O Equador, que até uma década atrás era visto como um país relativamente estável, em uma região assolada pelo crime transnacional, enfrenta hoje um teste crucial para sua soberania. No centro dessa transformação estão Los Choneros e Los Lobos, duas poderosas estruturas criminosas que o governo equatoriano designou como organizações terroristas, em janeiro de 2024. Essa classificação nacional histórica ocorreu após uma onda de violência sem precedentes, que obrigou o Estado a declarar um conflito armado interno. Desde então, essas organizações teceram uma complexa rede de economias ilícitas, apoiadas por vínculos operacionais com cartéis internacionais, de acordo com a ONG International Crisis Group.

A evolução do crime organizado no Equador
A inclusão de Los Choneros e Los Lobos na lista de organizações terroristas responde à evidência de que ambos os grupos sofisticaram suas operações, estabelecendo corredores criminosos massivos, que abrangem desde a produção e o tráfico de drogas, até a mineração ilegal, a extorsão e a violência nas prisões, incluindo violência sistemática contra as autoridades e a população civil, informou a mídia local La Hora.
“É preciso entender que tanto Los Choneros quanto Los Lobos não são estruturas criminosas independentes, mas estão aliados a cartéis de drogas muito maiores, que operam fora do país”, declarou à Diálogo Alexandra Zumárraga, advogada e ex-diretora do Sistema Nacional de Reabilitação Social do Equador. “Seus líderes e financiamento vêm do exterior.”
Los Choneros, uma das organizações mais antigas e estruturadas do país, surgiram em 2005, na província de Manabí. Desde então, consolidaram uma rede de influência que abrange portos estratégicos, áreas urbanas e o sistema penitenciário, exercendo um controle territorial significativo. Sua estrutura hierárquica e capacidade armada os estabeleceu como um ator central do crime organizado equatoriano, de acordo com a mídia argentina Perfil.
Por sua vez, Los Lobos surgiram como uma organização independente em 2021. Originalmente uma facção subordinada a Los Choneros, eles aproveitaram o assassinato em 2020 do líder de Los Choneros, Jorge Luis Zambrano, conhecido como Rasquiña, para separar-se e liderar uma coalizão dissidente. Essa insurreição os transformou de uma gangue local em uma ameaça nacional, tornando-se parceiros de redes internacionais de narcotráfico e incursionando na mineração ilegal de ouro, o que lhes permitiu consolidarem-se como um ator criminoso dominante em Quito, conforme descreve InSight Crime.
A influência dos cartéis internacionais
Os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG) intensificaram sua presença no Equador ao associarem-se a essas gangues criminosas para o transporte de cocaína, utilizando portos, postos de fronteira e sistemas financeiros do país. Esses vínculos são o motor essencial do conflito: Los Choneros servem como o principal braço logístico do Cartel de Sinaloa, enquanto Los Lobos ascenderam ao poder graças ao apoio direto do CJNG. As máfias balcânicas também encontraram nas rotas de exportação de banana uma via para introduzir narcóticos na Europa, detalha o Índice de Crime Organizado 2025 da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC).
Além disso, o Clã do Golfo da Colômbia e dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) estão ativos no norte do Equador, onde produzem drogas, contrabandeiam armas e extorquem as empresas locais, acrescenta a GI-TOC.
Durante 2025, as forças de segurança equatorianas capturaram 20 alvos de alto valor, incluindo a histórica extradição para os Estados Unidos de José Adolfo Macías Villamar, conhecido como Fito, em 20 de julho de 2025. Essa extradição, que foi possível graças às reformas constitucionais de 2024, tinha como objetivo decapitar a liderança de Los Choneros. No entanto, isso acelerou um fenômeno já em andamento: a segunda grande fragmentação do mapa criminal local, desde a desintegração do comando unificado de Los Choneros, em 2020, de acordo com o jornal equatoriano Primicias.

