O Equador e os Estados Unidos continuam ampliando as ferramentas para combater as organizações criminosas transnacionais e as redes que sustentam suas operações dentro e fora do país.
À medida que as autoridades intensificam as ações contra essas organizações, novas designações de organizações terroristas reforçam as ferramentas jurídicas e financeiras disponíveis para perseguir seus recursos e redes de apoio. Entre elas estão as designações dos Chone Killers e dos Tiguerones como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) pelos Estados Unidos, respectivamente em julho e setembro.
A pressão crescente ficou evidente logo um dia depois da designação dos Tiguerones, em 9 de setembro. Em 10 de setembro, a Polícia Nacional da Colômbia, em coordenação com o Centro Nacional de Inteligência do Equador, capturou em Soacha, na Colômbia, Guido Fernando Rodríguez Vargas, conhecido como Comandante 7. As autoridades colombianas o identificaram como um alvo de alto valor para o Equador e um dos principais elos transnacionais dos Tiguerones entre os dois países.
Segundo as autoridades, Rodríguez ajudava a administrar recursos ilícitos utilizados para sustentar as capacidades logísticas e de armamento da organização em Esmeraldas, no Equador, e em Nariño, na Colômbia, e estava vinculado a uma rede de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas e da extorsão. Ele era procurado pela justiça equatoriana e tinha um alerta vermelho da Interpol por homicídio e crime organizado.
As duas designações referem-se a organizações distintas, mas refletem o mesmo esforço para aumentar a pressão sobre as redes criminosas equatorianas.
Os Chone Killers surgiram como uma facção dos Los Choneros e se separaram dessa estrutura em 2020. O Departamento de Estado destaca que o grupo cometeu ataques e assassinatos de grande repercussão contra civis, policiais e funcionários públicos.
Após a morte de um de seus líderes na Colômbia no final de 2024, cinco facções que antes integravam a estrutura começaram a disputar territórios e atividades ilícitas, informou a Reuters. Em fevereiro de 2026, as autoridades identificaram novas subdivisões do grupo, algumas das quais passaram a operar sob outros nomes, segundo o jornal equatoriano Primicias.
A fragmentação dificulta os esforços para desmantelar essas estruturas, já que grupos menores podem manter atividades criminosas, estabelecer novas alianças ou prestar serviços a organizações de maior porte. No Equador, essas redes participam de atividades como tráfico de drogas, extorsão, assassinatos por encomenda e tráfico de armas.
O tráfico internacional de drogas constitui um dos principais negócios dos Chone Killers e dos Tiguerones. Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, escreveu no X que “as gangues equatorianas ajudam os cartéis mexicanos a transportar e exportar drogas ilícitas para financiar o terrorismo e a atividade criminosa”.

O peso jurídico por trás da designação
As designações como FTO foram feitas nos termos da Lei de Imigração e Nacionalidade e foram acompanhadas pela inclusão dos grupos como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). A categoria FTO acarreta consequências jurídicas específicas: a legislação norte-americana proíbe fornecer apoio material ou recursos às organizações incluídas nessa lista e estabelece restrições migratórias para determinados membros e representantes, aponta o Departamento de Estado.
As designações como SDGT também acionam sanções financeiras administrativas por parte do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro, que podem bloquear bens e participações em bens sujeitos à jurisdição dos Estados Unidos e restringir determinadas transações com pessoas e entidades designadas.
“Isso, de acordo com o contexto jurídico norte-americano, confere ao governo federal os recursos jurídicos, orçamentários e econômicos para agir contra essas organizações”, explicou ao Diálogo o acadêmico Javier Oliva Posadas, da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México. O especialista considerou que a medida também facilita ao governo equatoriano um maior apoio das agências de inteligência e segurança norte-americanas.
Cortar o financiamento e capturar os facilitadores
As sanções financeiras visam diretamente os recursos que permitem sustentar as operações. Oliva Posadas indicou que “ao secarem as fontes de financiamento, reduz-se a capacidade de manter determinadas atividades terroristas”. As restrições à lavagem de dinheiro e o congelamento de contas funcionam como ferramentas eficazes contra o terrorismo, acrescentou.
