Cooperação multinacional aperta o cerco à liderança transnacional do Tren de Aragua

As organizações criminosas transnacionais exploram fronteiras para distribuir suas lideranças, finanças e operações entre diferentes países. Para as forças de segurança que as perseguem, o desafio é conectar, com a mesma rapidez, inteligência, investigações e mecanismos judiciais entre diferentes jurisdições.

A captura, em Bogotá, de Luis Saúl Pérez Nieto, conhecido como Nairobi ou Páez, apontado como um dos principais líderes do Tren de Aragua (TdA) no Peru, mostra como essa cooperação pode ajudar as autoridades a rastrear e prender líderes criminosos que operam fora dos países onde comandam suas atividades.

A Polícia Nacional do Peru informou que a captura foi resultado do intercâmbio de informações, da coordenação internacional e de técnicas especiais de investigação envolvendo sua Unidade de Investigações Sensíveis contra o Crime Organizado Transnacional, a Polícia Nacional da Colômbia e a Administração Federal Antidrogas dos EUA(DEA). A operação concluiu uma investigação conjunta de sete meses.

Nairobi foi detido em 27 de agosto em Fontibón, Bogotá. As autoridades o apontam como homem de confiança do falecido líder do TdA Héctor Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, e o vincularam a coordenação de extorsões, tráfico internacional de armas, assassinatos seletivos e narcotráfico em rotas na América do Sul e na América Central. Ele era procurado pelos Estados Unidos por crimes relacionados a terrorismo, lavagem de dinheiro, narcotráfico e associação criminosa.

Mais do que a captura de um líder, o caso ilustra a cadeia de cooperação necessária para perseguir organizações cujos integrantes e operações atravessam múltiplas jurisdições: compartilhar informações para identificar e localizar alvos, coordenar investigações, transformar inteligência em ações judiciais e manter a cooperação até que os suspeitos sejam levados à Justiça.

Da informação à ação judicial

O analista de inteligência estratégica e especialista em segurança, defesa e análise geoespacial Mario Andrés Sánchez Cubillos disse ao Diálogo que a cooperação internacional funciona por meio de diferentes canais complementares.

“Há comunicações informais entre órgãos policiais, que compartilham informações preliminares sobre nomes e perfis quando há uma busca em andamento; e há assistência jurídica mútua, uma comunicação muito mais formal de comunicação entre Estados”, explicou.

Os primeiros intercâmbios permitem alertar rapidamente as autoridades de outro país sobre um alvo ou movimentação de interesse. Os mecanismos formais permitem que essas informações sejam utilizadas para apoiar ordens judiciais, extradições e outras ações entre Estados.

Lorena Erazo, pesquisadora de Relações Internacionais da Universidade de La Salle, em Bogotá, também destacou ao Diálogo diferentes níveis de cooperação regional. Um deles envolve mecanismos consolidados, como a INTERPOL e a Comunidade de Polícias da América (AMERIPOL), que conectam as instituições encarregadas de combater redes criminosas que operam em vários países.

A AMERIPOL estabeleceu como uma das suas prioridades para 2026 a ação contínua contra o TdA, juntamente com novos mecanismos de cooperação entre as forças policiais da região. Para Erazo, aprofundar essa coordenação significa ir além da localização e prisão de integrantes das organizações.

“Também é necessário cooperar no combate à lavagem de dinheiro, na colaboração biométrica e em outros tipos de informação, para maximizar o impacto dessas estratégias”, afirmou.

Rastrear o dinheiro, verificar identidades e reconstruir contatos permite ampliar uma investigação de um indivíduo para a rede que o apoia. Segundo Sánchez Cubillos, a captura de um líder também pode abrir novas linhas de investigação.

“Neutralizar um alvo pode fornecer um indicador, mas capturá-lo vivo é muito mais útil para investigações posteriores”, afirmou. Um detido pode fornecer informações que, uma vez corroboradas por meio das investigações apropriadas, pode ajudar a identificar redes de financiamento, rotas, contatos internacionais e estruturas de comando, explicou.

Cooperação para além da captura

A perseguição a uma organização transnacional não termina quando um suspeito é localizado. Os processos de extradição e transferência internacional permitem que os acusados respondam perante as jurisdições que os procuram.

Um dia após a captura de Nairobi, a Colômbia entregou ao Chile Alfredo Camilo Carrillo Ortiz, conhecido como Gocho, suposto integrante do TdA procurado por seu suposto envolvimento no sequestro e assassinato, em Santiago, do ex-tenente venezuelano Ronald Ojeda, em 2024. A Direção de Investigação Criminal e INTERPOL (DIJIN) da Polícia Nacional da Colômbia realizou a entrega às autoridades chilenas.