Apoio operacional e militar dos EUA
A parceria com os Estados Unidos evoluiu até tornar-se uma aliança operacional direta. Após a designação pelos EUA de Los Choneros e Los Lobos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), em 4 de setembro de 2025, a cooperação bilateral foi orientada para operações conjuntas de alto risco, nas quais o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) forneceu inteligência em tempo real e vigilância aérea, além de colaborar com a Marinha equatoriana para interceptar embarcações de contrabando de alta velocidade, o que resultou na apreensão de mais de 200 toneladas de cocaína no Pacífico oriental em 2025.
Os Estados Unidos também forneceram hardware e tecnologia essenciais, incluindo uma frota de drones de vigilância específicos para o reconhecimento naval e a entrega de aeronaves C-130H Hércules, para o rápido destacamento de tropas. Isso é complementado pelo intercâmbio de inteligência de alto nível, que permitiu ao Bloco de Segurança – o comando conjunto da Polícia e do Exército equatorianos – identificar e desmantelar mais de 35 redes transnacionais somente em 2024. Em janeiro de 2026, o subsecretário adjunto de Defesa dos EUA, Joseph Humire, visitou Quito para aprofundar ainda mais esses laços, o que representou um passo em direção aos esforços de “objetivos conjuntos”, nos quais a experiência técnica dos EUA apoia as forças especiais equatorianas em operações de precisão.
Desafios e respostas do Estado
“A crescente fragmentação das gangues criminosas, impulsionada pela captura, assassinato ou exílio de seus líderes, gerou atritos internos entre facções em disputa pela liderança”, explicou Tiziano Breda, analista sênior para a América Latina e o Caribe de Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), um observatório global que coleta, analisa e mapeia dados sobre conflitos. “As disputas […] geralmente se originam nas prisões, que atuam como centros operacionais desses grupos, antes de espalharem-se pelas ruas. Os massacres nas prisões e os confrontos mortais entre grupos do crime organizado contribuíram para o aumento de 42 por cento das mortes registradas nos primeiros 11 meses de 2025.”
Para combater essa situação, as Forças Armadas e a Polícia Nacional do Equador realizaram operações contínuas nas zonas fronteiriças e marítimas, com o objetivo de desmantelar as economias criminosas que alimentam os grupos Los Choneros e Los Lobos. Em 2025, foram realizadas cerca de 53.000 operações, que resultaram na perda de mais de US$ 243 milhões para essas estruturas criminosas, graças à apreensão de armas, substâncias ilícitas e à desarticulação de rotas logísticas importantes.
Um dos grandes desafios, segundo Zumárraga, é que “no Equador existem líderes visíveis e não visíveis, que são operadores de uma estrutura criminosa maior, o que dificulta sua dissolução”. A fragmentação da estrutura criminosa permite o surgimento de novos líderes com conexões mais fortes e aliados externos que os apoiam.
Durante 2025, o Plano 131 de Recompensas consolidou-se como uma ferramenta fundamental para as forças de segurança, canalizando mais de US$ 1,6 milhão em pagamentos por informações estratégicas, que resultaram em operações contra o crime organizado.
No final de dezembro de 2025, o presidente Daniel Noboa declarou zonas de segurança reservadas ao redor das prisões, ampliando assim as aptidões operacionais das Forças Armadas, em coordenação com a Polícia Nacional. Posteriormente, o Ministério da Defesa iniciou a fase Ofensiva Total, em 15 de janeiro de 2026, destacando 10.000 soldados nas províncias costeiras, com o objetivo de garantir uma resposta imediata a qualquer ameaça e fechar as brechas utilizadas pelo crime organizado.
“Para fechar essas brechas, é necessário um trabalho articulado com diferentes países, como México e Colômbia, para eliminar não apenas os líderes, mas também a estrutura criminosa que os sustenta”, concluiu Zumárraga. Essa frente de colaboração representa um passo decisivo em direção a um futuro em que o Estado de Direito substitua o reinado do terror.


