O Belize está reestruturando, sob um comando unificado, sua resposta à violência das gangues criminosas, integrando inteligência, análise, investigações e aplicação da lei, além de reforçar o uso de dados para antecipar o crime, em vez de reagir a ele. Em 3 de julho de 2026, o Departamento de Polícia de Belize criou a Equipe de Prevenção e Combate à Violência (VPAET), uma unidade nacional para coordenar esforços direcionados a criminosos de alto risco.
A VPAET, sob o comando do superintendente adjunto da Polícia Rodney Jones, foi integrada a uma estrutura de supervisão que também abrange a Unidade de Inteligência de Liderança (LIU) e a Unidade de Inteligência, Investigação e Interdição de Gangues (GI3). As três unidades ficaram sob a supervisão geral do superintendente sênior Christopher Noble.
A instituição afirma que reunir as três unidades sob um único comando fortalecerá a coordenação, melhorará o intercâmbio de informações e evitará a duplicação de esforços. A VPAET busca lidar com criminosos de alto risco por meio de vigilância seletiva, patrulhamento preventivo e operações para desmantelar lideranças criminosas e reduzir os crimes violentos, informou o Breaking Belize News.
A reorganização coincidiu com um esforço mais amplo para fortalecer a Polícia. Em julho, o ministro do Interior, Julius Espat, convocou ex-delegados e altos comandantes para analisar a prevenção do crime, a eficiência institucional, a confiança pública e as condições de trabalho dos policiais, informou a Love FM.
A eficiência como doutrina
O Centro de Fusão Criminal, criado no final de 2025, busca o mesmo objetivo no âmbito da informação: eliminar barreiras ao intercâmbio oportuno de dados, para que investigadores e comandantes respondam de forma mais rápida e estratégica às tendências do crime. A centralização da análise de inteligência e da coordenação tem como objetivo fortalecer a prevenção, as investigações e as operações policiais em todo o país, informou a Love FM.
“Analisamos o departamento para melhorar a eficiência e eliminar redundâncias, e percebemos que o Centro Conjunto de Coordenação de Inteligência, a Interpol e [o Centro Conjunto de Coordenação de Inteligência] COMPSTAT duplicavam esforços e não se comunicavam como deveriam”, disse à imprensa o delegado de polícia de Belize, Richard Rosado. “Assim, nos reunimos como equipe de comando e criamos o Centro de Fusão Criminal.”
A iniciativa também busca superar outro desafio: a interoperabilidade entre os bancos de dados. Segundo Rosado, a Polícia dispõe de sistemas separados para impressões digitais, antecedentes criminais e gestão de crimes, enquanto instituições como Imigração, Alfândega e Transportes administram outros bancos de dados com informações relevantes para as investigações. O objetivo do Centro de Fusão é aproveitar a análise em tempo real, a inteligência artificial e os dados de diferentes instituições para apoiar as operações policiais.
“No caso de Belize, integrar inteligência, investigações e operações policiais sob um mesmo processo decisório único é relevante devido às características do país”, disse ao Diálogo Vanessa Cárdenas, pesquisadora em crime organizado do Observatório de Assuntos Internacionais da Universidade Finis Terrae, do Chile. “Para uma força policial como a de Belize, compartilhar informações de inteligência e analisar dados permite direcionar melhor seus esforços.”
Ameaças transnacionais
A reorganização ocorre enquanto Belize continua enfrentando ameaças criminosas que ultrapassam suas fronteiras. O país figura entre os principais países de trânsito de drogas identificados pelos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026, uma situação ligada, entre outros fatores, à sua localização geográfica e às rotas regionais utilizadas para o transporte de narcóticos e outros bens ilícitos.
A localização de Belize entre a América do Sul, o México e o Caribe, somada às suas fronteiras terrestres e marítimas, transforma o país em um ponto de trânsito explorado por organizações criminosas transnacionais. As limitações de recursos, inteligência e capacidade investigativa têm representado, além disso, um desafio para as instituições encarregadas de combater essas redes.
Diante desse cenário, a reorganização busca aproveitar melhor os recursos disponíveis por meio de um maior uso de inteligência e análise. “Belize precisa fortalecer capacidades especializadas, como investigação e análise, independentemente do tamanho de sua força policial”, destacou Cárdenas.
Tecnologia, capacitação e cooperação
A estrutura organizacional só funciona se contar com as ferramentas e o pessoal necessários para transformar dados em inteligência operacional. Equipar o Centro de Fusão de programas com software para analisar redes e dados e produzir mapas ajudaria a conectar informações que atualmente estão dispersas, além de formar analistas capazes de gerenciar esses bancos de dados e decidir quais utilizar, disse Cárdenas. “Os EUA já apoiaram esse tipo de capacitação em outros países do Caribe”, acrescentou.
Esse tipo de capacidade também integra a cooperação de segurança entre Belize e seus parceiros. Os Estados Unidos têm apoiado os esforços de Belize para fortalecer investigações baseadas em inteligência e melhorar a interoperabilidade e a compatibilidade dos sistemas de comunicação de suas forças de segurança no combate ao tráfico de drogas.
“A cooperação de Belize com os EUA e outros parceiros regionais é fundamental para viabilizar esse modelo de integração, voltado a eliminar redundâncias e aproveitar melhor as informações de seus bancos de dados”, afirmou Cárdenas.
Belize também comprovou o valor do intercâmbio de inteligência em operações regionais. Durante a Operação Orca XI, realizada entre outubro e novembro de 2025 em 20 países da América Latina e do Caribe, a INTERPOL apoiou os países participantes na análise de inteligência sobre tráfico de armas, na elaboração de avaliações nacionais de ameaças e na coordenação do intercâmbio transfronteiriço de informações.
A operação, da qual Belize participou, resultou em 8.701 prisões, na apreensão de 3.308 armas de fogo apreendidas e no confisco de 56 toneladas de drogas. Além dos números, a preparação da Orca XI mostrou como o intercâmbio de informações entre países pode orientar operações contra redes criminosas que atuam em várias jurisdições.
O próximo passo é manter esse fluxo de forma permanente. “Belize precisa de acesso a bancos de dados sobre membros de gangues deportados e sobre aqueles que viajaram para os EUA. Também precisa trocar informações em tempo real, sobretudo com a Guatemala e o México, que fazem parte da rota do crime”, disse Cárdenas. “Essa cooperação também ajuda a gerar confiança para o compartilhamento de bancos de dados, algo que representa um grande problema na América Latina e no Caribe; e, nesse sentido, o apoio dos EUA pode facilitar essa troca.”
A integração das unidades especializadas e da análise de inteligência permite concentrar informações que antes permaneciam dispersas entre diferentes áreas e instituições. Para uma força policial relativamente pequena, esse fluxo de informações pode ajudar a identificar conexões entre indivíduos, rotas e atividades criminosas, direcionar melhor os recursos e apoiar investigações e operações específicas.
Essa capacidade adquire especial relevância diante de organizações criminosas que operam além das fronteiras e distribuem suas atividades entre diferentes países. Ao conectar inteligência, investigações e operações, e reforçar a troca de informações com parceiros regionais, Belize amplia sua capacidade de agir contra as redes criminosas, indo além de crimes ou atores individuais.