As empresas de mineração chinesas estão expandindo continuamente sua presença na América Latina, adquirindo importantes ativos minerais em toda a região e consolidando sua posição no setor do ouro. À medida que a competição global por recursos naturais se intensifica e os preços do ouro permanecem elevados, os grupos de mineração chineses vinculados ao Estado estão acelerando os esforços para garantir o controle sobre importantes jazidas na América do Sul.
Para governos e observadores do setor na região, essa crescente presença chinesa suscita preocupações que vão além do investimento estrangeiro comum. Analistas alertam que a expansão das empresas de mineração chinesas – apoiadas por financiamento estatal e operando dentro de estruturas corporativas e contratuais opacas – pode transferir o controle de recursos minerais estratégicos para longe dos centros de tomada de decisão locais, ao mesmo tempo em que complica a supervisão regulatória, a fiscalização ambiental e a transparência.
As recentes aquisições pelo Grupo CMOC, uma das maiores empresas de mineração da China, ilustram a escala e o ritmo com que as empresas chinesas estão expandindo sua presença no setor de mineração da região.
O Grupo CMOC ampliou seu portfólio de metais preciosos através de um acordo de US$ 1 bilhão para adquirir as operações brasileiras da canadense Equinox Gold Corp., transação que foi concluída no final de janeiro. O acordo inclui duas entidades, a Leagold LatAm Holdings BV e a Luna Gold Corp, que controlam várias reservas e minas de ouro no país. CMOC, cujo foco principal é o cobre e o cobalto, afirmou que a aquisição adicionará cerca de 8 toneladas de produção anual de ouro ao seu portfólio.
Seis meses antes, o grupo chinês havia adquirido a empresa de mineração canadense Lumina Gold Corp. por aproximadamente US$ 422 milhões no Equador, em um negócio que garantiu seu acesso à maior reserva de ouro do país: o projeto Cangrejos. A aquisição expandiu significativamente a presença de CMOC na América do Sul e deu à empresa o controle sobre um dos mais ambiciosos empreendimentos de mineração de ouro na região andina.
A aquisição no Brasil incluiu a Mina Aurizona, no Maranhão; o Complexo Bahia, composto pelas minas Fazenda e Santa Luz; e a Mina RDM (Riacho dos Machados), em Minas Gerais. O projeto de mineração Cangrejos, por sua vez, está localizado na província de El Oro, no Equador, e abrange aproximadamente 5.000 hectares. Uma vez desenvolvido, o projeto deverá tornar-se uma das maiores operações de mineração de ouro do país.
Juntas, as duas aquisições representam uma consolidação significativa de ativos de ouro sob o controle de um único grupo de mineração chinês, que opera em várias jurisdições sul-americanas. O controle desses depósitos dá às empresas influência não apenas sobre as atividades de extração, mas também sobre as cadeias logísticas, o desenvolvimento de infraestrutura e os fluxos de exportação vinculados ao mercado global de ouro.
O advogado, jornalista e consultor ambiental estratégico Antonio Fernando Pinheiro Pedro, ex-secretário de Mudanças Climáticas do município de São Paulo, destaca os riscos associados a essa expansão no Brasil.
“O sistema chinês produz industrialização para si e esmaga o parque industrial local. É o seu sistema-padrão, mesmo porque a China age e pensa como uma grande holding, detentora de formatos cartelizados e verticalizados de produção e provimento de serviços”, afirma Pinheiro Pedro.
A rápida expansão das empresas de mineração chinesas também levantou questões sobre padrões de governança e transparência. Muitos projetos de mineração chineses no exterior operam por meio de redes complexas de subsidiárias registradas em várias jurisdições, uma estrutura que, segundo críticos, pode tornar mais difícil para os reguladores e as comunidades locais monitorar plenamente os impactos ambientais e financeiros de grandes projetos de extração.
Nas regiões de mineração de ouro da América Latina, a fiscalização e a aplicação da legislação ambiental já representam desafios significativos. Operações de mineração em grande escala exigem monitoramento rigoroso do uso da água, do descarte de resíduos, do desmatamento e da gestão da terra. À medida que as empresas chinesas ampliam seu controle sobre as principais concessões na região, os reguladores enfrentam obstáculos adicionais, para garantir que os padrões ambientais nacionais sejam cumpridos, especialmente quando a tomada de decisões operacionais e financeiras está vinculada às empresas mãe na China, o que pode complicar a transparência e a fiscalização.
Preocupações semelhantes surgiram em outros projetos de mineração chineses na região. No Equador, o projeto de mineração Mirador, operado por um consórcio chinês, tem enfrentado críticas de grupos ambientais e comunidades locais em relação ao desmatamento, aos riscos de contaminação da água e ao deslocamento de residentes na região amazônica. Na província vizinha de Zamora-Chinchipe, a mina de ouro Fruta del Norte, de propriedade chinesa, também destacou os desafios de segurança e governança que frequentemente surgem em torno de grandes jazidas de ouro. O rápido desenvolvimento de projetos de grande escala apoiados por investimentos chineses pode atrair redes de mineração ilegal e operações de tráfico de ouro, que buscam explorar a atividade econômica gerada em torno desses lugares.
A concentração das principais reservas de ouro nas mãos de grupos de mineração chineses também levanta questões mais amplas sobre soberania econômica. Quando o controle sobre grandes jazidas passa para empresas vinculadas à estratégia global de recursos da China, as decisões relativas aos níveis de produção, à expansão de projetos e ao ritmo de extração são cada vez mais moldadas por considerações geopolíticas e pelas prioridades estratégicas da China, em vez de ser pelos interesses econômicos locais. Para países cujas economias dependem fortemente das exportações de minerais, essa mudança poderia influenciar não apenas o desenvolvimento local, mas também o controle de longo prazo sobre recursos naturais valiosos.
Luiza Guitarrari, investigadora de petróleo, gás e biocombustíveis da FGV Energia – um think tank da Fundação Getulio Vargas dedicado ao setor – chama a atenção, em reportagem do jornal Valor Econômico, para as restrições impostas por Pequim à exportação de tecnologias e produtos relacionados a terras raras.
“O movimento sinaliza uma tendência de ‘securitização’ na mineração, em que os recursos passam a ser tratados como ativos estratégicos de poder nacional”, avalia Guitarrari. “Assim, o controle do mercado permite à China garantir segurança energética, influência comercial e geopolítica, mas também introduz elementos de tensão no cenário internacional… O controle do mercado garante à China segurança energética e influência”, destaca Guitarrari.
Embora o ouro não seja tradicionalmente classificado ao lado de minerais como terras raras ou lítio em cadeias de abastecimento estratégicas, a rápida expansão de empresas chinesas em projetos de mineração de ouro reflete uma estratégia global mais ampla, para garantir o acesso a recursos naturais. Para os países latino-americanos ricos em depósitos minerais, o desafio será garantir que o desenvolvimento desses recursos fortaleça as economias nacionais, em vez de transferir o controle de ativos valiosos para o exterior.
À medida que as empresas de mineração chinesas continuam a expandir sua presença pela América Latina, a crescente concentração de ativos de ouro sob o controle de empresas vinculadas a Pequim está se tornando uma preocupação estratégica para a região.