No mesmo dia, chegou ao Chile, vindo dos Estados Unidos, outro acusado no caso, Rafael Gámez Salas, conhecido como El Turko, apontado pelas autoridades chilenas como um dos líderes de Los Piratas de Aragua, uma facção do TdA.

Outro caso seguiu um caminho semelhante meses antes. Em julho de 2026, a Colômbia extraditou para o Chile Dayonis Junior Orozco Castillo, conhecido como Botija, procurado pela Justiça chilena por seu suposto envolvimento no assassinato de um carabineiro. Orozco havia sido detido na Colômbia em 2024 após uma operação coordenada entre autoridades da Colômbia, do Chile e do Peru.

Os casos mostram diferentes etapas de uma mesma estrutura de cooperação: um alvo pode ser investigado em um país, localizado em outro e procurado judicialmente por um terceiro.

Essa articulação é especialmente relevante para combater o TdA. Erazo disse que a organização adapta suas atividades às oportunidades criminosas de cada território. Dependendo do país, suas redes foram vinculadas a extorsão, narcotráfico, tráfico de pessoas, exploração sexual, sequestros e outras economias ilícitas.

“Asfixiar organizações estruturadas como nós ou redes que mudam de acordo com seu ambiente se torna mais complexo”, afirmou.

Conectar capacidades contra uma ameaça regional

Os casos envolvendo o TdA mostram como a cooperação entre países permite acompanhar um alvo através de diferentes jurisdições. Mas as mesmas redes que movimentam seus líderes entre países também distribuem suas finanças, rotas, logística e outras atividades ilícitas em escala regional. Enfrentá-las exige conectar as capacidades nacionais para além de uma operação ou investigação específica.

Essa mesma lógica sustenta a Coalizão das Américas contra os Cartéis, que busca fortalecer a coordenação entre os países participantes contra cartéis e outras redes criminosas transnacionais. A coalizão amplia esse esforço em direção a uma cooperação operacional contínua, conectando as capacidades dos países para exercer pressão sobre diferentes componentes das redes criminosas.

A Coalizão complementa os mecanismos policiais e judiciais que permitem operações como a captura de Nairobi e a extradição de outros integrantes do TdA. Enquanto esses instrumentos permitem compartilhar informações, localizar alvos e levá-los à Justiça, uma coordenação regional mais ampla permite conectar essas ações a esforços contra as rotas, finanças, logística e infraestrutura que sustentam as organizações criminosas.

Essa cooperação já se estende a diferentes domínios. Em agosto, autoridades da Colômbia, do Equador e dos Estados Unidos se reuniram na fronteira entre Colômbia e Equador para avançar em uma estratégia conjunta contra redes criminosas transnacionais que exploram esse corredor. No Pacífico Oriental, operações coordenadas entre o Equador e os Estados Unidos contra embarcações vinculadas a redes de narcotráfico também foram identificadas pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) como ações que contribuem para os objetivos da Coalizão.

Para as forças de segurança, o valor desses mecanismos está em reduzir os espaços que as organizações criminosas podem explorar entre uma jurisdição e outra. Um alerta policial pode ajudar a localizar um alvo; uma investigação conjunta pode reconstruir seus contatos; a cooperação judicial permite fundamentar uma prisão ou extradição; e o intercâmbio de informações financeiras e biométricas pode ampliar a investigação para a rede mais ampla

“Fortalecer as capacidades de inteligência de cada Estado e a cooperação internacional em inteligência me parece fundamental para combater essas ameaças”, afirmou Sánchez Cubillos.

Erazo acrescentou que os esforços institucionais também devem se estender às comunidades onde as organizações criminosas buscam estabelecer controle e influência, por meio de uma abordagem “não apenas operacional e tática das forças de segurança, mas também de aproximação com as comunidades”.

A captura de Nairobi e as transferências de outros supostos integrantes do TdA mostram como diferentes componentes da cooperação regional podem convergir contra uma mesma rede criminosa: inteligência para localizar alvos, coordenação policial para detê-los e mecanismos judiciais para levá-los perante as jurisdições que os procuram. Ao conectar essas capacidades entre países, as forças de segurança ampliam sua capacidade de acompanhar organizações que utilizam as fronteiras para dispersar suas lideranças e operações.

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