuntas para identificar e desmantelar redes de tráfico de drogas, tráfico de pessoas e contrabando.
Segundo a ADN Radio, a iniciativa busca impedir que as organizações criminosas continuem explorando as diferenças jurisdicionais e as zonas fronteiriças remotas para sustentar atividades ilícitas.
Holzmann vê um potencial importante na iniciativa, mas adverte que uma maior integração regional reforçaria sua eficácia.
“A formação da força-tarefa deveria ser integrada em nível bilateral ou regional”, afirmou, alertando que “a eficácia desses mecanismos depende de uma maior compatibilidade entre as legislações nacionais para reduzir os espaços de impunidade explorados pelas organizações criminosas”.
O desafio, acrescentou, é que o crime organizado se adapta constantemente.
“O modelo de negócios do crime organizado vem se aperfeiçoando. Quando a cooperação entre os países começa a se tornar efetiva, essas organizações encontram novas formas de utilizar passagens não habilitadas”, explicou.
À medida que os governos fortalecem a coordenação, os grupos criminosos continuam ajustando rotas, métodos e estruturas logísticas para driblar os controles e manter sua liberdade de ação.
Uma resposta de toda a região
O que começou como uma cooperação bilateral e trilateral está adquirindo uma dimensão cada vez mais regional.
Em maio de 2026, o Chile liderou a assinatura do Compromisso Regional de Santiago junto com a Argentina, a Bolívia, o Equador e o Peru, uma iniciativa voltada a reforçar o intercâmbio de inteligência, a cooperação judicial e as ações coordenadas contra organizações criminosas que atuam em vários países.
A participação do Chile na Coalizão das Américas contra os Cartéis amplia ainda mais essa cooperação em nível hemisférico. Ao reunir países parceiros para fortalecer a coordenação, o compartilhamento de informações e a cooperação operacional no combate aos cartéis e às organizações narcoterroristas, a iniciativa complementa as parcerias regionais do Chile e reforça os esforços coletivos para desarticular as redes criminosas que operam além das fronteiras nacionais.
O Ministério das Relações Exteriores do Chile destacou que as ameaças transnacionais exigem uma resposta articulada com ênfase em inteligência financeira, rastreamento de fluxos ilícitos, controle migratório e coordenação fronteiriça.
Essas iniciativas refletem um reconhecimento crescente de que as organizações criminosas funcionam cada vez mais como redes regionais e, portanto, exigem respostas igualmente articuladas entre governos, órgãos de segurança, promotorias e serviços de inteligência.
Holzmann sustenta que, sem esse nível de coordenação, mesmo investimentos significativos e apoio externo terão um impacto limitado.
“Tudo isso, que é muito relevante, não tem o impacto desejado se não houver cooperação inter-regional”, afirmou.
Essa visão também esteve presente em 28 de maio, quando autoridades de segurança e ministros das Relações Exteriores de cinco países sul-americanos se reuniram em Santiago para uma cúpula internacional centrada no crime organizado. Os participantes concordaram que nenhuma nação pode enfrentar sozinha o tráfico de drogas, o tráfico de pessoas, a lavagem de dinheiro e outras atividades criminosas transnacionais.
Para Holzmann, a capacidade de antecipação continua sendo um dos elementos mais importantes da resposta.
“A inteligência criminal é fundamental porque é a única possibilidade que temos de antecipar os movimentos do crime organizado”, destacou.
Ele também alertou para outro desafio enfrentado pelos governos da região.
“Um dos efeitos mais complexos é o aumento significativo de uma corrupção cada vez mais sofisticada e a perda de confiança institucional dentro do Estado”, advertiu.
Para o Chile e seus parceiros regionais, o crime organizado transnacional reforçou a importância de uma cooperação sustentada entre as instituições de segurança. Por meio do intercâmbio de inteligência, de mecanismos conjuntos e de uma maior coordenação regional, os países estão ampliando sua capacidade de identificar ameaças, desmantelar redes criminosas e fortalecer a segurança além das fronteiras. À medida que as organizações criminosas continuam se adaptando, essas alianças oferecem uma base cada vez mais sólida para uma resposta regional mais coordenada.



