Já não são simples redes de narcotráfico. Os cartéis latino-americanos se tornaram corporações criminosas transnacionais: impérios com presença global, operações diversificadas e estruturas empresariais sofisticadas. Seu poder econômico e tecnológico ameaça a soberania estatal, coloca em risco a segurança hemisférica e exige respostas judiciais e de cooperação renovadas.
“Os cartéis latino-americanos representam hoje uma ameaça à segurança nacional, à soberania estatal e à estabilidade hemisférica, na medida em que diversificaram suas atividades”, explica Yadira Gálvez, especialista em segurança da Universidade Nacional Autônoma do México, em entrevista à Diálogo.
Diversificação, fragmentação e expansão: um portfólio criminoso global
A fragmentação dos antigos cartéis deu lugar a uma constelação de organizações criminosas, algumas com ambições transnacionais, outras de alcance local, todas mantendo um controle rígido sobre os mercados criminosos internos. “Essa diversificação permite que as redes criminosas se mantenham ativas e adaptáveis”, afirma Gálvez.
Hoje, os cartéis operam como conglomerados poli criminosos. Já não se trata apenas de cocaína ou maconha. Seu portfólio criminoso abrange mineração ilegal de ouro, tráfico de pessoas, tráfico de armas, comércio de espécies protegidas e complexas redes de lavagem de dinheiro.
No Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) expandiu sua influência além das fronteiras, tecendo redes de apoio para fortalecer suas rotas de narcotráfico. No México, o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG) diversificaram suas operações quanto ao tráfico de fentanil para os Estados Unidos, contrabando de combustível e comércio ilegal de mercúrio para a mineração sul-americana.
O panorama de segurança é ainda mais complicado, devido à expansão de grupos poderosos originários da bacia do Caribe. O Tren de Aragua (TdA) da Venezuela aproveitou a crise migratória regional para estabelecer células em toda a América do Sul e no Caribe. Embora a principal atividade do TdA seja o tráfico de pessoas e a extorsão, ele tem se tornado cada vez mais um subempreiteiro das principais organizações criminosas transnacionais dedicadas ao tráfico de drogas, usando suas redes estabelecidas para traficar armas e consolidar receitas criminosas.
Na Colômbia, a mineração ilegal de ouro já gera mais receita do que a cocaína. O think-tank norte-americano Council on Foreign Relations estima que mais da metade da receita do Clã do Golfo agora é proveniente da mineração ilegal, atividade que desencadeou conflitos armados e devastou o meio ambiente em regiões como Chocó e Antioquia.
O tráfico de animais selvagens também faz parte desse ecossistema criminoso: onças-pintadas, tartarugas, sapos, porcos do mato e aves cruzam fronteiras.
A pandemia, observa Gálvez, “abriu novos mercados ilícitos, como o contrabando e a falsificação de medicamentos e insumos médicos, que ofereceram oportunidades lucrativas com baixo risco”. Essa diversificação, detalha, “estendeu-se a outras atividades, como o tráfico de pessoas, a pesca não regulamentada e o tráfico de bens”.
A quarta onda: do controle territorial à governança criminosa
Um relatório da plataforma uruguaia Diálogo Político ressalta que 2024 foi provavelmente o ano mais lucrativo para as economias ilícitas. Nesta onda do crime transnacional, os cartéis buscam não apenas controlar territórios, mas dominar mercados e substituir funções estatais.
A evolução do crime, detalha o relatório, ocorreu em quatro fases: a primeira, com Pablo Escobar e o Cartel de Medellín abrindo as rotas de cocaína para os Estados Unidos; a segunda, com o Cartel de Cali diversificando os envios via América Central e México; a terceira, marcada pelos vínculos entre estruturas estatais, grupos armados e exportações de ouro e cocaína para a Europa; e a quarta, a atual, que soma máfias extrarregionais, drogas sintéticas e mineração ilegal sob regimes autoritários ou zonas de governança fraca.
O fenômeno já não é definido apenas pela violência, mas pela governança paralela que esses grupos impõem: controle de territórios, regulação das economias locais e substituição de funções estatais. Diálogo Político alerta que a cumplicidade política reforça o esquema, enfraquecendo o Estado legítimo, enquanto os criminosos oferecem segurança, emprego e justiça básica em comunidades carentes.
