Escudo das Américas busca conter o avanço das redes criminosas transnacionais

As organizações criminosas se aproveitam das fronteiras para transportar drogas, armas, dinheiro e pessoas, estabelecer redes de apoio e deslocar suas operações quando aumenta a pressão das autoridades. Enquanto essas estruturas atuam em vários países, as forças de segurança e os órgãos do sistema de Justiça precisam operar dentro de suas respectivas jurisdições. Superar essa limitação é um dos principais objetivos do Escudo das Américas.

Quinze governos participantes da iniciativa concordaram em coordenar medidas contra 24 organizações criminosas e armadas que atuam no hemisfério. Entre elas estão os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração; a gangue Mara Salvatrucha (MS-13); os grupos colombianos Exército de Libertação Nacional (ELN) e Clã do Golfo; o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil; o Tren de Aragua (TdA), de origem venezuelana; Los Lobos e Los Choneros, do Equador; e a organização haitiana Viv Ansanm.

“Essas organizações não atuam de forma isolada, mas por meio de estruturas empresariais e redes que atravessam fronteiras. É uma realidade que vemos todos os dias”, disse ao Diálogo o Contra-Almirante Jaime Leonardo Montañez Torres, chefe da Chefia de Operações Navais da Marinha da Colômbia e ex-diretor da Diretoria Contra as Drogas.

A Declaração Conjunta sobre a Defesa da Soberania Hemisférica, assinada em 22 de setembro, em Nova York, estabelece três pilares de cooperação: econômico, de segurança e de coordenação multilateral. Como primeira ação conjunta, os governos manifestaram a intenção de adotar medidas que incluem o congelamento de ativos, restrições migratórias e de vistos, além de medidas penais contra aqueles que forneçam deliberadamente apoio material ou logístico às organizações identificadas, de acordo com a legislação e as obrigações internacionais de cada país.

O objetivo é aumentar a pressão não apenas sobre os integrantes desses grupos, mas também sobre as redes financeiras e logísticas que lhes permitem operar além das fronteiras de seus países de origem.

Agentes da Polícia Nacional do Equador inspecionam cerca de 1,6 tonelada de cocaína apreendida em 8 de outubro de 2026, no porto de Guayaquil. A droga estava escondida em máquinas industriais dentro de um contêiner com destino ao México. (Foto: Ministro do Interior do Equador, John Reimberg Oviedo/X)

Combater as redes criminosas

O narcotráfico continua sendo uma importante fonte de receita para muitas organizações criminosas, mas suas atividades se diversificaram, conectando diferentes economias ilícitas e ampliando suas redes de apoio.

“O narcotráfico continua sendo o principal negócio, mas as organizações aprenderam a não depender de uma única atividade. Hoje, combinam a cadeia da cocaína com a mineração ilegal, o tráfico de migrantes, o contrabando, o tráfico de armas e a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, utilizando as mesmas rotas e modalidades”, afirmou o C Alte Montañez.

O ouro de origem ilegal ilustra essa dimensão transnacional. Extraído em áreas remotas ou de fronteira, pode atravessar vários países antes de entrar no mercado formal, dificultando o rastreamento de sua origem. Na fronteira entre Brasil e Venezuela, investigações documentaram a presença do PCC e do TdA em Roraima, onde diferentes economias ilícitas, incluindo a mineração de ouro, alimentam as atividades criminosas.

No Brasil, a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, revelou a sofisticação das estruturas financeiras investigadas por suas ligações com o PCC. As autoridades identificaram o uso de empresas, fundos de investimento e instituições financeiras para supostamente ocultar e lavar recursos ilícitos. A investigação identificou mais de 40 fundos com ativos estimados em R$ 27,93 bilhões.

Esses casos mostram por que a resposta precisa ir além das apreensões e prisões, alcançando também os intermediários, as empresas e os mecanismos financeiros que sustentam as operações criminosas em diferentes países.

As medidas previstas pelo Escudo buscam reduzir essas brechas. O congelamento de ativos pode restringir o acesso a recursos vinculados às organizações; as medidas migratórias podem dificultar o deslocamento de seus integrantes e associados; e as ações contra aqueles que fornecem apoio material ou logístico podem aumentar a pressão sobre os facilitadores dessas atividades.

A coordenação entre os governos é fundamental para identificar essas conexões, compartilhar informações e agir contra as redes criminosas em diferentes jurisdições, respeitando os marcos jurídicos de cada país.

