Ao contrário dos notórios chefões do século passado, a nova geração do narcotráfico opera com uma sofisticação silenciosa, com o surgimento de uma máfia empresarial. Esse modelo descentralizado permite que as redes criminosas multipliquem seus operadores, diluam responsabilidades e, acima de tudo, camuflem suas atividades criminosas, por meio de investimentos legais e estruturas corporativas de aparência irrepreensível.
Em outubro de 2025, a Guarda Civil da Espanha e a Polícia Nacional da Colômbia realizaram uma importante operação contra esse grupo de elite. De acordo com o jornal espanhol El País, as autoridades prenderam cinco membros de uma organização considerada capaz de introduzir até 120 toneladas de cocaína por ano na Europa.
Estratégias de infiltração e diversificação
Esses grupos deixaram para trás o modelo de chefes únicos. Sua estrutura agora se assemelha à de uma multinacional: eles utilizam empresas legalmente constituídas, como agroexportadoras, para movimentar mercadorias ilícitas e criam empresas paralelas que lavam dinheiro. A operação direta é delegada a intermediários, detalhou o jornal salvadorenho El Mundo, “dificultando o trabalho daqueles que tentam rastrear o fluxo criminoso”.
“Essa também é uma forma de diversificar o risco. Se eu tiver uma cadeia dividida em pedacinhos, será mais difícil para quem investiga montar o quebra-cabeça”, afirmou em entrevista à Diálogo Felipe Botero, chefe do Escritório Regional Andino da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), com sede na Suíça.
Corredor transatlântico: A rede transnacional
As redes criminosas conseguiram consolidar um sofisticado corredor logístico que liga portos importantes da Bélgica, Holanda e Espanha a plataformas criminosas no Equador, Costa Rica, Panamá e República Dominicana, informou o jornal espanhol ABC. Essas alianças permitem o fluxo constante de cargas para a Europa, facilitado por empresas de fachada e métodos cada vez mais sofisticados de contaminação de contêineres, de acordo com o relatório Redes de Cocaína da GI-TOC, publicado em abril de 2025.
“As redes criminosas investem cada vez mais as receitas ilícitas em um sistema financeiro paralelo, que foi projetado para proteger e aumentar sua riqueza obtida de atividades ilegais”, alerta o Relatório de Avaliação da Ameaça do Crime Organizado Grave 2025, da EUROPOL. “A infiltração em estruturas empresariais legais permite que o crime organizado cresça em poder e influência.”
Europa, elo decisivo
A pressão sobre os portos europeus atingiu níveis recordes em 2022, quando as autoridades apreenderam 356 toneladas de cocaína. De acordo com a GI-TOC, as organizações criminosas aperfeiçoaram a infiltração em terminais europeus, por meio de empresas de fachada e uma estrutura fragmentada, onde a cooperação substitui a liderança individual.
“Este já não é um negócio de um diretor executivo (CEO) ou apenas dos cartéis mexicanos. É um negócio onde há muitos grupos, há muitos interesses, mas são criminosos que estão cooperando e colaborando entre si, sem que haja necessariamente um chefe ou um CEO”, explicou Botero. “Há emissários desses grupos operando na África Ocidental e estabelecendo contatos com as máfias italiana, albanesa e irlandesa, para distribuir drogas e mercadorias ilícitas na Europa. Portanto, não há um CEO, há vários chefes, muito mais fragmentados, que se beneficiam com esse negócio”.
América Latina: Laboratório da mutação criminosa
O fenômeno também transforma sua região de origem. A América Latina, tradicionalmente o ponto de partida da produção de drogas, vê os cartéis se tornarem redes de empresas menores e cooperativas. Uma análise do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), publicada em outubro de 2025, descreve os cartéis como “uma rede transnacional de empresas menores, relativamente independentes, que operam de forma horizontal”.
Na Colômbia, a Direção de Investigação Criminal, a Interpol e a Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA) desmantelaram, em outubro de 2025, uma célula invisível do Clã do Golfo, cujos membros coordenavam remessas de Urabá para Honduras, México e Estados Unidos, revelou o jornal colombiano El Tiempo.
Desafio para as democracias: inimigo imerso na economia
A questão mais urgente que os governos regionais enfrentam é como combater organizações que conseguiram se camuflar na economia formal. Insight Crime adverte que as políticas devem se concentrar nos efeitos econômicos das atividades ilícitas e Botero insiste em uma estratégia que contemple todo o ecossistema criminoso.
A diversificação financeira das organizações criminosas transnacionais é profunda. “O narcotráfico é um elo fundamental, mas há outros crimes. No Equador, grupos como Los Lobos consideram a mineração ilegal de ouro um negócio mais lucrativo do que a cocaína. Mas é o dinheiro do narcotráfico que alimenta e sustenta a expansão de suas operações de mineração”, disse Botero.
A natureza mutável do crime organizado transnacional mudou sua face, mas não suas consequências mortais. Persistem os acertos de contas e a erosão da segurança cidadã, adverte o jornal colombiano Portafolio, uma nuance que redefine o desafio para as democracias do hemisfério.