Gálvez destaca: “Os cartéis contam com amplos recursos econômicos e tecnológicos que potencializam sua capacidade operacional. Seu domínio digital, incluindo o uso da internet para coordenar operações, é combinado com o acesso a armamento avançado, o que lhes confere vantagens táticas frente às forças estatais”.
Tecnologia e logística: o salto digital do crime organizado
A profissionalização dos grupos criminosos acelerou-se com a adoção de tecnologias financeiras e digitais para movimentar e ocultar capitais em escala global. A plataforma de inteligência blockchain norte-americana TRM Labs indica que redes chinesas de lavagem de dinheiro recolhem dinheiro vivo da venda de drogas nos EUA, o convertem em criptoativos e o utilizam para adquirir precursores químicos na China, essenciais para o fentanil.
O uso de criptomoedas, plataformas VASP (provedores de carteiras eletrônicas) e empresas de fachada permite camuflar ganhos ilícitos em cadeias comerciais legítimas. Além disso, o destacamento de drones revolucionou a logística criminosa: o CJNG os utiliza para reconhecimento e ataques, enquanto o ELN os empregou em ofensivas recentes na Colômbia.
“Essas ferramentas não apenas fortalecem seu poder de fogo, mas também sua capacidade de intimidar e subjugar a população”, adverte Gálvez. Essas dinâmicas, acrescenta, “são complementadas por sofisticadas redes de lavagem de dinheiro que inserem dinheiro ilícito nas economias formais, distorcendo os mercados e enfraquecendo a governança financeira. Assim, as estruturas criminosas consolidam sua influência social e econômica, configurando uma ameaça complexa e persistente à segurança e à soberania regional”.
Os cartéis replicam cadeias logísticas empresariais, integrando produtores, intermediários alfandegários e distribuidores. De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, os carteis mexicanos integraram operações ilegais de mineração de ouro no Equador, com fins lucrativos, e de lavagem de dinheiro. A plataforma Crisis Group aponta para o uso de empresas de fachada e operadores marítimos para dissimular bens ilícitos em cadeias formais de comércio.
Impacto regional: da violência à governança criminosa
O impacto transcende a violência. No Brasil, o PCC e o Comando Vermelho controlam zonas amazônicas, impondo “impostos” ilegais e regulando atividades locais, segundo US News. No México, a violência eleitoral de 2024 deixou dezenas de candidatos assassinados; os cartéis influenciam as decisões locais, por meio de intimidação e financiamento ilícito, relata Cornell University.
Na Colômbia, o Clã do Golfo e dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) mantêm governos paralelos em áreas rurais, cooptando prefeituras e limitando a presença do Estado. O assassinato do candidato presidencial equatoriano Fernando Villavicencio, em 2023, expôs a infiltração criminosa na política.
Gálvez enfatiza: esses grupos “buscam manter o controle territorial e exercer uma forma de governança criminosa, impondo suas próprias regras e dinâmicas sociais. Em alguns contextos, sua influência se estende ao âmbito político, por meio do financiamento de campanhas, cooptação, ou ameaças a funcionários. Seu objetivo não se limita mais à obtenção de ganhos econômicos, mas inclui o controle de territórios, comunidades e até mesmo estruturas de governo”.
Rumo a uma resposta hemisférica: o desafio da cooperação
Diante dessa ameaça, Gálvez adverte que os Estados devem ir além da abordagem tradicional: “É urgente fortalecer a inteligência e as capacidades operacionais, tanto físicas, quanto digitais. Isso exige incorporar a dimensão cibernética às estratégias de segurança e renovar a cooperação regional, em conjunto com os Estados Unidos, uma vez que a ameaça criminosa é transnacional e afeta igualmente todas as sociedades.”
A solução, sustenta, deve ser integral. “Não basta reformar leis; são necessárias instituições judiciais e unidades sólidas de inteligência financeira que permitam rastrear e processar judicialmente os fluxos ilícitos. Sem mecanismos eficazes de extinção de domínio e combate à corrupção política, os Estados continuarão em desvantagem diante de redes criminosas que combinam poder econômico e territorial.”
Somente um compromisso político real e uma cooperação hemisférica ágil, com o apoio dos Estados Unidos e da Europa, permitirão enfrentar esses desafios, insiste Gálvez. Os atrasos em cibersegurança e a desigualdade de capacidades entre os países freiam os avanços. “Daí a necessidade de consensos operacionais e vontade comum para construir respostas conjuntas diante das corporações criminosas.”