As autoridades americanas têm aplicado essas ferramentas contra as redes de apoio de outras organizações criminosas equatorianas designadas. Em 20 de agosto, o OFAC sancionou 15 pessoas e entidades sediadas no Equador e identificou 10 embarcações como bens bloqueados por sua participação em uma rede de tráfico de drogas ligada a Los Choneros e Los Lobos. Segundo o Tesouro, membros da rede coordenavam o transporte de cocaína, operavam embarcações e apoiavam o reabastecimento de navios utilizados para transportar cargas para o México.
A medida mostra como as autoridades podem direcionar a pressão não apenas contra os líderes de uma organização, mas também contra as pessoas, empresas e recursos que sustentam suas operações.
Um caso recente diretamente relacionado aos Chone Killers ilustra a importância dessas funções de abastecimento. Em 9 de agosto, o Bloco de Segurança — composto por policiais, militares e pelo Centro Nacional de Inteligência — capturou em Santa Clara de Daule, na província de Guayas, um homem conhecido como Samir, apontado pelo ministro da Defesa, Gian Carlo Loffredo, como o maior fornecedor de armas e explosivos dos Chone Killers, segundo reportagem do jornal equatoriano El Universo.
Oliva Posadas explicou que quem ocupa essas posições conhece o funcionamento interno da organização e pode facilitar a substituição de um líder assassinado ou capturado. “É importante levar isso em consideração, pois é um esquema que se repete constantemente no Equador”, alertou.
A pressão se estende além do Equador
As designações se somam a uma cooperação de segurança cada vez mais estreita entre o Equador e os Estados Unidos, que inclui troca de informações, equipamentos, treinamento e apoio a ações contra o crime organizado transnacional.
Essa cooperação também se traduz em operações contra as capacidades que sustentam outras organizações criminosas designadas. Em 26 de agosto, a Polícia Nacional, em coordenação com o Ministério Público e com a cooperação da Administração Federal Antidrogas dos EUA (DEA) e do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), executou as operações “Factoría e Jericó contra estruturas ligadas a Los Choneros e Los Lobos. As operações incluíram 36 buscas e apreensões, resultaram na prisão de 43 pessoas e permitiram a apreensão de aproximadamente 2,5 toneladas de drogas.
Essas operações demonstram como a cooperação entre instituições equatorianas e americanas pode ser utilizada para prejudicar as capacidades financeiras, logísticas e operacionais de organizações criminosas que atuam por meio de diferentes estruturas.
A resposta contra os Chone Killers também se estendeu à Argentina. Em agosto, o governo argentino declarou a organização como terrorista e determinou sua inclusão no Registro Público de Pessoas e Entidades ligadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET), ao considerar que ela representa uma ameaça externa real à segurança nacional. A medida visa fortalecer os mecanismos de prevenção, detecção e resposta ao terrorismo e seu financiamento, bem como dificultar a expansão de organizações criminosas estrangeiras naquele país.
Oliva Posadas destacou que a legislação norte-americana contra o terrorismo oferece mais recursos para agir contra essas organizações e que a adoção de medidas por outros países amplia a margem de ação contra redes que operam além das fronteiras.
“A luta contra o crime organizado entrou em uma nova etapa: não haverá mais fronteiras que protejam os terroristas nem refúgios para aqueles que ameaçam a paz de nossos povos”, afirmou o ministro do Interior do Equador, John Reimberg. “A cooperação internacional é nossa maior força. A impunidade chegou ao fim”.
As designações e sanções ampliam o alcance das ações contra as organizações criminosas, abrangendo o dinheiro, as armas, a logística e os facilitadores que sustentam suas operações. A captura do Comandante 7 ilustra a dimensão transnacional desse esforço, enquanto as ações contra os facilitadores dos Chone Killers mostram como as autoridades podem atacar as redes de apoio mesmo quando as estruturas criminosas se reorganizam, formam novas alianças ou passam a operar sob outros nomes.
O intercâmbio de inteligência e informações entre países amplia esse alcance, permitindo identificar conexões financeiras, logísticas e criminosas que atravessam jurisdições. Juntamente com as investigações e operações no Equador, essas ferramentas permitem direcionar as ações contra os diversos componentes que sustentam as organizações criminosas além de suas estruturas visíveis.