Essa mesma necessidade de coordenação se estende aos portos e às rotas comerciais, onde as organizações criminosas se aproveitam do fluxo internacional de mercadorias para transportar cargas ilícitas.

Para o Vice-Almirante Marco Salinas Haro, coordenador do Centro de Estudos Estratégicos de Guerra Naval (CESMA) da Academia Naval do Equador, trata-se de “uma transformação estrutural do fenômeno criminoso que transformou os portos em plataformas logísticas fundamentais para o narcotráfico transnacional”.

“O salto estratégico está em integrar a consciência do domínio marítimo, a análise de riscos portuários, a inspeção de cargas e a inteligência financeira entre os países participantes do Escudo”, afirmou ao Diálogo.

Uma ameaça que afeta as comunidades

A importância dessa cooperação vai além das cargas de drogas e dos fluxos financeiros. As organizações identificadas na declaração também promovem a violência, disputam territórios e afetam diretamente a vida das comunidades.

No Equador, Los Choneros e Los Lobos ampliaram sua influência por meio da violência, da extorsão e do controle de redes criminosas dentro dos presídios. Na Colômbia, o Clã do Golfo expandiu sua presença territorial. Segundo a Fundação Ideias para a Paz, sua influência passou de 145 municípios, em 2022, para 296, em 2025.

No Haiti, a coalizão Viv Ansanm consolidou sua presença em setores de Porto Príncipe e em outras áreas do país, agravando a crise de segurança que obrigou inúmeras famílias a abandonar suas casas.

Por trás desses números estão as consequências do controle criminoso: estabelecimentos comerciais que fecham, escolas que suspendem suas atividades, famílias deslocadas e comunidades submetidas a ameaças.

Para os países menores, o desafio pode ser especialmente complexo. Durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, a primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad-Bissessar, destacou que as redes criminosas transnacionais representam uma ameaça desproporcional para os pequenos Estados insulares, ao transportar armas, drogas, pessoas e recursos ilícitos através das fronteiras.

Persad-Bissessar também ressaltou a importância da cooperação internacional no enfrentamento das organizações criminosas e a participação de seu país no Escudo das Américas. “Confiamos que essa aliança continuará promovendo a liberdade, a segurança e a prosperidade em nossa região”, afirmou.

Transformar compromissos em ações

A cooperação multilateral já oferece experiências que podem servir de base para novos avanços. A Estratégia Multinacional Orión, liderada pela Marinha da Colômbia, reuniu autoridades de diversos países para coordenar esforços de combate ao narcotráfico marítimo.

“Cada país atua em suas águas, com seus próprios meios e de acordo com suas leis, mas todos trabalhamos com base na mesma premissa. Um alerta gerado em Cartagena pode resultar em uma interceptação na América Central, na África ou na Europa”, explicou o C Alte Montañez.

O Escudo busca ampliar essa lógica de coordenação para medidas financeiras, migratórias, judiciais e diplomáticas. A declaração também prevê a promoção de consultas no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), conhecido como Tratado do Rio, com o objetivo de facilitar possíveis ações coletivas contra as organizações identificadas.

Em uma medida alinhada aos objetivos do Escudo das Américas, a Argentina anunciou, em 21 de outubro, que havia designado cinco organizações criminosas transnacionais como organizações terroristas: o Cartel de Sinaloa e a La Nueva Familia Michoacana, do México; o ELN e as FARC-EP, da Colômbia; e Los Tiguerones, do Equador. A decisão prevê sua inclusão no registro nacional de terrorismo da Argentina, fortalecendo o arcabouço jurídico do país para combater organizações envolvidas no crime transnacional e suas redes financeiras.

Essa coordenação regional também se refletiu em 1º de outubro, quando os 15 governos participantes divulgaram uma nova declaração conjunta de apoio à Bolívia por suas ações contra o narcotráfico e a corrupção. O pronunciamento ocorreu após uma operação na qual as autoridades bolivianas informaram a prisão de 14 pessoas, entre elas o então procurador-geral Roger Mariaca, por seu suposto envolvimento com uma organização criminosa.

A declaração incentivou a Bolívia a dar continuidade às investigações e aos processos judiciais contra essas redes, reafirmando o apoio dos países participantes aos esforços de combate ao narcotráfico e aos seus facilitadores.

“Compartilhar inteligência e coordenar ações conjuntas não significa abrir mão da soberania, mas fortalecer nossa capacidade de exercê-la. A soberania se perde quando uma organização criminosa controla um rio, uma costa ou um porto”, afirmou o C Alte Montañez.

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