A expansão do Tren de Aragua (TdA) para além da América Latina confirma sua transformação de gangue criminosa local venezuelana em sofisticada organização terrorista com presença operacional em diferentes continentes. Sua chegada à Europa, somada a alianças regionais e a um modelo flexível de expansão de “franquias”, introduz novos desafios para a segurança global.
Ponto de inflexão europeu
A desarticulação na Europa de uma célula do TdA marcou um ponto de inflexão em sua projeção internacional. Em novembro de 2025, a Polícia Nacional da Espanha prendeu 13 supostos membros em uma operação coordenada, a Operação Interciti, que revelou vínculos com o tráfico de drogas sintéticas e outras atividades criminosas.
A operação confirmou que o grupo conseguiu estabelecer enclaves fora do Hemisfério Ocidental. A investigação foi um esforço colaborativo da Polícia Nacional da Colômbia e do projeto AMERIPOL-EL PACTO 2.0 da União Europeia, um programa dedicado ao combate ao crime organizado transnacional.
Jorge Serrano, especialista em segurança e membro da equipe de assessores da Comissão de Inteligência do Congresso do Peru, disse à Diálogo que a expansão do TdA não deve ser analisada de forma isolada. “A organização teve origem em um ambiente influenciado pelos regimes de Cuba e Venezuela, e sua presença na Espanha reflete a atividade histórica das redes de inteligência cubanas naquele país”, explicou.
Serrano afirmou que a chegada do grupo ao território espanhol responde a uma projeção deliberada de “influência criminosa” fora da América Latina. Ele também alertou sobre um risco ainda em investigação: “a profundidade dos vínculos do TdA com outras organizações criminosas de longa data, o que poderia aumentar sua capacidade de adaptação e permanência”.
O analista destacou que o TdA mantém conexões com estruturas criminosas consolidadas, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, o Comando Vermelho (CV), do Brasil e o Cartel de Sinaloa, no México. Ele ressaltou que essas alianças estratégicas poderiam proporcionar ao grupo a autonomia logística e financeira necessária para manter operações globais independentemente de sua base de poder nacional original.
De Tocorón para o mundo
Embora o TdA tenha se originado como um sindicato prisional dentro da prisão venezuelana de Tocorón, desde então ele evoluiu para se tornar uma força transnacional móvel. Seguindo o fluxo da crise migratória regional, o grupo conseguiu exportar sua arquitetura criminosa para todo o continente, financiando sua rápida expansão por meio da exploração sistemática de populações vulneráveis.
O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão definitivo na resposta internacional, pois a situação do grupo passou de uma preocupação para as forças da ordem a uma ameaça primária à segurança nacional. Essa mudança foi caracterizada por uma onda de designações formais como organização terrorista em todo o Hemisfério Ocidental, refletindo um novo consenso regional de que os métodos do TdA – que vão desde execuções públicas até o uso do tráfico de pessoas como arma – representam um desafio direto à soberania estatal.
Na América do Sul, a Argentina e o Equador lideraram a iniciativa diplomática ao classificar oficialmente o TdA como entidade terrorista, uma medida que desbloqueou poderes militares e judiciais especializados para desmantelar as estruturas de comando locais da gangue. Essa tendência se estendeu ao Caribe, onde Trinidad e Tobago elevou o grupo a um status semelhante após um aumento da atividade marítima ilícita ligada à organização. Enquanto isso, o Congresso peruano defendeu uma classificação formal de terrorista para combater a facção Los Gallegos, citando o uso de guerra psicológica pelo grupo contra a população civil. Em conjunto, essas medidas legislativas transformaram a luta contra o TdA em uma ofensiva multinacional coordenada destinada a neutralizar uma ameaça comum à estabilidade hemisférica.
Arquitetura criminosa e franquias
As autoridades identificaram as células do toda no exterior, rastreando suas comunicações diretas com comandos na Venezuela e pelo rastreamento de fluxos financeiros ilícitos, de acordo com a organização de direitos humanos Transparência Venezuela. Essas descobertas, segundo a organização, apontam para uma estrutura centralizada que coordena alianças, recursos e financiamento para operações criminosas fora do país.
O grupo opera sob um modelo de franquias criminosas, que permite que gangues locais utilizem o nome e o apoio do TdA em troca de benefícios econômicos. Essa estratégia acelera a expansão territorial, ao mesmo tempo em que reduz riscos e consolida sua presença por meio de atores criminosos já estabelecidos.
Europa sob vigilância
Na Espanha, as autoridades estão em alerta máximo desde 2022, após a detecção de operações de lavagem de dinheiro vinculadas ao grupo. A prisão em Barcelona, em março de 2024, de Gerso Isaac Guerrero Flores, irmão de Niño Guerrero, impulsionou a criação de uma equipe policial especializada para monitorar sua possível expansão, por meio de negócios de fachada, tráfico e extorsão.
Relatórios atuais sugerem que as células europeias estariam em uma fase exploratória, identificando economias ilícitas, aliados locais e nichos criminosos. Há indícios de reconhecimento em Madri e de vigilância de opositores venezuelanos.
O desafio da decapitação
Serrano alertou que as mudanças no cenário político regional não significariam automaticamente o fim do TdA. Para neutralizar a resistência do grupo, ele enfatizou a necessidade de uma cooperação sustentada e em tempo real entre as forças de segurança e inteligência da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa.
O próximo passo da ofensiva, acrescentou Serrano, deve concentrar-se no “núcleo de comando”. Em sua opinião, a rede criminosa não é um fenômeno exclusivamente venezuelano, mas conta com o apoio de interesses geopolíticos mais amplos. “O objetivo agora”, concluiu, “é decapitar a cobra”.


