Autoridades brasileiras afirmam que redes criminosas envolvidas na mineração ilegal estão adaptando sua logística para transportar o ouro extraído na Amazônia através das fronteiras internacionais, usando cada vez mais o estado de Roraima, no norte do país, como corredor de trânsito para os países vizinhos.
Durante anos, uma das frentes mais visíveis da mineração ilegal no Brasil foi o Território Indígena Yanomami, que abrange partes dos estados de Roraima e Amazonas. Garimpeiros ilegais extraíam ouro lá e o transportavam para outros estados brasileiros, onde ele podia entrar no mercado formal ou ser exportado usando documentação fraudulenta.
“Identificamos uma mudança na rota do ouro. Agora, o ouro extraído em outras áreas do país está sendo enviado para Roraima, e o estado está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, disse o delegado da Polícia Federal (PF), Caio Luchini, à BBC News Brasil.
De acordo com as autoridades, grupos criminosos tentam cada vez mais transportar o metal através das fronteiras do norte do Brasil para países vizinhos, como Venezuela e Guiana, onde ele pode ser integrado aos mercados internacionais.
As autoridades acreditam que o reforço da fiscalização contra a mineração ilegal e a supervisão mais rigorosa do comércio de ouro forçaram os grupos criminosos a modificar suas operações. Nos últimos anos, o Brasil intensificou as investigações, as batidas em acampamentos de mineração e os controles financeiros destinados a impedir que o ouro extraído ilegalmente entre nas cadeias de abastecimento legais. Como resultado, os investigadores afirmam que essas pressões estão levando os traficantes a transportar o metal para o exterior antes que ele possa ser detectado.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) do Brasil sugerem um fluxo crescente de ouro ilícito pelo estado. Entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas rodovias de Roraima aumentou em 368 por cento, de acordo com reportagens da mídia brasileira, citando números da PRF.
“Fizemos diversas apreensões de ouro que vinham do Amazonas e de Rondônia, estados onde existe uma forte presença de garimpos ilegais, além do Pará”, disse o diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida, à BBC News Brasil.
Investigadores afirmam que a geografia do estado o torna atraente para os traficantes. Roraima faz fronteira com a Venezuela e a Guiana e há muito tempo serve como centro logístico para as atividades de mineração na região, inclusive durante os períodos em que a mineração ilegal se expandiu rapidamente dentro do território Yanomami.
O ‘DNA do ouro’
As autoridades brasileiras também estão inserindo novas ferramentas forenses para rastrear a origem do ouro extraído ilegalmente. A iniciativa “Ouro Alvo” da PF usa análises científicas para identificar as assinaturas morfológicas e químicas únicas das amostras de ouro.
O programa analisa fatores como mineralogia, morfologia e composição isotópica, permitindo que os investigadores relacionem o ouro apreendido a regiões mineradoras específicas e danos ambientais na Amazônia.
A tecnologia já foi usada em casos criminais e agora está sendo expandida através da cooperação internacional com outros países da bacia amazônica. Os investigadores pretendem construir um banco de dados regional, que possa ajudar as autoridades a determinar a origem do ouro apreendido além das fronteiras.
Lucrando com a mineração ilegal
A expansão das facções criminosas na região acelerou nos últimos anos. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a presença de grupos criminosos na Amazônia cresceu 32 por cento em um ano. Dos 772 municípios analisados pela organização, no final de 2025, facções criminosas atuavam em 344, em comparação com 260 municípios em 2024. O FBSP estima que pelo menos 17 facções criminosas operam na região amazônica.
Analistas de segurança afirmam que as facções criminosas são atraídas para a atividade, devido aos altos preços globais do ouro, à fraca rastreabilidade no comércio de ouro e à geografia remota da região, que permite que as redes criminosas operem longe dos principais centros de aplicação da lei.
As duas maiores organizações criminosas do Brasil – o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) – expandiram sua influência para partes da Amazônia, onde exploram a mineração ilegal como fonte de receita e forma de lavar dinheiro proveniente de outras atividades criminosas.
Investigações realizadas por autoridades brasileiras e especialistas em segurança indicam que esses grupos raramente controlam diretamente as operações de mineração. Em vez disso, eles tendem a dominar a logística envolvida na mineração ilegal. Em muitas áreas, as facções cobram taxas dos garimpeiros para operar, controlam as rotas fluviais usadas para transportar combustível e equipamentos para os acampamentos de mineração e organizam o transporte do ouro para fora de áreas remotas. Os grupos criminosos também fornecem proteção armada aos lugares de mineração e regulam o acesso às pistas de pouso e corredores fluviais usados para contrabando.
Para grupos como o PCC, a mineração ilegal oferece oportunidades financeiras adicionais. As autoridades afirmam que as redes criminosas podem investir em equipamentos de mineração, operações de transporte e intermediários de comércio de ouro, permitindo-lhes integrar o ouro extraído ilegalmente nos mercados legais e utilizá-lo para lavar os lucros do tráfico de drogas.
Os vastos sistemas fluviais da Amazônia também tornam a mineração ilegal atraente para organizações como o CV, que historicamente controla os corredores de tráfico que ligam o Brasil ao Peru e à Colômbia. Analistas de segurança afirmam que as mesmas redes logísticas usadas para transportar cocaína pela região estão sendo cada vez mais utilizadas para transportar ouro e suprimentos de mineração.
Um relatório da Agência Brasil descobriu que o CV divulgou um “boletim informativo” através de grupos do WhatsApp direcionado a pessoas envolvidas na mineração ilegal em Alta Floresta, na região amazônica de Mato Grosso. Desde meados de outubro de 2025, segundo o relatório, os garimpeiros que operam jangadas e grandes equipamentos de extração são obrigados a registrarem-se no grupo e pagar taxas mensais.
Outros grupos criminosos também têm sido associados à atividade de mineração ilegal. No norte do Brasil, a Família do Norte (FDN) mantém há muito tempo influência sobre as rotas de tráfico ao longo do rio Amazonas e das regiões fronteiriças com a Colômbia, o Peru e a Venezuela. Embora o grupo tenha se concentrado historicamente no tráfico de drogas, as autoridades afirmam que suas redes também se cruzam com operações de mineração e rotas de contrabando.
Além dessas grandes facções, grupos criminosos regionais operam em toda a Amazônia, muitas vezes colaborando ou competindo pelo controle de territórios de mineração, rotas de transporte e passagens de fronteira. As autoridades afirmam que organizações criminosas estrangeiras – incluindo o Tren de Aragua da Venezuela e facções dissidentes de antigos grupos guerrilheiros da Colômbia – também foram detectadas em partes da região.
Investigadores de segurança descrevem cada vez mais a convergência da mineração ilegal e do tráfico de drogas como uma forma de “narco garimpo”, em que as operações de mineração são financiadas ou protegidas por organizações de narcotráfico. O modelo permite que grupos criminosos diversifiquem suas fontes de renda, enquanto usam o ouro – uma mercadoria mais fácil de transportar e integrar aos mercados legais –, para ocultar lucros ilícitos.
Cooperação regional contra a mineração ilegal
Os governos do norte da América do Sul também aumentaram a cooperação para enfrentar as redes transnacionais por trás da mineração ilegal de ouro.
Em janeiro de 2026, autoridades do Brasil, Guiana, Guiana Francesa e Suriname realizaram o que a Interpol descreveu como a primeira operação transfronteiriça coordenada contra a mineração ilegal na região amazônica. A iniciativa, conhecida como Operação Escudo da Guiana, envolveu mais de 24.500 verificações de veículos e indivíduos e resultou em 198 prisões.
Durante a operação, a polícia apreendeu ouro bruto, mercúrio usado em processos de mineração, armas de fogo, drogas e grandes quantias de dinheiro. Os investigadores também descobriram casos de suspeita de tráfico de pessoas e trabalho infantil vinculados às operações de mineração.
“O aumento dos preços internacionais do ouro nos últimos anos levou ao crescimento da mineração ilegal, tornando essa atividade a fonte de renda que mais cresce para grupos de crime organizado, inclusive na América Latina”, afirmou em um comunicado o secretário-geral da Interpol, o brasileiro Valdecy Urquiza.
As autoridades afirmam que tais operações ilustram o crescente reconhecimento de que a mineração ilegal de ouro se tornou um desafio de segurança transnacional que não pode ser enfrentado por um único país agindo sozinho.
À medida que a fiscalização se intensifica, os investigadores esperam que os grupos criminosos continuem adaptando seus métodos, mudando rotas, explorando fronteiras remotas e buscando novas maneiras de integrar o ouro extraído ilegalmente aos mercados globais.


